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segunda-feira, 19 de maio de 2014

Playlist do Conservatório

Eu não acredito que esse post era só um rascunho até hoje. Eu jurava que tava publicado. ._.

Enfim. XD Em junho (do ano passado...), montei uma playlist rápida no YouTube com as músicas clássicas que são citadas no Conservatório e fiz esse pequeno guia para leigos das músicas e marromenos as relações delas com o livro.

CLIQUE AQUI PARA IR PARA A PLAYLIST

Prelúdio: Prelúdio de Chopin, No. 12 em G# op. 28 (Presto)
Opus 28 é um conjunto de 24 prelúdios para piano, escritos por Chopin. Um fabricante de pianos encomendou a obra. O mais famoso dos prelúdios é o #15, o prelúdio das Gotas de Chuva (Raindrop Prelude). Escolhi o Presto porque isso significa "muito rápido" e o prelúdio do livro são três cenas rápidas. Esse prelúdio tem o "apelido" de "O Duelo" (dado pelo músico Hans von Bülow) e acho que vocês podem dizer que há alguns duelos implícitos nessas três cenas. E mais não digo.

Parte 1: Sinfonia em C menor

Movimento 1: Beethoven, Piano Sonata No. 8 em C menor, Op. 13 (Adagio cantabile) - Pathetique Sonata

A Patethique é uma das obras mais famosas de Beethoven. Ela tem 3 movimentos, o Grave-Allegro, o Adagio Cantabile e o Rondo. Escolhi o Adagio porque adágios são movimentos lentos, geralmente soando tristes. Esse capítulo serve pra mostrar o lado patético da vida da Cristina: escola chata, meninas chatas falando com ela, a leve sugestão de uma vida amorosa... que não dá em nada.

Movimento 2: Concerto de Vivaldi, "La notte", RV 439 (Largo) - Il sonno

"La notte" (A Noite) é um famoso concerto em flauta do Vivaldi, com 6 movimentos. Os mais famosos são o segundo ("Fantasmi") e o quinto ("Il Sonno"). É uma música ótima de se pôr em histórias de vampiro: tem um nome legal e uma atmosfera bem bacana. A princípio, eu ia usar o nome do concerto como título da história, já que o capítulo todo acontece em uma única noite. No fim, escolhi o movimento "Il sonno", já que as coisas também acontecem em um sonho (além disso, o capítulo é grande, achei que um Largo cairia bem).

Movimento 3: Concerto para violino nº 2 de Paganini (Rondo) - La Campanella

"La Campanella" (a sineta) é uma música daquelas bem chicletes. Nunca me canso dela. Na verdade, ela é o treceiro movimento do Concerto para violino nº 2, e o jeito certo de tocar é com uma sineta marcando as recorrências do rondo. Rondo, se você não sabe, é uma melodia que tem certas partes se repetindo, como um refrão. Esse rondo de que estamos falando é tão chiclete que o Lizst, outro gigante da música, fez uma composição usando essa melodia. Gente Da Música diz que La Campanella tem uma atmosfera cigana, o que a faz perfeita para o capítulo onde Diego é apresentado. Isso e o fato de uma sineta ter um papel importante nesse capítulo. Fora isso, o capítulo tem suas "voltas", como um rondo.

Movimento 4: Quinta sinfonia de Beethoven em C menor (Allegro Con Brio) - Destino

Qualé, gente. É a Quinta Sinfonia. Tã-tã-tãããm. O que mais você quer ouvir sobre ela? Tá, vamos ver.

Algumas pessoas dizem (não é oficial, mas é bem conhecido) que a sinfonia representa "o Destino batendo à porta". Beethoven pensava no tom de C menor como "tempestuoso e heroico". Isso é o que faz essa sinfonia perfeita pro capítulo: é onde o destino bate na porta de Cristina e dó menor é a nota dela. Ela é tempestuosa e heroica... do seu jeito. Escolhi o Allegro porque é o movimento mais famoso e porque "Allegro con brio" significa "rápido e brilhante, com vigor e espírito", e é assim que Diego toca no concerto que acontece no capítulo.

Movimento 5: Serenata de cordas nº 13 em G maior, K. 525, de Mozart (Minueto) - Eine kleine Natchmusik

"Eine kleine Natchmusik" significa "uma pequena serenata" (algumas pessoas traduzem errado como "uma pequena canção noturna" e eu uso esse erro no capítulo). É a música do Diego, usando a nota do Diego, G maior. Você provavelmente conhece o primeiro movimento dessa música, o Allegro. Escolhi o Minueto porque esse nome vem de uma dança, e esse capítulo é um tipo de dança, se você pensar sobre isso.

Parte 2: Ópera em F menor

Os atos da ópera não são nomeados.

Parte 3: Noturno em G maior

Movimento 1: Fantasia sinfônica de Tchaikovsky em homenagem a Shakespeare, Op. 18 (Fantasia de Abertura) - A Tempestade

Essa música é baseada na peça de Shakespeare chamada "A Tempestade", se não ficou claro o bastante. Escolhi essa música porque tem um brainstorm nesse capítulo e porque "fantasia" é uma composição que é quase uma improvisação inspirada. Daqui por diante, não posso explicar muito pra vocês porque essa última parte é cheia de spoilers.

Movimento 2: Quarteto de Cordas de Mozart em B-bemol Maior, K. 458 (Allegro vivace assai) - A caçada

Essa peça é um quarteto dedicado a Haydn (um grande músico que Mozart admirava). A Wikipedia diz que ela é usada em vários filmes. Vou acreditar porque não sou uma fã enorme de filmes. Escolhi essa música porque ela se chama "Caçada". Não falarei mais nada. Peguei o allegro vivace assai porque isso, em música, basicamente significa "muito muito muito muito rápido".

Movimento 3: Quarteto de Cordas de Schubert Nº 14 em D menor (Scherzo) - A Morte e a Donzela

Schubert escreveu essa peça quando estava terminalmente doente e tudo nessa música é sobre a morte se aproximando e o músico se rebelando contra isso. É baseada em um poema chamado "A Morte e a Donzela", de Matthias Claudius. Acho que é bem claro por que essa música está aqui. Sobre o porquê do movimento ser o Scherzo, não digo. Se virem.

Movimento 4: A Valquíria, de Wagner, Ato III (Prelúdio) - A Cavalgada das Valquírias

Experts em música conhecem essa como o prelúdio de um dos atos da famosa ópera de Wagner, A Valquíria. Vocês provavelmente conhecem como a música que toca quando os aviões bombardeiam o Vietnã em Apocalypse Now. Essa música é tão icônica que nunca conheci quem não a tivesse escutado.

Como curiosidade sobre a ópera, A Valquíria é a segunda parte do ciclo do Anel dos Nibelungos, de Wagner. A história de A Valquíria é longa e confusa, mas é basicamente sobre incesto entre gêmeos e uma valquíria rebelde. Sério. Eu não conseguiria inventar isso sozinha.

Vou deixar vocês decidirem por que essa música específica encerra o livro. :evillaugh:

Outras peças

Essas músicas são mencionadas no livro, tocadas pelos personagens, ou só importantes no geral:

Sinfonia No. 9 em D menor de Beethoven, Op. 125 - Quarto Movimento, "Ode à Felicidade"

Também conhecida como "Sinfonia Coral", é uma das maiores obras musicais jamais escritas. O quarto movimento, "Ode à Felicidade", é nada menos que uma das mais famosas músicas de todos os tempos. Sério, o tempo de gravação em um CD é de uma hora e vinte de música porque esse é o tamanho dessa sinfonia. A letra vem de um poema escrito por Friedrich Schiller (um poeta muito famoso) e foi encomendada pela Sociedade Filarmônica de Londres.

Musette em D menor de Bach

Não sei muito sobre ela, só sei que é simples de tocar. Eu queria uma música que uma criança pudesse praticar e uma amiga me recomendou essa.

Sonata ao Luar de Beethoven

Eu gosto de Beethoven, OK? Essa é uma das minhas favoritas. Cristina a toca à meia noite, embora não esteja, tecnicamente, ao luar naquela cena.

Ave Maria de Gounod

A Ave Maria mais famosa de todos os tempos. Cristina toca em um desafio. Eu queria uma música que exigisse bem de uma soprano.

Réquiem em D Menor de Mozart - Canção "Dies Irae"

Haveria um capítulo entitulado "Dies Irae" no livro, mas acabei cortando e colocando as partes úteis em "A Tempestade". É impossível ouvir essa música e não ficar sentado apreensivo na beirada da cadeira. Ela é tão épica que seu cérebro explode toda vez que ela toca (alguns trailers a usam, já que está em domínio público). Amo tanto essa música que talvez eu crie um conto chamado "Dies Irae" só pra usá-la.
A seção de comentários do You Tube está além de qualquer salvação, mas foi lá que vi a melhor descrição dessa música: "Deus deu a Mozart 2 minutos pra fazer algo épico. Mozart fez isso e ainda sobraram 10 segundos."

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Estilizando o vampiro - parte final, ou A crítica que criou um monstro

Até agora, comentei sobre algumas coisinhas importantes que fui aprendendo ao longo de todo o tempo que escrevo. Nos últimos dias, fiquei meio em dúvida se fazia a parte 3, contendo minha experiência pessoal, ou deixava quieto na parte 2, mas acabei decidindo que valia a pena investir na parte 3. Não tanto para cumprir a promessa feita desde a parte 1, mas porque pensei numa terceira coisa que seria legal que todos os escritores - de vampiros ou não - tivessem em mente. E é a importância de uma crítica.

Muita gente acusa um crítico maldoso de destruir sua carreira literária no nascimento, mas eu diria que foi justamente uma crítica que me fez querer escrever. Não fosse isso, eu teria investido em fazer HQs. Não é um caso incomum, mas tem uns links lekais lá no fim, um fluxograma binitim e pokémons vampiros, então, acho que vale a pena. Sentem que lá vem a história.

Minha estilização dos vampiros não foi feita, em boa parte, de cabeça fria e caso pensado. Começou sabe-se lá quando, com desenhos animados diversos, numa época em que minhas histórias eram situações desconexas que tinham nuvens como cenário ou "fanfics mentais" com meus desenhos preferidos.

Com o decorrer do tempo, as histórias das nuvens ficaram ligeiramente mais complexas, mas não fugiam muito desse confronto meio parecendo partida de xadrez, e as "fanfics mentais", cada vez mais distantes do desenho que as gerava. E foi aí que veio a febre Pokémon, que me pegou em cheio e me abriu o mundo dos animes e mangás. Uma amiga minha me apresentou a um site de fanfics de pokémon e foi amor à primeira vista. Vocês devem estar pensando: "Peraí, ela vai falar de POKÉMON? Cadê os vampiros?" E seu eu disser a vocês que metade dos pokémons eram vampiros? Sério. O site se chamava "The Unknown Mountain", talvez o amigo de um amigo de vocês conheça.

Para encurtar essa conversa, que já vai bem longa, empolguei, entrei no clima e escrevi uma fanfic de seis capítulos para pedir para publicar no site (no segundo capítulo, os pokémons não eram mais importantes...). Só que antes de enviar para a publicação, eu, menina desconfiada que sempre fui, pedi para a amiga em questão (uma loirinha muito legal que serviu de primeiro molde para a aparência e personalidade da Strix, aliás) para dar uma lida no negócio.

Ela leu rápido e foi sincera: estava ruim, ainda mais que a história tinha umas reviravoltas tão bruscas e um deus ex-machina TÃO descarado no fim que era risível. Puxa, eu estava feliz com o simples fato de ter escrito algo com começo, meio e fim! Sabe quando você estuda igual a um condenado para uma prova, acha que foi em e tira 10... só que em 30 pontos? Foi essa a sensação.

Eu podia ter dito algo como "cansei de brincar!" e voltado às minhas HQs amadoríssimas. Talvez agora, estivesse falando menos e desenhando mais e talvez Bram & Vlad tivesse mais tirinhas. Mas enfim. Sou teimosa. A crítica me fez jurar para mim mesma que eu refaria aquele negócio e sairia melhor. Quer dizer, escrever não podia ser tão difícil! (Eu tinha só 11 ou 12 anos, era jovem e inocente...) Foi assim que a loirinha criou um monstro uma aspirante a escritora.

Pois é. Esse tipo de atitude minha, mais tarde, seria o motivo pelo qual fiquei meio revoltada com Entrevista com o Vampiro, mas tudo a seu tempo.

Por bastante tempo, o que fiz foi ler mais vorazmente que nunca. Quer dizer, como eu escreveria sobre temas que não conheço? Como eu escreveria se não aprendesse com escritores como é que se escreve? Durante algum tempo, não escrevi nada de vampiros, mas lia muito sobre eles. E alguns ressentimentos começaram a fermentar em mim. Eles passaram por filmes do Drácula e culminaram com Entrevista com o Vampiro. Foi aí que criei os dois critérios que presidiriam minha estilização:

1 - Não acredito em criaturas que sejam essencialmente más e condenadas a serem monstros por forças alheias a suas vontades. Por isso, se eu escrevesse uma história de vampiros, não iria incorporar a ele nenhuma dessas emices. Rolaria conflito interno? Sim. Tentação? Sim. Mas eu não seria uma dungeon master malvada.

2 - Vampiros não são burros, caramba! Especialmente os que já tem séculos de existência. Será que NENHUM vampiro jamais teve curiosidade de conhecer mais sobre o próprio corpo? De saber como a dependência do sangue funciona? Droga, se eu fosse vampira e tivesse dinheiro o bastante para acender o fogão com nota de 100, eu montaria na mesma hora um esquema para comprar sangue de pobres de países subdesenvolvidos, transportar e vender o saquinho com boa margem de lucro. Chega da angústia de matar e chega de perder tempo com isso! E investiria o grosso do lucro em um centro de pesquisas que dissecasse (ou vivissecasse por x reais a hora, sei lá) vampiros para entender sua anatomia e criar mais conforto para minha não-vida. Sempre me incomodou que eu não visse vampiros empreendedores ou curiosos nas histórias que lia. (O carinha de O Vampiro que Descobriu o Brasil foi um que custou a cair a ficha, mas caiu.)

E foi em cima dessas duas insatisfações que moldei a imagem dos vampiros nas minhas histórias pouco a pouco. Pegando a primeira versão d'O Conservatório (originalmente, foi publicada em 2004 na lista de discussão do site Adorável Noite), anotações minhas daquela época, contos de 2007 e essa terceira versão, é visível quanta coisa mudou. É quase como ver aquele famoso desenho do macaco que vai andando cada vez mais ereto até virar homem.

Muita pesquisa entrou aí, e muitas coisas que eu aprendia do nada e via que era útil. Por exemplo, pesquisas sobre a porfiria me deram uma boa desculpa para alguns dos meus personagens andarem no Sol felizes e outros, não quererem ver o astro-rei nem pintado de ouro. (Tá, foi infame.) Um documentário sobre um menino que não sente dor acabou fazendo eu me questionar por que seres que se regeneram tão rápido precisariam sentir dor. Um outro documentário sobre defesa pessoal me mostrou como um caçador de vampiros humano poderia ter chance contra um vampiro em um corpo-a-corpo. E por aí vai.

Não foi um processo simples ou rápido, mas foi muito bom. Eu planejava mostrar o resultado final passo a passo, mas O Conservatório ainda está na fase beta e uns amigos estão lendo para me dizer se está legível, interessante e apontarem os defeitos mais grosseiros. Percebi que podiam sofrer interferência. Aliás, essa primeira leitura está sendo enriquecedora. A Ana Carol fez um diagnóstico bem legal. Sei lá, pode ser masoquismo da minha parte, mas de uns tempos para cá, por mais que doam à primeira vista, críticas mais me estimulam que me entristecem.

Para encerrar, já que falei demais de mim, vou fazer um momento utilidade pública e mostrar um diagrama simples de como lidar com críticas de maneira a não esmorecerem por elas. Divirtam-se.

domingo, 9 de maio de 2010

Estilizando o vampiro (parte II), ou Introdução à Antropofagia

Quando terminei o post falando sobre estilização de figuras mitológicas, usando o vampiro de exemplo, prometi que iria dizer como fiz minha estilização. Porém, aconteceram duas coisas: 1- Comecei a divagar o bastante para criar outro post e 2 - Encomendei o livro O Vampiro Antes de Drácula. Sendo assim, os fatos pertinentes ao Conservatório, em si, terão que ficar para a próxima. Primeiro, precisarei falar um pouco sobre antropofagia. Estômagos sensíveis, fechem essa tela.

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"Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente."

Assim começa o Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade. A maioria das pessoas talvez tenha uma vaga lembrança do chamado Movimento Antropofágico, das aulas de Literatura da escola. Foi um movimento criado por artistas modernistas (Arte Moderna, você conhece, né? NÉ?). Talvez uma lâmpadazinha se acenda em sua cabeça ao ver uma das pinturas mais icônicas desse movimento:


Esse quadro da Tarsila do Amaral se chama Abaporu, ou seja, "homem que come homem". Antropófago, em uma palavra. Mas o que isso tem a ver com a estilização de que eu falei no post anterior? Primeiro, entendamos o que era o Movimento Antropofágico. Em resumo resumidíssimo, ele pregava que nós devíamos "deglutir" a cultura de todos os povos que nos cercavam - europeus, africanos, índios, etc, etc - e usar seus elementos para construir nossa própria. A metáfora é fácil de ser entendida: quando comemos uma planta, um bicho (ou uma pessoa, claro), nós mastigamos, digerimos e absorvemos seus nutrientes. Eles são incorporados a nós e passam a ser parte de nós. Não somos couve porque comemos couve. A couve é desmontada, transformada e se torna parte do nosso corpo. O mesmo se daria com o contato com a cultura de outros povos: deveríamos mastigá-la, digeri-la, absorvê-la e usá-la para fortalecer nossa própria cultura, ao invés de simplesmente imitar os gringos.

Pois bem. Falei isso tudo porque é a metáfora que vou usar para falar sobre um tema que frequentemente causa polêmica entre os escritores: pesquisa para montar os personagens.

No post anterior, comentei sobre a importância de conhecermos o que vai na cabeça do leitor sobre uma criatura qualquer ao escrever sobre ela. A ferramenta para isso é a boa e velha pesquisa. Mas como fazer essa pesquisa? Quão fundo ir? Vamos atacar o assunto jackestripadoramente. Para efeitos didáticos, vamos dividir a pesquisa em duas: pesquisa acadêmica e pesquisa pop. (Isso não existe em lugar nenhum, eu é que obsessivamente categorizo qualquer coisa que ocupe meu pensamento por mais de cinco minutos. :P)
 
Pesquisa acadêmica seria a pesquisa que é feita sobre o tema nos meios acadêmicos. Se seu tema é vampiros, é saber de onde veio a lenda, como ela se desenvolveu, quais podem ter sido suas bases reais, o que os estudiosos dizem sobre ele e sobre seu simbolismo, etc, etc. Existe um time de escritores (geralmente os mais novos) que torce o nariz para esse tipo de pesquisa, achando um gasto de tempo inútil.
 
Pesquisa pop, por outro lado, seria a pesquisa sobre como o tema é tratado pela mídia. É saber o que já foi feito com aquele tema e o que caiu em gosto popular. O que os fãs acham do tema, o que é que está no topo das paradas de sucesso... Tem escritores (geralmente os mais velhos) que acha que ela se restringe a livros e é uma parte quase dispensável, se você fez bem sua pesquisa acadêmica.

Gente, nem tanto o céu, nem tanto a Terra. A imagem das duas asas encaixa muito bem nessa situação. Você não voa se uma dessas duas asas da pesquisa estiver atrofiada.

A pesquisa acadêmica é essencial para você saber a respeito do que está falando. Lembram-se de Jesus Cristo? "A verdade vos libertará." Conhecimento liberta. Quanto mais facetas você conhece do tema que está lidando (sejam vampiros, seja Idade Média), mais inspirado e seguro você se sente ao lidar com ele. Muitos problemas de trama que nos fazem ficar dias pensando podem ser resolvidos ao se descobrir o histórico de um ser mitológico. Num exemplo prático, digamos que você queira escrever uma história com elfos e orcs, porque acabou de leu Tolkien e quer criar uma história daquele jeito. Ao buscar conhecer "o elfo antes de Tolkien", ou a simbologia que os elfos e orcs têm no trabalho de Tolkien, de repente, pode ser que você descubra elementos novos para sua história, para criar algo original. Ler artigos, livros acadêmicos e manuais de mitologia pode ser chato no início, mas te juro: assim que você fizer a primeira descoberta bacana, que vai resolver aquele furo na trama que tava te assombrando, você toma gosto pela coisa.

Já a pesquisa pop pode parecer um pouco "tola", ainda mais se você não quer ser um autor de best-sellers (há quem não queira, OK?). Mas ela é fundamental! Saber o que as massas pensam, no mínimo, nos dá uma pista do que há no tema que você escolheu e que mexe com as emoções das pessoas. Além disso, a prática de se fazer pequenas homenagens a obras famosas do tema que você está escrevendo cria uma espécie de laço de afeto entre o leitor e seu livro. Não homenagens demais, que dêem a sensação que o leitor está jogando "onde está Wally?", mas algumas. E o mais importante: quando eu disse "obras", não falei só de livros. Falei de filmes, games, animações, mangás e HQs, e tudo o mais.

Já ouvi muitas pessoas dizerem "eu não gosto de ler livros com tema parecido com o meu porque, depois, eu copio o estilo sem querer". Gente, isso é natural e não é desculpa. Voltando à metáfora da antropofagia, quando você come alguma coisa e entra numa montanha russa logo depois, o resultado é óbvio: você vai vomitar um caldo semidigerido, onde pedaços do alimento original ainda são reconhecíveis. É preciso dar um tempo para o organismo digerir o alimento e absorver. Eu sou uma que não leio enquanto escrevo e vice-versa. Não consigo. Deixe essa pressa pra escrever pra trás, que não leva a nada. Seja um antropófago cultural: pegue a referência e dê tempo para que ela se torne parte de você, ao invés de ficar vomitando pedaços de cultura estrangeira. Só assim você cria identidade.

Um argumento oposto e igualmente preguiçoso é o de que "eu não fico lendo coisas com o mesmo tema que o meu pra ser original e não copiar ninguém". Gente, não se faz tijolos sem barro. E acreditem em mim, o leitor não liga A MÌNIMA se você leu ou não fulano. Se você fizer algo igual ao que ele fez, vão cair em cima do mesmo jeito. Afinal, COMO você não sabia que fulano fez algo igual? Nessas horas, a gente tem que ser humilde e pensar que nós não somos a pessoa mais criativa do universo. Uma simples referência àquele que teve uma ideia igualzinha à nossa já costuma bastar para transformar o que seria um "defeito" em um elo de ligação com o leitor. O que era um erro devido à desinformação se torna um atrativo.

Antes de encerrar o post, vou apresentar a quem não conhece o mapa da mina para quem quer ser um escritor sério e bem informado. Como nem sempre é possível ler/ver/jogar tudo o que sai sobre um tema, a gente geralmente tem que recorrer a resenhas, resumos e bate-papo com amigos. Mas o melhor lugar para você saber se é mesmo um escritor original ou não é http://tvtropes.org/. Esse site é uma wiki que cataloga vários "truques" comuns no desenvolvimento de uma trama (os tais tropos - eita palavra feia!), e dão uma lista impressionante das obras de todos os tipos onde eles aparecem e onde são subvertidos. Alguns tropos têm até exemplos na vida real. Usem o site sem moderação, mas cuidado. E não se deprima se perceber que tem mais de 300 obras que usaram o mesmo truque de narrativa que você. Só espero que se convença de que originalidade absoluta e total faz companhia a superfícies sem atrito e gases ideais.

Agora que estão armados até os dentes, boa sorte com a escrita e a estilização de personagens. o/

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Retorno aos vampiros na parte 3. Beijos!

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Estilizando o vampiro, ou o erro fatal de Stephenie Meyer

Eu ia simplesmente chamar vocês para darem uma lida no beta do Conservatório, mas achei melhor fazer uma ligeiríssima nota sobre vampiros em geral, inspirada na pergunta com que vêm me enchendo o saco há um tempo: "por que o Diego toma sol e não acontece nada? Mimimi..."

Zente, desculpem se eu digo isso, mas vampiros se desfazendo em cinzas com inocentes raios de sol é uma invenção hollywoodianesca tão tosca quanto os vampiros brilhantes de Crepúsculo (é, Edward, Diego não perdoou você). O fato é que filmes são muito mais curtos que livros, então, há certas liberdades poéticas que foram tomadas com os vampiros ao longo dos anos que não existiam originalmente no mito.

Vocês devem estar se perguntando agora, então: por que os vampiros-fogueira foram aceitos enquanto os brilhantes são toscos, se nenhuma das duas pirotecnias tem qualquer base?

Antes de mais nada, vamos sair da esfera literária e aprender uma ou duas coisinhas bacanas sobre desenho. Existe uma técnica chamada "estilização". Estilizar significa reduzir uma figura às formas mais simples possíveis, sem que ela perca sua identidade. Pablo Picasso estilizou um touro em uma série de desenhos muito famosa:


Percebem? Entre o primeiro touro, o mais realista, e o último, apenas um punhado de traços, houve vários intermediários. Mas todas as figuras têm em comum o fato de que são, inegavelmente touros. A identidade do animal não se perdeu.

O que isso tem a ver com o assunto anterior?

Simples. Quando vamos nos apropriar de uma figura mitológica já conhecida, não somos obrigados a fazê-lo de forma absolutamente realística, como o primeiro touro, mas, ao estilizá-la, precisamos ter certeza de que estamos suprimindo traços realmente supérfluos. O touro estilizado de Picasso não pareceria um touro se o pintor tivesse se esquecido os chifres, por exemplo. Ou, se lhe tivesse dado o contorno de um cavalo, o faria parecer mais um cervo que um touro.

É aí que entra a diferença entre o vampiro-tocha e o vampiro-purpurina. Stephenie Meyer cometeu erros sérios de estilização ao criar seu vampiro. Ela manteve três atributos importantes do vampiro: ele é morto, ele é sedutor e ele bebe sangue. Fim de papo. Alguém percebeu que falta algo muito importante aqui? O @cericn e a @anacarolinars perceberam. Não?

Eles não são noturnos! Desde a aurora da humanidade, os vampiros são um mal. E, como dizia Conan Doyle, é à noite que os poderes do mal são exaltados. Parece bobagem, mas ao fazer com que eles andassem pra lá e pra cá impunemente à luz do Sol e quase não tivesse cenas à noite na série Crepúsculo, Meyer tirou os chifres do touro. Não é porque os vampiros brilham. É só que nosso subconsciente nos diz, instintivamente, que eles não se enquadram exatamente naquilo que nos acostumamos a chamar de vampiros.

Não tenho a pretensão de ser capaz de estilizar perfeitamente os vampiros. Até porque, acredito que possam haver formas diferentes de estilização, mas que tragam a mesma ideia. Para ilustrar o que digo, vou listar algumas características que acredito serem básicas de um vampiro, sejam visuais, sejam literárias (isso na minha cabeça, claro):

1 - Eles bebem sangue
2 - Eles se levantam de túmulos
3 - Eles são noturnos
4 - Eles são pálidos
5 - Eles têm caninos
6 - Eles encantam suas vítimas
7 - Eles são fortes
8 - Eles não morrem de morte natural

Acho que dá para começar com isso. Um vampiro com todas essas características é inegavelmente um vampiro para qualquer um. Mas eu o compararia ao penúltimo dos touros de Picasso. Acredito que um vampiro estilizado poderia conter tanto as características 1, 3, 7 e 8 quanto as características, digamos, 3, 6, 7 e 8. Sim, ele poderia se alimentar de algo que não sangue. Quanto casos há dos tais vampiros de energia? O caso dos caninos, admito, coloquei mais por questões estéticas que lógicas ou históricas. Mas é que, se você apresentar um smiley, ele logo será identificado como um ser humano. Se apresentá-lo com presas, será identificado como vampiro, tal a força dos caninos longos no imaginário popular.

Se você pegar 2, 7 e 8, terá um zumbi. A estilização estaria incompleta. Percebem? Há várias formas de se fazer a estilização, muitas que funcionam, mas um bocado que dá ideias erradas. Escolher as características certas nem sempre é fácil.

A moral da história não é, exatamente, a de que é dever de honra de um escritor ser convencional no momento de usar uma figura mitológica, nem esse blá-blá-blá intelectual chato. Gostem os ranzinzas ou não, Stephenie Meyer FEZ sucesso com seus vampiros incompletos, mas até muitos de seus fãs reconhecem que os vampiros dela são muito diferentes do tradicional. Receio que, se ela não tivesse atingido as leitoras em cheio com sua trama açucarada, ela seria um motivo ainda maior de piadas. Minha mensagem é que, se alguém quer se aproveitar de qualquer criatura mitológica, e pretende fazer isso sem criar uma criatura diferente e usar o nome antigo (o que pode dar certo se você é um gênio ou tem sorte, mas terrivelmente errado se não é ou não tem - e menos de 1% dos escritores são gênios, menos ainda têm sorte), tem que tomar cuidado na estilização.

É verdade que a imagem dos vampiros (por exemplo) mudou muito desde as primeiras histórias de cadáveres sugadores de sangue até hoje. Mas isso não foi de uma história para outra. Foi gradativo e, até onde pude notar correndo os olhos em histórias de vampiros do século XIX, eles acrescentaram muitas coisas ao mito original, mas tiraram bem poucas. Ainda usando comparações desenhísticas, creio que eles pegaram um rascunho (geralmente, criaturas mitológicas em seu estado bruto não são muito mais que isso, vide descrições de lendas brasileiras) e o arte-finalizaram, mas permitido que ainda fossem reconhecíveis os traços principais. Pegar esse desenho e distorcê-lo até só sobrar o branco dos olhos é como revisitar a Monalisa desenhando uma loura de biquíni. Pode ser um desenho sensacional, mas se a tal loura não tiver nem o sorriso misterioso da Gioconda, como um desavisado poderia dizer que se trata de uma revisitação de DaVinci?

Sejam responsáveis, pessoal. Ser original é criar coisas novas, mas ser original também é usar coisas antigas de um jeito diferente. Ficou muito na moda dizer “meus vampiros”, “seus vampiros”, “meu lobisomem”, “seu lobisomem”, mas isso é errado. “Vampiro” e “lobisomem” são ideias. Embora cada pessoa os veja de um jeito, existe aquilo que está no inconsciente coletivo. Não subestime o que as outras pessoas pensam a respeito do tema que você está tratando. São essas pessoas que vão te ler.

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(No próximo post, farei alguns comentários sobre como fiz minha estilização. Talvez ajude a dar uma ideia de como fazer isso pra alguém que não tenha ideia de como fazer. De bônus, virão uns links bacanas. Até lá. o/)