sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Estamos no ar, pessoal!

 Gente, eu nem pensei que um dia ia postar isso aqui, mas Noturno em Sol Maior (o nome verdadeiro dO Conservatório) está no ar, na Amazon.

Obrigada a todo mundo que contribuiu nessa jornada.

Cliquem na capa para ir para a Amazon.

Capa com fundo roxo, teclas de piano azuis desalinhadas, notas musicais e morcegos. Na frente, tem as silhuetas de uma moça e um rapaz em amarelo. O título está no fundo, à esquerda, com uma fonte meio grunge.



quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Agatha Christie, escritora de fantasia

(O texto original é de 11/03/2011, postei na mailing list da ACBR (Agatha Christie Brasil). Estou postando aqui no blog pra resgatar meus textos antigos sobre a AC. Bom proveito!)


Você já deve ter ouvido o nome dela ao menos uma vez na vida. Ela é a Rainha do Crime, uma das autoras mais vendidas de todos os tempos, atrás apenas de Shakespeare, e sua peça A Ratoeira detém no Guiness Book o recorde de peça a mais tempo em cartaz: são 58 anos ininterruptos de apresentação.
Esse ano, Agatha Christie faria 120 anos. Em comemoração, gostaria de trazer à baila um lado dela que costuma ser desconhecido ou ignorado da Dama, mas que sempre esteve lá: Agatha Christie, escritora de fantasia.
Agatha Mary Clarissa Miller nasceu em 1890, em Torquay, na Inglaterra. O país estava em plena era vitoriana, e isso se refletiu em sua formação. Ela morava em uma antiga mansão inglesa com seus pais, uma irmã e um irmão. Desde criança, era muito imaginativa. Brincava de faz-de-conta e aprendeu a ler sozinha, aos cinco anos. Suas leituras preferidas quando criança eram as histórias do Antigo Testamento e livros vitorianos com histórias de mortes trágicas. Mais tarde, Agatha se deliciaria com as histórias de sua irmã mais velha e com livros infantis de contos de fadas.
Tia Agatha (tenho o hábito de chamá-la assim, carinhosamente) continuou crescendo uma criança tímida, e lia muito. Aos “dezessete ou dezoito anos”, conforme narra sua autobiografia, escrevia poemas, alguns retratando os personagens da commedia dell’arte, e chegou a ganhar alguns prêmios de uma revista com eles.
Aproximadamente por esse período, enquanto convalescia de uma gripe, Agatha Christie estava entediada e recebeu de sua mãe a sugestão de escrever histórias. Ela produziu vários contos e mandou para muitas revistas, sendo recusada em todas elas. Enquanto isso, resolveu escrever um romance, que sua mãe enviou a Eden Phillpotts, na época, um escritor famoso e amigo da família. Phillpotts fez uma crítica branda, mas firme, dando conselhos de leituras e procedimentos que melhorariam a escrita da moça. Ele também enviou o romance dela e seu editor, mais para que ela tivesse a experiência de se ver frente a frente com ele que por alguma esperança de publicação.
Depois dessa nova recusa, Agatha Christie voltou-se algum tempo para suas ambições musicais, enquanto continuava lendo histórias paranormais e escrevendo contos por passatempo. Mais tarde, ela sentiria vontade de escrever um romance policial e a insistência de sua irmã de que aquilo era difícil demais para ela plantaria a semente da escritora que tia Agatha viria a ser, mais tarde.
Por que estou dizendo tudo isso?
As biografias de Agatha Christie geralmente começam a falar de sua carreira literária a partir da escrita de seu primeiro romance policial, O Segredo de Styles. Pouco é dito ou sugerido dessa sua fase juvenil de escritora por diversão e não me lembro de ter lido em lugar nenhum que, nessa fase, a Dama do Crime escrevia fantasia.
Muitos dos contos que ela escreveu nessa época foram reescritos e publicados nos anos 20 e 30, por revistas e em uma coletânea de contos. Nas próximas páginas, iremos fazer uma viagem pelo fantástico na obra de Agatha Christie. Tanto o fantástico que permeia sua obra policial quanto o fantástico dessa primeira fase de sua carreira. Os fãs mais antigos da Dama irão reencontrar velhos amigos – como reencontrei ao escrever esse artigo – e talvez os novos descubram um encanto que não julgavam existir nos livros dela.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

RIP Museu Nacional

Ainda estou tão chateada com o incêndio do nosso Museu Nacional. É nosso incêndio de Alexandria particular. :(
O discurso do Alexandre é só meu meio particular de lidar com isso. :(




quinta-feira, 7 de junho de 2018

Cristina é 70% ódio da humanidade, 25% niilismo autodestrutivo e 5% sentimentos reprimidos




 








Adivinha quem estava fazendo uma revisão definitiva no Conservatório?

Fiz umas artes conceituais em inglês pros gringos conhecerem a Cristina e o Diego. Aproveitem:


quinta-feira, 22 de junho de 2017

Motivo e Oportunidade: um estudo de caso dos modelos cognitivos ideais em um conto de Agatha Christie

Apresentado para a Disciplina de Referenciais de Pesquisa, do Programa de Mestrado em Educação da FAE-UFMG, em outubro de 2013.

-------


1 – Introdução

Uma de minhas escritoras favoritas é a inglesa Dame Agatha Christie. Muitas horas de minha vida foram gastas lendo seus oitenta romances, e através dela, conheci e passei a admirar o gênero literário conhecido como “literatura policial”. Diferentemente de outros gêneros, há um nível de imersão tão grande em alguns desses livros, que eles ficam na fronteira entre o livro e o jogo. Compreender o que há de tão especial nos romances policiais sempre foi uma de minhas paixões literárias, e acredito que os estudos realizados por vários pesquisadores a respeito de como nossa mente categoriza seja uma forma de alcançar essa compreensão.
Antes de mais nada, é preciso apresentar o gênero policial àqueles que têm pouco ou nenhum contato com ele. A literatura policial é um gênero difícil de definir. Suas histórias, de maneira geral, apresentam um crime e um investigador que irá procurar solucionar os problemas gerados por esse crime. Em alguns livros, o “problema” é resolver o mistério da identidade do criminoso (ou de como ele pôde cometer tal crime). Em outros, não há mistério, mas uma trama criminosa que deve ser impedida pelo investigador em um clima de constante suspense.
Vou me ater, daqui por diante, ao primeiro tipo acima: o romance policial em que há um mistério a ser desvendado. Esse subgênero pode ser chamado de “romance policial inglês clássico” ou “romance de enigma” (ao qual pertencem Agatha Christie e Conan Doyle), e teve seu ápice na Inglaterra, durante o período entre-guerras.
Tzvetan Todorov (2006), em seu livro As Estruturas Narrativas, tem um capítulo dedicado à “Tipologia do Romance Policial”. Nele, há essa constatação, ligeiramente mal-humorada, sobre o gênero:

“A obra-prima habitual não entra em nenhum gênero senão o seu próprio; mas a obra-prima da literatura de massa é precisamente o livro que melhor se inscreve no seu gênero. O romance policial tem suas normas; fazer ‘melhor’ do que elas pedem é ao mesmo tempo fazer ‘pior’: quem quer ‘embelezar’ o romance policial faz ‘literatura’, não romance policial.”
Com todo o respeito que tenho a Todorov (e tenho muito respeito pelos livros dele que já li), sou obrigada a discordar firmemente dessa afirmativa, especialmente no tocante ao subgênero “romance de enigma”. Após anos lendo livros policiais, percebi que o bom romance policial, é justamente a história subversiva; aquela que, estando consciente de suas normas, de alguma forma, quebra-as deliberadamente para surpreender o leitor. Sem algum tipo de subversão, não há surpresa.
Não que eu acredite que o respeitável teórico acima tenha toda a culpa por fazer essa afirmativa: ele baseou muito de sua tipologia no que disseram os “teóricos do gênero”, especialmente os membros do Detection Club da Inglaterra, um clube de autores policiais famosos, dedicados a estudar e “proteger” o gênero policial. Esses teóricos são os principais responsáveis por essa visão de que o único romance policial que possa ser considerado “bom” é o que segue à risca todas as “regras” silenciosas desse gênero. Um dos presidentes do Detection Club, Van Dine, chegou mesmo a escrever e publicar uma série de regras que, segundo eles, jamais deveriam ser quebradas em um bom policial. Isso não impediu que todos os bons romances do período entre-guerras tenham subvertido ao menos uma delas.
A razão pela qual trago essa discussão de gênero literário para um trabalho sobre categorização por modelos cognitivos ideais, ou ICMs, (isso é, os pressupostos por trás de como fazemos uma categorização) é que acredito que são poucos os gêneros literários onde ICMs podem ser vistos em ação com toda a clareza. Mais que isso: enquanto bons escritores de outros gêneros podem fazer boa ficção com um conhecimento apenas intuitivo dos pressupostos de seu gênero, um escritor de romance policial necessariamente tem que conhecer algo dos modelos mentais formados por seus leitores, caso queira manter o mistério da história até o fim.
Em outras palavras, creio que o romance policial é um jogo cognitivo entre o autor e o leitor, em que um tenta deduzir e se adiantar às estruturas narrativas que crê que o outro está utilizando. E, dentre todos os autores policiais que conheci, poucos jogaram esse jogo tão bem quanto Agatha Christie. Essa é a razão pela qual escolhi um de seus contos, “O Móvel do Crime” (Motive versus Opportunity), como estudo de caso da aplicação de ICMs.
Antes de passarmos para essa parte, permitam-me uma breve explicação a respeito do que são ICMs.


terça-feira, 29 de setembro de 2015

Resenhas de Drácula anotado e Lovecrat anotado

Comprei e li as duas obras juntas. Aqui vão as impressões:

Annotated Dracula (Bram Stoker & Leslie Klinger):

Eu já conhecia Leslie Klinger do monumental Sherlock Holmes Anotado, que foi publicado no Brasil em 9 volumes pela Editora Zahar. O autor é um estudioso sherlockiano apaixonado e eu fiz questão de colocar todos os volumes na estante. Essa obra é uma mina de ouro para informações da era vitoriana, além de trazer muitas interpretações alternativas das histórias de Sherlock, que são uma forma interessante de perceber contradições e furos nas histórias (ou, simplesmente, outras maneiras de se interpretar os mesmos acontecimentos). Além disso, os livros são feitos sob a premissa de que Holmes e Watson eram pessoas reais, e que Conan Doyle foi só o agente literário de Watson. Essa ficção inocente dá um sabor especial às discussões das histórias, e ao material complementar.

O Drácula Anotado foi feito depois dessa empreitada, e tudo o que eu disse em relação à obra acima pode ser dito em relação a essa. É visível que Klinger é apaixonado pela Inglaterra vitoriana. E Drácula é um livro com uma extensa bibliografia acadêmica, de onde o autor pôde tirar muita informação para suas notas. A "ficção" de que Drácula é um livro real é feita aqui (de uma maneira um pouco menos isenta do que em Sherlock Holmes, talvez porque o autor não parece ser tão fã de Drácula quanto de Sherlock), o que leva àquelas interpretações alternativas instigantes e reveladoras que citei ali acima. Por mais que eu tenha minhas próprias teorias a respeito de Drácula, o trabalho de Klinger foi tão abrangente e completo que ele adicionou ao invés de me irritar, como eu temia antes de ler o livro. Sabe como é, quando você gosta demais de algo, pode se tornar muito "protetor" do que gosta e ficar chato. Fico feliz de saber que ainda não estou tão chata. xD

Foi um livro quase perfeito para mim, pedindo só um pouquinho a mais de "vozes" e "teorias" diferentes, mas muito prazeroso. Ah, sim, vale a pena dizer que o autor é uma das poucas pessoas que pôde comparar o manuscrito original com a versão impressa do livro, e ele traz muitas informações inéditas para fãs e estudiosos do vampirão mais famoso do mundo.

Uma coisa que eu sei que é problemática para outras pessoas (apesar de não ter me incomodado) é que Klinger colocou tantas notas, mas TANTAS NOTAS que o texto frequentemente tem que ser interrompido por páginas só de notas. Como já estou mais que acostumada com a história e comprei só pelas notas, mesmo, não me incomodou. Além disso, amo textos com notas. Odeio ter que ficar indo ao fim do capítulo ler as notas, como no Sherlock Anotado, e amei o esquema de Drácula Anotado, colocando as notas nas margens. Infelizmente, sou obrigada a concordar que muita gente acha as interrupções do texto irritantes, e seria melhor ter arrumando outra maneira de colocar essas notas sem interromper o fluxo do texto.

No mais, a apresentação é maravilhosa. Vivo reclamando que as edições de Drácula raramente têm uma capa decente, mas a dessa edição é linda. As ilustrações são lindas, tudo é lindo. No início, eu estava receosa de comprar esse livro e ele aparecer traduzido no Brasil logo depois, mas agora, não tenho esse medo. A edição brasileira dificilmente seria tão luxuosa, e como Drácula é a inspiração de Bram & Vlad, uma das minhas maiores empreitadas criativas, então acho que merece esse pequeno "esbanjamento" de minha parte.



Annotated Lovecraft (H. P. Lovecraft & Leslie Klinger):

Eeeeee... Como eu queria dizer tudo o que eu disse acima a respeito de Annotated Lovecraft. A edição é maravilhinda, as ilustrações são lindas, tem menos notas que Drácula Anotado, e portanto o texto flui... E isso é parte do problema.

Em Sherlock Holmes Anotado e em Drácula Anotado, é possível ver paixão. Não é só o número de notas, é também a paixão pela "ficção" de que essas histórias realmente aconteceram, que levam àquele sabor delicioso de "aprender brincando". As especulações a respeito de "quem poderia ser o personagem tal no mundo real" levam o autor a explorar muitas personalidades reais que não foram abordadas pelas obras. Para mim, uma das grandes forças dos outros livros anotados que li do Klinger foi a forte intertextualidade, e o respeito e estima pelo "universo mítico" dos respectivos autores. Eram obras intelectuais, sim, mas com paixão.

O Lovecraft Anotado... não tem muito disso. É um livro muito mais "frio". A "ficção" está lá, mas muito distante. O Klinger faz um monumental dever de casa, traz toneladas de notas históricas maravilhosas, mas eu não consegui ver nesse livro aquela paixão pela obra do autor que existe nos livros anteriores.

A intertextualidade é pífia ou quase nula. Em O Caso de Charles Dexter Ward, por exemplo, há uma quantidade gigante e cansativa (para mim) de notas sobre Providence e as personalidades reais citadas no texto. Mas procure alguma anotação sobre o "universo" de Lovecraft e você se desaponta. Não tem quase nada sobre o elusivo Yog-Sototh, tão mencionado no texto. Nenhuma especulação sobre as "vítimas" de Joseph Curwen. Nenhum comentário sobre as explorações do Dr. Willet. Pelo amor de Deus, o Lovecraft estava piscando tanto quando colocou suas referências a Drácula no texto que só faltou chamar um personagem tal de Alucard e não tem nem uma notazinha reconhecendo isso. Nem. Uma.

Em Nas Montanhas da Loucura, temos lindas notas sobre as expedições antárticas, os aviões e tudo o mais, mas muito pouco sobre as conexões mil entre essa obra e outras. Nenhuma especulação sobre qual poderia ser a "Expedição Starkweather-Moore". Nessa história há mesmo uma nota onde Klinger diz que Lovecraft, em determinado ponto, escreve "pteridófita" quando deveria dizer "pterodáctilo", mas no contexto, tio HP escreveu perfeitamente certo. Ele estava falando de estruturas vegetais nas asas dos aliens, não sobre as asas em si. Uma falta de atenção imperdoável de um anotador tão cuidadoso. Tem outras, mas essa é uma das mais óbvias.

Enquanto não dava pra ler Sherlock Holmes Anotado e Drácula Anotado sem ter ao menos uma nota por página, Lovecraft Anotado tem páginas e páginas de texto sem anotação, sem comentários de personagens recorrentes, sem nada... Deu vontade de pegar minha caneta nanquim e fazer as anotações eu mesma. Ainda não me convenci a não fazer isso. Dane-se "estragar o livro", ele é meu e eu comprei pela informação, não pela beleza.

Enfim, me pareceu uma obra feita quase que com "má vontade", quando se compara com as demais.

Continua sendo uma edição obrigatória para grandes fãs de Lovecraft, e, se eu tivesse a oportunidade, não devolveria, nem pediria o dinheiro de volta. Só fiquei um tiquitinho decepcionada. É como se o melhor chef do mundo convidasse você para um jantar e te levasse no restaurante de outro, que ainda por cima tem uma estrela a menos. OK, a comida vai continuar sendo boa, muito acima do que você normalmente come, mas não dá para evitar a decepção.

Minhas teorias são que (a) reclamaram tanto que Drácula Anotado tinha anotações demais e que a "ficção" do Klinger não era legal, blábláblá, que ele resolveu ser "sério" (o que é um enorme desperdício) ou (b) como Lovecraft está na moda, chegaram um dinheiro no autor pra fazer essa edição anotada e ele pegou o trabalho, mesmo não ligando muito para a obra.

Para mim, é uma afronta pessoal que Lovecraft Anotado tenha mais estrelas na Amazon que Drácula Anotado. Sério, caras, não.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Gatinho carente

Eu estava relendo o manuscrito de O Conservatório e isso aconteceu:

Vampiros são só gatinhos carentes.


Não, não tenho vergonha nenhuma. E sim, sei que o mais provável é que a Cristina lançasse o Diego fora do sofá, mas ela tem um fraco por gatos.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A arte de ser do contra

No meu tumblr, escrevi um pequeno texto sobre a questão da representatividade nos quadrinhos que me atrevo a fazer, para servir de introdução ao Manifesto Irradiativo. Aqui, achei de bom tamanho dar um depoimento sobre o que isso significa pra mim na literatura, antes de linkar vocês para ele.

Desde sempre, minha grande preocupação foi que meus protagonistas fossem legais de escrever. E "legais de escrever" para mim sempre foram os personagens que tinham algo de diferente dos outros, e como essa diferença muda bastante (ou, paradoxalmente, não muda absolutamente em nada) a forma como essa pessoa interage com o mundo cotidiano. Se existe um tema que vai aparecer em quase todos os meus escritos mais longos, em todos os meus quadrinhos, é isso. É uma coisa que realmente me dá prazer de explorar. Sendo assim, todo protagonista meu é, por definição, diferente. E eu vou dizer um negócio, isso é delicioso. Alguns estão na minha zona de conforto, outros são um desafio delicioso.

Mas sabe o que é mais delicioso? É depois de tudo, você ver que aquilo que você achava que era alien, que você estava colocando por "diversidade", por "desafio", ou simplesmente, por "diversão", estava ali dentro de você o tempo todo. E é aí que sua própria atitude para com as pessoas "diferentes" muda, porque elas não são diferentes de verdade. Elas podem ter muito em comum com você.

Como é o blog do Conservatório, posso falar sobre os protagonistas dele, a Cristina e o Diego. O que me pus como desafio com a Cristina é que nasceu como uma reação às protagonistas doces e nobres de young-adult. Cristina é mal-humorada, frequentemente mal-educada, é solitária mas não quer fazer amigos, é cética, ateia e tem toda o romantismo de uma batida policial. Muitas dessas características não são só diferentes de mim, elas são o total oposto. Mas não é que eu descobri que escrever a Cristina é delicioso naqueles dias que você acorda de mau humor e quer mais que o mundo se exploda? Foi tão divertido que um pouco da atitude dela foi parar em personagens secundários e várias outras histórias (lalalVladlalaXerémlalala).

Diego? Diego também é uma reação ao interesse romântico todo cheio de pudores e dramas internos. Ele é zoeiro, frequentemente invade o espaço pessoal da mocinha, é extrovertido, convencido e age primeiro para pensar depois. Eu absolutamente não sou extrovertida (embora possa fingir muito bem, se precisar) e não muito fã de... tocar... pessoas... enfim, eu não esperava que escrever Diego seria gostoso como foi.

Eu podia ficar aqui detalhando cada um dos meus cerca 65 protagonistas (ah, não acredita? Pus a planilha no Dropbox. Contemplem.), mas acho que já entenderam o espírito da coisa. E nem estou falando dos secundários, que também recebem muito carinho e onde também aproveito para colocar muita coisa. Basicamente, sabe quando acusam os secundários de serem mais interessantes que o protagonista, porque as pessoas não arriscam com protagonistas? Digamos que não me sinto motivada a escrever uma história a menos que meu protagonista seja um desses secundários legais.

Isso dito, toda vez que vejo gente falando que os personagens principais tem que ser genéricos para o pessoal se identificar (sendo que "genérico" geralmente significa "homem-hétero-cis-branco") e que a luta por representatividade na literatura é "bobagem politicamente correta", eu morro um pouco por dentro. Representatividade significa novos mundos psicológicos para explorar, novas histórias para contar, novas coisas para descobrir sobre o outro e sobre você. Quem, em sã consciência, não está agora mesmo explorando esse mundo todo? Quem, em sã consciência, não está saindo do seu pequeno círculo criativo para contar novas histórias, irradiando para mais longe do que antes?

Agora, sim, acho que estão no estado de espírito certo para ler essa iniciativa bacaníssima dos escritores Jim Anotsu e Alliah, o Manifesto Irradiativo. Assine e irradie. Literatura diversa é literatura fresca, território inexplorado.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Diego e Cristina gravam vídeos de protesto

Não olhem assim pra mim, foi ideia deles.



Playlist do Conservatório

Eu não acredito que esse post era só um rascunho até hoje. Eu jurava que tava publicado. ._.

Enfim. XD Em junho (do ano passado...), montei uma playlist rápida no YouTube com as músicas clássicas que são citadas no Conservatório e fiz esse pequeno guia para leigos das músicas e marromenos as relações delas com o livro.

CLIQUE AQUI PARA IR PARA A PLAYLIST

Prelúdio: Prelúdio de Chopin, No. 12 em G# op. 28 (Presto)
Opus 28 é um conjunto de 24 prelúdios para piano, escritos por Chopin. Um fabricante de pianos encomendou a obra. O mais famoso dos prelúdios é o #15, o prelúdio das Gotas de Chuva (Raindrop Prelude). Escolhi o Presto porque isso significa "muito rápido" e o prelúdio do livro são três cenas rápidas. Esse prelúdio tem o "apelido" de "O Duelo" (dado pelo músico Hans von Bülow) e acho que vocês podem dizer que há alguns duelos implícitos nessas três cenas. E mais não digo.

Parte 1: Sinfonia em C menor

Movimento 1: Beethoven, Piano Sonata No. 8 em C menor, Op. 13 (Adagio cantabile) - Pathetique Sonata

A Patethique é uma das obras mais famosas de Beethoven. Ela tem 3 movimentos, o Grave-Allegro, o Adagio Cantabile e o Rondo. Escolhi o Adagio porque adágios são movimentos lentos, geralmente soando tristes. Esse capítulo serve pra mostrar o lado patético da vida da Cristina: escola chata, meninas chatas falando com ela, a leve sugestão de uma vida amorosa... que não dá em nada.

Movimento 2: Concerto de Vivaldi, "La notte", RV 439 (Largo) - Il sonno

"La notte" (A Noite) é um famoso concerto em flauta do Vivaldi, com 6 movimentos. Os mais famosos são o segundo ("Fantasmi") e o quinto ("Il Sonno"). É uma música ótima de se pôr em histórias de vampiro: tem um nome legal e uma atmosfera bem bacana. A princípio, eu ia usar o nome do concerto como título da história, já que o capítulo todo acontece em uma única noite. No fim, escolhi o movimento "Il sonno", já que as coisas também acontecem em um sonho (além disso, o capítulo é grande, achei que um Largo cairia bem).

Movimento 3: Concerto para violino nº 2 de Paganini (Rondo) - La Campanella

"La Campanella" (a sineta) é uma música daquelas bem chicletes. Nunca me canso dela. Na verdade, ela é o treceiro movimento do Concerto para violino nº 2, e o jeito certo de tocar é com uma sineta marcando as recorrências do rondo. Rondo, se você não sabe, é uma melodia que tem certas partes se repetindo, como um refrão. Esse rondo de que estamos falando é tão chiclete que o Lizst, outro gigante da música, fez uma composição usando essa melodia. Gente Da Música diz que La Campanella tem uma atmosfera cigana, o que a faz perfeita para o capítulo onde Diego é apresentado. Isso e o fato de uma sineta ter um papel importante nesse capítulo. Fora isso, o capítulo tem suas "voltas", como um rondo.

Movimento 4: Quinta sinfonia de Beethoven em C menor (Allegro Con Brio) - Destino

Qualé, gente. É a Quinta Sinfonia. Tã-tã-tãããm. O que mais você quer ouvir sobre ela? Tá, vamos ver.

Algumas pessoas dizem (não é oficial, mas é bem conhecido) que a sinfonia representa "o Destino batendo à porta". Beethoven pensava no tom de C menor como "tempestuoso e heroico". Isso é o que faz essa sinfonia perfeita pro capítulo: é onde o destino bate na porta de Cristina e dó menor é a nota dela. Ela é tempestuosa e heroica... do seu jeito. Escolhi o Allegro porque é o movimento mais famoso e porque "Allegro con brio" significa "rápido e brilhante, com vigor e espírito", e é assim que Diego toca no concerto que acontece no capítulo.

Movimento 5: Serenata de cordas nº 13 em G maior, K. 525, de Mozart (Minueto) - Eine kleine Natchmusik

"Eine kleine Natchmusik" significa "uma pequena serenata" (algumas pessoas traduzem errado como "uma pequena canção noturna" e eu uso esse erro no capítulo). É a música do Diego, usando a nota do Diego, G maior. Você provavelmente conhece o primeiro movimento dessa música, o Allegro. Escolhi o Minueto porque esse nome vem de uma dança, e esse capítulo é um tipo de dança, se você pensar sobre isso.

Parte 2: Ópera em F menor

Os atos da ópera não são nomeados.

Parte 3: Noturno em G maior

Movimento 1: Fantasia sinfônica de Tchaikovsky em homenagem a Shakespeare, Op. 18 (Fantasia de Abertura) - A Tempestade

Essa música é baseada na peça de Shakespeare chamada "A Tempestade", se não ficou claro o bastante. Escolhi essa música porque tem um brainstorm nesse capítulo e porque "fantasia" é uma composição que é quase uma improvisação inspirada. Daqui por diante, não posso explicar muito pra vocês porque essa última parte é cheia de spoilers.

Movimento 2: Quarteto de Cordas de Mozart em B-bemol Maior, K. 458 (Allegro vivace assai) - A caçada

Essa peça é um quarteto dedicado a Haydn (um grande músico que Mozart admirava). A Wikipedia diz que ela é usada em vários filmes. Vou acreditar porque não sou uma fã enorme de filmes. Escolhi essa música porque ela se chama "Caçada". Não falarei mais nada. Peguei o allegro vivace assai porque isso, em música, basicamente significa "muito muito muito muito rápido".

Movimento 3: Quarteto de Cordas de Schubert Nº 14 em D menor (Scherzo) - A Morte e a Donzela

Schubert escreveu essa peça quando estava terminalmente doente e tudo nessa música é sobre a morte se aproximando e o músico se rebelando contra isso. É baseada em um poema chamado "A Morte e a Donzela", de Matthias Claudius. Acho que é bem claro por que essa música está aqui. Sobre o porquê do movimento ser o Scherzo, não digo. Se virem.

Movimento 4: A Valquíria, de Wagner, Ato III (Prelúdio) - A Cavalgada das Valquírias

Experts em música conhecem essa como o prelúdio de um dos atos da famosa ópera de Wagner, A Valquíria. Vocês provavelmente conhecem como a música que toca quando os aviões bombardeiam o Vietnã em Apocalypse Now. Essa música é tão icônica que nunca conheci quem não a tivesse escutado.

Como curiosidade sobre a ópera, A Valquíria é a segunda parte do ciclo do Anel dos Nibelungos, de Wagner. A história de A Valquíria é longa e confusa, mas é basicamente sobre incesto entre gêmeos e uma valquíria rebelde. Sério. Eu não conseguiria inventar isso sozinha.

Vou deixar vocês decidirem por que essa música específica encerra o livro. :evillaugh:

Outras peças

Essas músicas são mencionadas no livro, tocadas pelos personagens, ou só importantes no geral:

Sinfonia No. 9 em D menor de Beethoven, Op. 125 - Quarto Movimento, "Ode à Felicidade"

Também conhecida como "Sinfonia Coral", é uma das maiores obras musicais jamais escritas. O quarto movimento, "Ode à Felicidade", é nada menos que uma das mais famosas músicas de todos os tempos. Sério, o tempo de gravação em um CD é de uma hora e vinte de música porque esse é o tamanho dessa sinfonia. A letra vem de um poema escrito por Friedrich Schiller (um poeta muito famoso) e foi encomendada pela Sociedade Filarmônica de Londres.

Musette em D menor de Bach

Não sei muito sobre ela, só sei que é simples de tocar. Eu queria uma música que uma criança pudesse praticar e uma amiga me recomendou essa.

Sonata ao Luar de Beethoven

Eu gosto de Beethoven, OK? Essa é uma das minhas favoritas. Cristina a toca à meia noite, embora não esteja, tecnicamente, ao luar naquela cena.

Ave Maria de Gounod

A Ave Maria mais famosa de todos os tempos. Cristina toca em um desafio. Eu queria uma música que exigisse bem de uma soprano.

Réquiem em D Menor de Mozart - Canção "Dies Irae"

Haveria um capítulo entitulado "Dies Irae" no livro, mas acabei cortando e colocando as partes úteis em "A Tempestade". É impossível ouvir essa música e não ficar sentado apreensivo na beirada da cadeira. Ela é tão épica que seu cérebro explode toda vez que ela toca (alguns trailers a usam, já que está em domínio público). Amo tanto essa música que talvez eu crie um conto chamado "Dies Irae" só pra usá-la.
A seção de comentários do You Tube está além de qualquer salvação, mas foi lá que vi a melhor descrição dessa música: "Deus deu a Mozart 2 minutos pra fazer algo épico. Mozart fez isso e ainda sobraram 10 segundos."

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Maratona de cinema

Nossa, tem mesmo tanto tempo que não escrevo aqui? o.o

Eu pensei que tinha postado meu artigo acadêmico sobre Agatha Christie aqui. D: Oh, well, fica pra outro dia, porque agora, quero falar da minha jornada pelos filmes clássicos de Drácula. :3

Quando alguém fala em voz alta o nome “Drácula”, é difícil dizer o que vai na mente dessa pessoa. É um dos personagens mais revividos, recontados e reinventados da cultura pop. Embora tenha sido apresentado ao mundo por Bram Stoker no ano de 1897, é seguro afirmar que a maioria das pessoas tem uma figura dele em mente que foi moldada no cinema a partir do filme Drácula, de 1931, com o Bela Lugosi no papel-título. Sendo assim, Drácula não é um, é muitos. Para conhecer esses muitos, decidi assistir aos filmes mais clássicos de Drácula por aí e formar minhas próprias opiniões.

Como tenho uma tirinha que é derivada do livro Drácula, é justo dizer que tenho mais familiaridade com ele do que com os outros retratos do personagem. Toda vez que vou fazer um arco narrativo importante e/ou introduzir um novo personagem, acabo lendo o livro quase todo de novo – já devo ter lido de capa a capa umas seis vezes, e conheço alguns trechos quase de cor. A parte boa é que não é um sacrifício pra mim fazer isso, porque gosto do livro e vim a amar os personagens. A parte ruim é que isso faz com que eu pareça obcecada por esse livro, a ponto de não ter outro assunto. (o que é mentira, também sou obcecada com Agatha Christie).

Antes de mais nada, deixa eu explicar que não sou o tipo de fã que entra em combustão quando o filme desvia meio milímetro do livro. Livros tipicamente contém horas de plot se desenvolvendo, filmes tipicamente dispõem de duas horas e pouco, quando muito. É temporalmente impossível para um filme dramatizar o livro, e um tanto pobre, também. O filme é sempre uma interpretação do livro. Pra mim, existem filmes bons, que contam sua história ou passam bem sua mensagem e filmes ruins, que se perdem no caminho. E também existem interpretações que eu acho legais ou não, mesmo que eu saiba, no fim, que todas são válidas.

Isso dito, acho que vocês vão entender melhor quando eu classificar os filmes - há um componente meu analisando o filme pelo filme, e um meu analisando o filme contra minha percepção do livro.

Quem dispuser de algum tempo pode ser apresentado à minha percepção lendo meu recap do livro aqui e aqui. Se vocês não tiverem esse tempo, vou resumir os traços que creio serem os mais fortes do livro:

No primeiro ato, Jonathan Harker é mandado para a Transilvânia para vender casas ao Conde Drácula. Apesar de ser recebido com gentileza, Harker logo descobre que algo está muito errado com seu anfitrião.
Passando para o segundo ato, o Conde vai para a Inglaterra, onde ataca a melhor amiga da noiva de Harker. Ela tem um noivo e dois outros pretendentes. Um deles, um psiquiatra preocupado com ela, chama seu mentor e amigo, o Dr. Van Helsing. Esse mesmo psiquiatra está estudando um louco, que parece ser profundamente afetado pela presença de Drácula.

No terceiro ato, Mina e Jonathan Harker se juntam ao grupo, que passam a perseguir Drácula até sua morte.

Os personagens mais marcantes são, em um plano mais próximo, o heroico casal Harker (ambos contribuem com seus diários para a narração) e Renfield, através dos olhos de Dr. Seward (outro narrador). Num plano mais alto, Drácula e Van Helsing, como os dois reis que se digladiam no tabuleiro de xadrez que é a trama. Lucy tem um pouco mais de estofo que outros personagens, mas sua vida relativamente curta como narradora tira um pouco de sua força. Arthur e Quincey são quase descartáveis, pelo pouco desenvolvimento que têm. O Dr. Seward tem uma voz própria, mas ele, como Watson, é um personagem que mais reage do que age. Ele começa reagindo a Renfield (e é graças a ele que Renfield ganha cor e importância, assim como Watson glorifica Holmes) e depois se torna o "leal amigo e biógrafo" de Van Helsing. Entre Renfield e Van Helsing, Seward acaba totalmente eclipsado.

Sabe, pensando bem, não é coincidência que Peter Cushing tenha interpretado Sherlock Holmes e Van Helsing. O que faz dele meu ator preferido ever.

Quando eu for comentar os filmes, é contra isso que vou compará-lo ao decidir se gosto ou não da adaptação. Talvez ajude vocês também a entender minhas análises o fato de que meus personagens preferidos são, do mais preferido ao menos: Van Helsing > Mina > Jonathan > Seward > Lucy > Renfield > Quincey > Arthur >>>>>> Drácula (no livro de Stoker, ele é um vilãozão vitoriano, que mata, estupra, coage e engana sem remorsos, é difícil gostar dele).

Ótimo. Passemos pros filmes.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Pôneis de novo

É, de novo. Meu blog, minhas regras.

Aprendam um pouco sobre a filosofia dos pôneis vampiros. Já falei de My Little Pony e o Conservatório nesse post. E nesse.

Isso são pôneis de cristal: [LINK] Digam se não são Cullens quadrúpedes.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Um bom resumo do relacionamento deles


...Sim, Diego e Cristina têm esse tipo de relacionamento. Diego é masoquista gosta de desafios.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Sobre cães e pessoas

Sei que o que vou dizer não tem nada a ver com literatura ou o que quer que seja, mas precisa ser dito. Quem achar bobagem, pode voltar aqui depois, quando teremos (assim espero), um post mais alto-astral. Mas não posso ficar calada diante dos verdadeiros horrores que presenciei há alguns meses. Esse post ficou nos rascunhos esse tempo todo porque era algo doloroso de se falar.

Quem me acompanha no facebook e quem lê regularmente o Bram & Vlad deve ter ouvido falar da Nina, uma cadelinha que pegamos antes da novela com sua homônima aparecer. Minha mãe e eu a encontramos perdida no centro da cidade e a levamos para casa, depois dela quase ter sido atropelada. Ela se mostrou logo animada e brincalhona, um amor de cachorra, mas era grande demais para nosso apartamento. Procuramos dono para ela e, com muita dificuldade, descobrimos que a moça da limpeza da nossa escola a queria. Pouco depois que a entregamos para a nova dona, saiu o resultado do exame de sangue que fizemos nela: ela estava com leishmaniose.

(Aqui, faço uma pausa para refrescar os conhecimentos de Biologia de vocês: a leishmaniose é causada por protozoários do gênero Leishmania, que podem usar como hospedeiro tanto o homem quanto o cão, e outros mamíferos. A doença é transmitida pela picada do mosquito-palha (ou birigui) e tem duas formas: a cutânea e a visceral. A cutânea é menos grave, e causa feridas horrorosas na pele. A visceral ataca órgãos vitais e é gravíssima.)

Como esse exame às vezes dá falso positivo, fizemos pelo menos três para confirmar. Nesse meio tempo, Nina fugiu da casa da dona e foi parar, três dias depois, na porta do meu prédio, com a maior cara lavada. Sabíamos, então, que ela era nossa responsabilidade, de ninguém mais.

Para encurtar a história, exatos dois meses depois que achamos Nina na rua, veio a resposta final: ela realmente estava com leishmaniose.

Decidir o que fazer foi extremamente difícil. Quer dizer, a leishmaniose tem tratamento. É bem caro, mas existe. Os remédios fortes eventualmente fazem o fígado e os rins do cachorro pararem, mas ele pode ter uma vida relativamente normal até lá. O problema é que o tratamento não impede a transmissão e, como eu disse acima, ela acontece por causa de um mosquito. Tratar leishmaniose significa que você deve, além dos remédios e exames, manter seu cão constantemente protegido contra mosquitos, usando coleiras anti-pulgas e sprays de citronela, além de ter que trancá-lo em um ambiente telado nos horários de maior incidência do mosquito. Se você falhar na proteção do seu cão, bem, Belo Horizonte é um foco gigante de leishmaniose e outros cães e pessoas podem ser infectados. Em caso de idosos e crianças, a doença pode levar à morte. Se querem saber o quanto é difícil controlar surtos de doenças transmitidas por mosquitos, apenas conte há quantos anos você assiste propagandas de combate à dengue na TV.

Se a doença não tivesse esse agravante de passar para seres humanos, seria mais fácil para nós tratarmos a Nina, mas minha família chegou à conclusão que não estávamos preparados para a enorme responsabilidade de impedir que a doença da Nina se alastrasse. Ninguém mais se ofereceu para cuidar dela (se já era difícil quando pensamos que estava saudável...), e fomos ficando sem opção. Por fim, ela foi recolhida pela Prefeitura para o sacrifício.

Não vou dizer que foi a decisão mais agradável para mim, que não restou nenhum traço de culpa, que questionamentos ainda não pipocam aqui e ali. Meu único consolo é que ela está bem, agora, e nem chegou a sofrer com a doença, que deixa o cão num estado lastimável.

Se você está achando que esse foi o horror daqueles meses, saiba que não, não foi.

Durante o período em que estávamos tentando achar um lar para a Nina, minha mãe e eu entramos em contato com o CCZ (Centro de Controle de Zoonoses) de BH, com várias ONGs de proteção aos animais, com pessoas que decidem recolher animais de rua para achar lares para eles e todo esse universo dos animais abandonados.

Eu não estava preparada para o que acabei descobrindo.

Quer dizer, todo mundo mais ou menos sabe que existem muitos animais abandonados, que os defensores dos animais estão sempre atrás de dono para algum animal, que a leishmaniose é uma preocupação séria em BH. Mas cara... CARA!

Tanto o CCZ quanto as ONGs que contatamos têm dezenas (quando não chegam a centenas) de animais esperando adoção. Raramente um defensor dos direitos dos animais tem menos de dez cães em casa. Desses todos, muitos estão doentes. Tratamento veterinário é caro e raríssimos são os veterinários que aceitam fazê-lo de graça ou pela metade do preço quando se trata de um cão abandonado. Não existe atendimento veterinário público, e nem o Governo disponibiliza todas as vacinas necessárias o ano inteiro. Isso faz com que ter um animal saudável e imunizado seja um luxo de quem tem algum dinheiro, e faz com que as áreas mais pobres sejam ninhos de doenças. E isso é irônico e triste, porque é nessas regiões que as pessoas estão mais dispostas a cuidar de animais abandonados. Onde há gente com grana, ninguém quer nem olhar pro bicho doente. Aliás, pelo tanto de animais de raça abandonados, são as pessoas com condições de cuidar dos animais que os abandonam.

Se isso não basta para horrorizar alguém, ontem mesmo vi no Facebook um cara que recolhe animais, trata e depois procura donos para eles. Esse rapaz está com a vida toda complicada por causa disso, mas simplesmente não consegue parar de ajudar os animais doentes e abandonados que vê. Muitos de raça. E são sempre histórias difíceis, como a do cachorro com um tumor estourado nas costas, ou do cão abandonado duas vezes, mas que andou quilômetros para chegar de novo em casa, apenas para ser maltratado e mantido do lado de fora.

Que tipo de seres humanos nós somos, ou estamos querendo ser? Onde está nossa responsabilidade como guardiães de seres vivos que confiam em nós? Eu sei que as pessoas têm dificuldade de entender minha simpatia pelos animais que comemos, até porque alguma distância emocional é necessária entre você e sua comida. Mas cara, animais de estimação não pedem para ser adotados, nós os tiramos se sua mãezinha e os levamos para casa porque eles são fofos e fazem carinhas bonitinhas, e nós temos a cara de pau de jogarmos esses animais na rua quando nos cansamos deles. Cara, deixar uma planta morrer porque você esqueceu de aguar já é um verdadeiro crime, já que a planta depende inteiramente de nós e nem pode fazer barulhos que indiquem que está com sede. Mas jogar na rua um animal que nunca aprendeu a procurar seu próprio alimento porque nunca permitimos isso mostra muito a respeito daquele egoísmo cosmicamente grande que todos temos dentro de nós e tentamos negar.

Já fiquei sabendo de gente que ia soltar o cachorro porque ia viajar por 15 dias para a praia e cães não eram permitido lá onde eles iam. É.

Por favor, amigos que me leem aqui: adotar um animal de estimação é como adotar uma criança que não cresce. É um compromisso que você vai carregar por uns 15 anos, no mínimo, um ser que dependerá de você para tudo, e que não será aceito em todos os lugares que você for. É um filho seu, que deverá ser bem cuidado, alimentado, educado e amado. Você não precisa virar uma socialite que mima o bicho de estimação mais do que mimaria uma criança, mas não pode se esquecer de que a VIDA do seu animal gira em torno da sua, e se você o negligenciar, ele vai morrer. E o pior: ele não é um tamagotchi com botão de "reset". Ele não vai ressuscitar e nenhum animal que você comprar para substituí-lo vai ser igual a ele.

Está passando da hora da Humanidade crescer e se tornar mais responsável...

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Cenas deletadas do Conservatório


Sexualizar tudo leva a complexos de Édipo onde não existem. #fikdik
(A Annette é a mãe adotiva do Diego e quem o transformou em vampiro, para começo de conversa. Esse povo que não lê os posts sobre os personagens que fiz lá em 2009/2010... U.U)

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Sonia Belmont e como todos perdem com o machismo

Eu tava preparando um texto sobre literatura policial pra postar por aqui, mas antes dele ficar pronto, acabei me envolvendo numa pequena discussão sobre Castlevania e achei que valia a pena dar meus dois centavos aqui.

Apesar do grande número de garotas gamers, e desse número crescer a cada dia, as pessoas insistem em achar que "videogame é coisa de menino" e que um game não vai vender se não tiver protagonistas homens fazendo coisas de homens. *suspiro*

Muita gente acha que é frescura quando se fala em machismo em jogos, mas ouçam a história que tenho para contar e vejam se conseguem entender meu ponto.

Olha, sou uma tentativa de escritora, e tentativa de cartunista, e sempre fui fascinada com contação de histórias. Pra mim, videogames sempre atraíram quando permitiram que eu interagisse com uma história (mesmo que boa parte dessa história se passe na minha cabeça). Logo, já digo de saída que nunca jogo nada em busca de dificuldade e grandes desafios, mas como uma forma high-tech de brincar com bonecos vivendo aventuras - as falas e a trama que o jogo pode ter são bônus muitíssimo bem-vindos. Agora, ficar horas morrendo num trecho de jogo porque meu timing em apertar um botão não é bom é algo que dispenso totalmente. É por isso que, de maneira geral, só jogo no fácil, com emuladores que me permitam ir salvando a hora que eu quiser e, se necessário, usando códigos que facilitem as partes de batalha. (Ganhar level em RPG é outra coisa que não me desce.)

Enfim, é difícil achar o tipo de jogo que eu gosto, e ainda mais difícil conciliar o jogo com minhas milhares de inventações de moda, mas houve um tempo que jogos de Game Boy, NES e SuperNES me entretiveram por tardes a fio (usando slots para salvá-los a cada progresso, claro). Foi numa dessas que me apeguei à série Castlevania. Não tem nada para não se gostar na série: é sobre caçadores de vampiros (os Belmont) que saem matando cruz-credos com um chicote e outras armas... e é isso. O grande vilão da série é Drácula (claro) e o climão dark dos jogos, mesmo quando feitos com os gráficos mais pixelizados do mundo, são um atrativo à parte.

Mais ou menos quando descobri toda a magia de Castlevania, joguei Pokémon Gold/Silver pela primeira vez. E, pela primeira vez, joguei um jogo onde você podia escolher entre dois protagonistas: um menino e uma menina. UMA MENINA. Todos os personagens com os quais eu já tinha jogado antes eram homens. TODOS. A primeira vez que joguei com uma menina, em pokémon, percebi que isso era algo que eu tinha sentido falta o tempo todo, só não sabia disso ainda.

Não me entendam mal. Por mim, não há nada de errado em você controlar, em um jogo, um protagonista que não seja do mesmo sexo que você. É só que, de uma dúzia de jogos que eu já tinha experimentado, NENHUM tinha uma garota com a qual eu pudesse jogar. A variedade me deixou muito feliz. Foi aí que, procurando por novos Castlevanias, topei com a história de Castlevania Legends e sua heroína, Sonia Belmont.

A primeira coisa digna de nota a respeito dela é seu visual:

Tá encarando o quê?!

Cara de poucos amigos, coberta de roupas e carregando uma arma. "OMGOMGOMG", pensou meu eu de 15 anos, "agora sim tenho uma foto decente e maneira pra caramba pra colocar como meu avatar em sites de games, ao invés daquela rosidão de Peach e Zelda, ou aquelas caras de bobalhonas das assistentes de herois dos jogos."

De acordo com o jogo, estamos no século XV e Sonia e seu avô são os últimos da família Belmont (já que nenhum outro parente é mencionado), uma família de nobres valorosos. Ela possui o poder de ver coisas sobrenaturais, e foi treinada para a luta contra criaturas da noite. Aos 17 anos, ela conhece um jovem chamado Alucard e os dois ficam muito... amigos. Daí, o jovem sai em busca de seu pai e Sonia toca sua vida. Noite dessas, ela volta para seu castelo, apenas para achá-lo arrasado pelos servos de Drácula e seu avô mortalmente ferido. Ela pega o chicote dele, o Vampire Killer, como lembrança em sua cruzada contra a opressão de Drácula e em busca de vingança. Ela, então, invade o castelo de Drácula e, a cada monstro morto, suas habilidades de combate crescem, graças ao chicote.

Quando ela está a caminho de mostrar um pouco de JUSTIÇA ao Conde, Sonia se encontra com seu... amigo Alucard e os dois se surpreendem ao se verem. Ele diz que é filho do Conde e que sente que é sua obrigação parar seu pai. Alucard também diz que essa aventura é muito perigosa para ela, e manda que ela volte pra casa (e pra cozinha, aparentemente), enquanto ele faz seu trabalho de herói. O teor da resposta de Sonia é sem preço:

"Como se VOCÊ fosse páreo pra ele."

(OK, não foram essas as exatas palavras, mas foi algo por aí. E isso por que há uma clara tensão romântica entre os dois, o que não a impede de mandá-lo às favas com sua preocupação cavalheiresca.)

Alucard fica mordido, claro, e diz a Sonia que ele só vai deixá-la enfrentar Drácula se ela puder vencê-lo em combate. Ao que ela responde algo como "vambora" e limpa o chão com ele. Alucard, ferido em seu orgulho, diz que aprendeu uma lição naquela noite e decide entrar em sono eterno, já que ele ainda ama seu pai (apesar de tudo) e não quer testemunhar a queda dele. Ou algo assim.

Mau perdedor você, Alucard.

Independente do motivo, Sonia vai em frente, e limpa o chão com Drácula também. Enquanto ele morre (pelo menos pelos próximos tantos anos), o vampiro usa o clássico jargão de "você me venceu agora, mas eu voltarei", ao que Sonia responde, friamente: "Quando você voltar, se eu não estiver aqui, outro estará em meu lugar." Após isso, ela caminha em direção ao horizonte, parando apenas para ver o castelo de Drácula se desfazer em ruínas.

CARA, ISSO FOI TÃO LEGAL, EU NUNCA TINHA JOGADO COM UMA MULHER TÃO LEGAL, QUE REALMENTE MATA OS MONSTROS E TEM ESSAS FALAS MANEIRAS. *-* ~> Direto do meu eu de 15 anos. Tenha paciência com essa antiga Adriana, ela gostava de Caps Lock. Mais do que eu gosto hoje, quero dizer.

Como se Sonia não fosse durona o bastante pra bater no namorado e no vilão e ainda parecer bacanuda, o final bom do jogo diz que Sonia logo depois teve um filho, para continuar o legado dos Belmont. Se isso parece bobagem, ou parece indicar que ela foi pra cozinha depois de matar Drácula, duas informações:

a) O filho dela é um Belmont, o que quer dizer que, ou ela se casou com um parente (o que não parece ser o caso, já que Drácula parece ter matado toda a sua família), ou ela foi mãe solteira. Freaking mãe solteira no século XV! E, pela sua cara na tela de créditos, tava ligando um nada para o que os outros pensam disso.

...e ele que não treine, não, pra ver o que lhe acontece.

b) Esse menino é ninguém menos que Trevor Belmont, um dos Belmont mais durões da série. Não sei vocês, mas eu gostava de imaginar Sonia com o Vampire Killer na mão, treinando seu filho a chicotadas até ele virar o Trevor que todos conhecem e respeitam. E melhor ainda era imaginar Trevor, homem alto e espadaúdo, tomar a mão dela dizendo, humilde "bença, mãe".

Bença, mãe.

c) Sonia mãe solteira... Filho nascido pouco depois da despedida dela e do Alucard... OH GOD, A SONIA E O ALUCARD... NÉ? <3 br="br"> De acordo com o jogo, fica estabelcido que Drácula e Alucard se tornaram vampiros porque Drácula vendeu sua alma e a do filho ao demônio em troca de poder, e que os Belmont são descendentes da incrivelmente durona Sonia e, ao que dá a entender de Alucard também, criando a deliciosa ironia de vermos a família que persegue Drácula tão duramente ser, na verdade, aparentada a ele. (Isso se casa com as lendas da Europa Oriental, onde os melhores caçadores de vampiros são os meio-vampiros...)

Eu estava feliz com essa. O jogo é feioso e nenhuma obra-prima, mas foi divertido. Além disso, Sonia Belmont é uma das raras heroínas que toma o destino nas próprias mãos, dá um chega pra lá no namorado quando ele começa a querer ficar dominador demais, prova seu valor, encontra seu destino e ainda se torna uma lenda. O que há aqui para não se gostar?

Foi aí que aconteceu algo chamado Castlevania: Lamment of Inocence. Não me entendam mal: é um bom jogo, e a história pode até ser clichezinha, mas é bacana. Basicamente, o jogo propõe uma nova origem para Drácula e os Belmont, que entra em conflito direto com a história de Sonia. Com isso, o jogo dela foi cortado da cronologia oficial. Até ai, beleza, retcons acontecem o tempo todo. Mas vejam o que o chefe da equipe de desenvolvimento de Castlevania, Koji Igarashi, alegou para ter cortado Sonia, ao invés de fazer um remake do jogo dela (eles já tinham feito 3 remakes do primeiro Castlevania):

"EGM: Você faria um Castlevania com uma personagem principal feminina?

IGA: Hm, tem problemas complicados com isso. Como jogador, acho que você se torna um com o personagem e já que Castlevania tem muitos jogadores homens, é natural termos personagens homens. Em Rondo of Blood, Maria eram uma assistente bobinha e bonitinha, mas você ainda tinha Richter para tornar a coisa séria. (...)



EGM: Depois de Tomb Raider, você não acha que uma personagem feminina seria mais aceitável?

IGA: É possível, acho. Apesar de que eu cortei a personagem Sonia Belmont (de Castlevania Legends, pra GBC) da cronologia oficial de propósito. (Risos.) Geralmente, nas histórias de vampiros, mulheres tendem a ser sacrificadas. É mais fácil, então criar personagens fracas e femininas. Vou pensar mais nisso no futuro, entretanto. É difícil encaixar uma heroína nas histórias mais antigas de Castlevania, mas à medida que você se move para os dias de hoje, é mais fácil mulheres se tornarem heroínas."

A entrevista completa é de 2003 e pode ser lida nesse link: https://groups.google.com/forum/?hl=en&fromgroups=#!topic/alt.fan.nb/MKYmUPKsZxw


Tipo, SÉRIO CARAS, vocês cortaram uma protagonista legal pra caramba da série porque "em histórias de vampiros, mulheres são sacrificadas"?! E não me venham com essa história de que no século XV é pouco provável que uma mulher seja heroína, mimimi. ESSA É UMA FREAKING HISTÓRIA DE VAMPIROS, DROGA. Fidelidade na representação do machismo de fins da Idade Média é o que menos importa nesse ponto. Tantos personagens foram reconstruídos, como o próprio Drácula, o Alucard, o Trevor, CUSTAVA reconstruir a Sonia e ter mais uma mulher forte na franquia? Melhor, uma FREAKING BELMONT MULHER?! Mas nããããão. "Menino não gosta de jogar no papel de menina, mimimimimimimi", a desculpa MAIS FURADA EVER desde Samus Aran e Lara Croft.

É claro que o cara não é o pior homem da face da Terra, claro que personagens femininas continuaram sendo auxiliares (muitas jogáveis) em Castlevania e, recentemente, criaram uma protagonista mulher, a Shanoa (que não é uma Belmont D:), acho que tentando apagar essa imagem machista criada por essa entrevista infeliz. O fato é que explicações assim nem sequer cabem nos dias de hoje. A entrevista nem é da década de 70 ou 80 para justificar a desculpa esfarrapada de que "Castlevania é jogo de homem".

Minha zica  aqui não é contra o Igarashi, contra a Konami, ou um mero mimimi de fã que queria a Sonia de volta ao canon (apesar de eu não ficar triste se isso acontecer). O que me deixa preocupada é: quantas boas histórias estão sendo deixadas de lado porque "isso ou aquilo não é coisa de menino ou de menina"? Quantos planos para novas heroínas (e heróis menos convencionais, por que não?) estão sendo engavetados porque algumas pessoas não se sentem confortáveis criando histórias com eles e nem se esforçam para sair do terreno do clichê?

Sei que aspirantes a autores, cartunistas e desenvolvedores de jogos acessam esse blog vez por outra. Vamos todos então nos questionar isso de tempos em tempos, então?

Sonia resolve o problema de seu corte da cronologia de forma delicada e feminina.

domingo, 22 de julho de 2012

Recap de Drácula - Parte 2

Vamos continuar nossa cruzada no esclarecimento de quem nunca leu Drácula, o livro, na vida. Se você caiu aqui de pára-quedas, volte na parte 1 agora!

Se já leu a parte 1, pode clicar na quebra. É a hora de Mina Harker, uma das heroínas mais injustiçadas da literatura, mostrar a que veio. Aproveito para mostrar por que eu acho que esse livro pode até não ser feminista, mas está longe de ter uma mensagem machista. (E por mais que a Liga Extraordinária de Moore seja legal e eu tenha gostado... por mais que as desconstruções de Drácula sejam legais... Eu não consigo ver o casamento dela com Jonathan se deteriorando depois da morte de Drácula, nem Mina sentindo qualquer saudade do Conde. Malzaê.)


domingo, 15 de julho de 2012

Recap de Drácula - Parte 1

Ando meio relapsa, né? (Meio é apelido, eu sei...) Mas é que manter mais de um blog é um movimento ninja que eu não aprendi direito, e como Bram & Vlad está atualizando toda semana, já dá pra ver que os outros setores da minha internerd andam capengando.

Pra hoje, escolhi fazer um post cheio de spoilers (mwahaha), ou nem tão spoilers assim, recontando a história do livro Drácula pela minha perspectiva. Por quê? Um monte de gente diz que quer ler Drácula, mas quando vê que o livro é um tijolinho, liga o modo Nemly & Nemlerey e segue perdendo uma história muito bacana. Pior: a maioria das pessoas acredita piamente que as versões cinematográficas guardam alguma fidelidade aos livros (pobres ingênuos...) e que Drácula, em sua origem tinha alguma semelhança com Bela Lugosi. Amores de minh'alma, o livro Drácula NÃO é uma história de amor impossível entre um vampiro secular atormentado e uma mocinha, e Coppola seja amaldiçoado por fazer as pessoas pensarem isso, com seu filme.

Então, pra quem já leu o livro e não achou essa Coca-Cola toda (talvez porque esperava que Drácula fosse um anti-herói atormentado apaixonado pelas mocinhas que morde) e pra quem não leu e diz que vai ler, mas sabe no fundo da alma que não, não vai, logo depois da quebra, temos uma versão condensada do livro. a primeira parte, pelo menos, isso acabou ficando maior do que eu esperava... No final dessa parte, um breve pensamento meu a respeito da teoria de alguns, de que Drácula é o verdadeiro herói do livro, salvando as mocinhas da sociedade vitoriana repressora.

Bom proveito!

domingo, 3 de junho de 2012

Problem?

A resposta da Cris ao post sobre pôneis e como viramos pôneis de pelúcia.

Eu tenho asas, lalalalala!

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Zumbis e "mimimi, descaracterização de personagens"

Mais cedo, no twitter, a @lidiazuin levantou uma discussão a respeito do porquê de zumbis estarem fazendo tanto sucesso na cultura pop. A moça é da opinião que o senso de anarquia despertado por um apocalipse zumbi mexe com nosso sentimentos. O @bschlatter (nesse post) explora o fato de que as hordas de zumbis destruindo tudo podem evocar inconscientemente os grupos sociais emergentes, como imigrantes e moradores de favelas, que galgam a cada dia um degrau na escala social, incomodando as classes média e alta, que os vêem com temor e alguma repulsa. O @hugovera comentou que os zumbis viraram a escolha de quem estava cansado dos vampiros terem virados todos uns frescos e esse post do Dan Birlew (em inglês) ainda toca no fato de que zumbis são sacos de pancadas ambulantes, e transformam um mundo num lugar onde a única  habilidade que realmente conta é a de espancar cadáveres ambulantes até eles pararem de se mexer.

Não é bem sobre isso que eu quero falar, mas ok.

É que essa discussão me lembrou, até certo ponto, a eterna lenga-lenga de fãs de fantasia a respeito de como tal ou tal criatura fantástica deve agir, ou quais características elas devem ter. Nesse post, eu comentei sobre o porquê de Crepúsculo ter sido tão mal recebido por fãs mais tradicionais de vampiros (o post da estilização e talz), mas acho que uma coisa não ficou clara ao final dele: sim, eu acho que, num mundo como o de hoje, onde informação está a uma wikipedia de distância, não custa nada você pesquisar e se informar antes de escrever um livro para saber qual tipo de criatura casa melhor com ele. Mas não, eu não sou advogada do pensamento de que "[criatura X] de verdade é assim, assim e assada". Não acho que liberdades criativas sejam ruins, ou não teríamos metade dos ícones pop de hoje. No post da estilização do vampiro, toquei de leve no fato de que o que conhecemos hoje como vampiro é mais uma criação hollywoodiana que tudo (o artigo do Dan ali em cima cai nessa armadilha ao atribuir a Drácula razões românticas - sendo que, no livro de origem ele é um personagem tudo, menos romântico...). Hoje, quero falar de zumbis, porque são os queridinhos da vez e os exemplos máximos do que estou querendo dizer.

Antes de mais nada, os zumbis já começam com o pé esquerdo no nome. O termo "zumbi" foi criado não para designar cadáveres meio apodrecidos andando por aí atrás de cérebros. Ele foi pego de empréstimo do vudu (crença haitiana de raízes africanas), onde serve para designar um cadáver que um feiticeiro vudu reanima para que se torne um escravo sem vontade própria. Esse cadáver tem um andar vacilante, não fala, não faz nada sem ter sido ordenado e é completamente leal ao feiticeiro que o levantou. Ah, e ele dificilmente pode ser diferenciado de um vivo comum.

Os casos de zumbificação no vudu têm uma explicação dentro de nossos conceitos cientificamente aceitos: o feiticeiro vudu (nunca vi o termo "voodoo doctor" ser traduzido como "doutor vudu") ministra à pessoa uma droga natural que faz com que ela pareça morta, já que ela sofre uma forte catalepsia associada à paralisia dos músculos, e, quando os efeitos da droga passam, antes que ela volte totalmente a si, ela ingere uma segunda droga que a deixa completamente dopada e incapaz de pensar claramente. Não é à toa que alguém que tome doses muito altas de antidepressivos às vezes é chamado de "zumbi".

O grande criador do gênero de zumbis como o conhecemos hoje é o filme "A Noite dos Mortos-Vivos", de 1968, do diretor George Romero. Chega a ser irônico que a palavra "zumbi" nunca foi usada no filme, onde os mortos vivos eram chamados de... mortos-vivos, ou de "ghouls". Ghoul é um ser da mitologia árabe, que pode ou não ser um morto-vivo, cuja maior característica é matar pessoas e se alimentar do cadáver. Em alguns mitos, o ghoul ainda toma a aparência e as lembranças do morto que consumiu.

Nesse filme, já temos algumas características do que seria característica básica dos zumbis daí por diante: mortos-vivos que comem pessoas e transmitem sua condição através de mordidas. O surgimento do surto de zumbis, no filme, é atribuído a uma sonda espacial que voltou de sua missão carregada de radiação venusiana e caiu nas redondezas do lugar onde houve um incidente. Isso prenuncia o fato de que quase todos os zumbis da atualidade têm sua origem em um fato "científico" qualquer, como um vírus, radiações bizarras ou qualquer outro experimento que falhou. Com a sequência "A Madrugada dos Mortos", mortos-vivos devoradores de gente ganharam seu nicho na cultura pop como agentes do apocalipse, capazes de reduzir o mundo como o conhecemos a meras ruínas.

Muitos filmes, desde então, pegaram o conceito de Noite dos Mortos-Vivos e o expandiram. Em 1985 (quase 20 anos depois do filme de Romero), veio O Retorno dos Mortos-Vivos, um filme de comédia onde se popularizou o conceito de que o alimento primordial do zumbi é o cérebro da vítima. O enorme sucesso desse filme fez com que outras comédias de zumbi aparecessem e o tema se desgastasse como algo muito mais engraçado do que assustador.

Um dos responsáveis pela volta dos zumbis como criaturas temíveis foi o game Resident Evil, de 1996, onde zumbis são criados graças a um vírus desenvolvido por uma companhia farmacêutica inescrupulosa.

OK, agora que vocês já sabem de onde vêm os zumbis, já deve ter pressentido o frankenstein de referências que o zumbi moderno é (e não, o monstro de Frankenstein não é um zumbi, é só morto-vivo). O alicerce da história de zumbi atual vêm do mito original do vampiro nos países eslávicos: alguém, de repente, entra num lugar meio esquisito, e logo percebe que é um covil de vampiros e precisa fugir desesperadamente antes de ter todo o sangue sugado e, com isso, se tornar também um morto-vivo. Esse plot foi levado a extensões apocalípticas no livro Eu Sou a Lenda (recentemente virou filme), onde um homem é o último humano no meio de um mundo inteiro de vampiros. Antes que alguém ache que estou sendo bairrista atribuindo o nascimento dos zumbis aos vampiros, saibam que Eu Sou a Lenda foi a base de George Romero para A Noite dos Mortos-Vivos. RÁ!

O que Romero fez foi fazer seus mortos-vivos comerem carne humana ao invés de sangue, não terem qualquer traço de inteligência humana, e serem criados por radiação venusiana, ao invés de qualquer que seja a força mística que faça vampiros se levantarem. A parte antropofágica foi tirada dos ghouls e a parte de "sem inteligência" foi o quase que o único traço que restou dos zumbis haitianos originais. Resident Evil trocou radiação, cemitérios amaldiçoados e outras causas mais ou menos sobrenaturais por um vírus.

Sério, se algum conservador dissesse pros seguidores de George Romero que zumbis não são cadáveres comedores de gente e que bons mesmos são os filmes onde pessoas têm que lidar com humanos escravizados por feiticeiros vudus, é possível que esse artigo aqui não existisse. Eles desfiguraram quase completamente o mito original dos zumbis e o transformaram no que é hoje. Não foi uma pessoa que inventou o conceito atual de zumbi, foi o Romero que deu o chute inicial e muitas outras pessoas completaram. Sendo assim, acho meio que hipocrisia e mente curta quando as pessoas começam a dizer que tal ser deve agir assim ou assado, ainda mais quando esses seres sequer existem, e a construção de como agem e de quais são seus poderes e limites é parte da diversão de criar histórias com eles.

As pessoas puderam desfigurar o mito do zumbi até não sobrar quase nada de sua raiz haitiana porque zumbis não eram grandes conhecidos do público, nem faziam parte massivamente da cultura pop. Stephenie Meyer tropeçou porque pegou uma criatura que já tem características enraizadas na mente do público e escolheu muito poucas dessas características na construção de seus personagens. Mas que fique claro que o ato dela ter criado um novo modelo de vampiros não é, em si, condenável. Renovação faz parte de você ser uma criatura ficcional, e faz personagens se tornarem atraentes para novos públicos. Se você não gostou de como um autor representou a criatura que você gosta, ignore e não consuma. O tempo vai dizer se o que ele fez vai entrar para a cultura pop de amanhã (e você vai ser só mais um velhinho dizendo como os velhos tempos eram melhores), ou se vai ser ignorado como o ponto fora da curva que foi.

Acho que foi o sentimento expresso pelo texto anterior que fez Diego dar esse conselho, n'O Conservatório: "Olha, não gostou [de como eu sou], vai pra casa e escreve um livro sobre como os vampiros deveriam ser. É o que todos fazem."

Pois é. E isso vale pra qualquer criatura fantástica, de zumbis a pôneis coloridos. Fica aí a dica.



---------------------------------------------
BÔNUS: Se querem saber minha opinião sobre a discussão que abriu o post, acho que todos os que citei estão parte certos sobre o fenômeno dos zumbis ser tão popular, e eu ainda acrescentaria a origem pseudo-científica do apocalipse zumbi. O fato de zumbis serem criados (hoje) por vírus, engenharia genética ou outras ciências top de linha fazem deles mais próximos de nós que qualquer criatura criada por forças do mal sobrenaturais.