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segunda-feira, 2 de abril de 2012

É. Eu li Crepúsculo. Me processem.

Era para eu ter postado isso ontem, mas a Annette nos chamou na sede da Polícia e disse: "Hoje vocês terão 4 horas de treinamento extra." Quando viu nossas faces caídas por termos trabalho num domingo, ela acrescentou: "Rá! Primeiro de abril! São seis horas de treinamento! Agora mexam-se!" #estagiáriodadepressão

Crepúsculo seria bem mais legal se fosse uma sátira. Quer dizer, um vampiro não poder sair no Sol porque brilha? Imaginem o potencial imenso de piadas com um machão/gótico/metaleiro que vire vampiro! Ia ser a bofetada do século na cara dos posers!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Os 5 grandes mitos sobre jovens e livros juvenis

Hoje, no blog do Conservatório, escolhi falar sobre uma coisa que tem me incomodado desde uma conversa no MSN. O cara leu a sinopse d’O Conservatório e, a partir dela, disse que era algo para “adolescentes idiotas”. Mais ou menos no mesmo dia, um moço no Twitter ficou surpreso por eu ter comentado que comprei Crepúsculo numa promoção de 9,90 do Submarino. Pensou que eu odiava o livro.


Pode ser que ele tenha pensado isso por conta de zoações no blog Bram & Vlad. Pode ser que o culpado tenha sido esse post. Mas eu fiquei incomodada. Fazer piada de uma coisa é odiá-la? Reconhecer as limitações dela significa que você não gosta?

Bom, o fato é que eu gosto da série Crepúsculo. Não me entendam mal. Gostar não é amar, o livro não está no meu top 30 livros preferidos e nem sequer no meu top 10 histórias de vampiros (vou divulgar qualquer dia). Mas eu gosto. Acho divertido pra se passar o tempo, e pra se acalmar os hormônios em fúria lá pelo meio do ciclo menstrual. (É, os homens definitivamente não entendem isso...)
Agora, “adolescentes idiotas”? Caros amigos precocemente envelhecidos, que reclamam com todas as forças contra crepusculetes, emos e família Restart, o post de hoje é especialmente para vocês. Vou chegar de voadora nos cinco mitos mais recorrentes sobre adolescentes e livros juvenis. Proteja-se dos cacos ali atrás do muro de proteção, porque me baixou um humor Caçadores de Mitos, e vocês sabem que eles não detonam mitos apenas figurativamente.


Mito 1 – As adolescentes que soltam gritinhos quando o lobisomem aparece sem camisa no filme de Crepúsculo são menos inteligentes ou críticas que outras adolescentes que não exibem esse tipo de comportamento.

Esse é um mito recorrente e é um tremendo de um preconceito. Os que perpetuam esse tipo de opinião geralmente são homens, e acho que sei por quê.
Vamos voltar às aulas de biologia. O que é a adolescência biologicamente falando? Simples: entre outras coisas, é quando o ser humano fica sexualmente maduro e começa a produzir uma série de novos hormônios. Esses hormônios causam alterações de humor e cada sexo tem o seu, bem diferentes um dos outros.
Os meninos são expostos a doses cavalares de testosterona. O efeito colateral disso, tipicamente, é um comportamento agressivo e/ou competitivo. Não é à toa que homens jovens gostam de games violentos, eles os ajudam a libertar esse excesso de impulsos agressivos que eles, talvez, não tenham outra forma de extravasar.
Já as meninas vivem um misto de estrogênio e progesterona, se alternando ao longo do mês. É quando elas são apresentadas ao famigerado ciclo menstrual. Cara, se o misto de hormônios já bagunça a cabeça dos homens, pensem no que não faz na das meninas. Nós ficamos mais emotivas e desenvolvemos o hábito incontrolável de admirar garotos lindos (geralmente mais velhos), mesmo que só platonicamente. Aliás, eles nem precisam ser lindos de fato, nossa imaginação superfértil é que os faz assim. Nossos hormônios nos fazem agir como pavoas, babando pela cauda do pavão mais colorido. Mais tarde, nossos critérios para homens atraentes provavelmente vão mudar bastante, mas nesse momento de transição, é quase compulsivo.
Sendo assim, os gritinhos ao ver garotos bonitos não têm nada a ver com maturidade ou inteligência, têm muito mais a ver com personalidade. Uma menina mais tímida não vai gritar, mas certamente vai ficar toda “aiaiai”, como diria Sakura Kinomoto. Tenham paciência com as gritadeiras e não as desprezem, isso é uma fase e passa. Se não estivessem gritando por Edward e Jacob, certamente estariam gritando por outro bonitinho com carinha de menino qualquer. (Nesse momento, estou tendo lembranças de mim mesma, com quatorze anos, assistindo Entrevista com o Vampiro. Aiai.)
Vamos deixar claro: as forças que fazem as garotas gritarem por Edward Cullen são as mesmíssimas que fazem os garotos sentirem o que sentem quando estouram a cabeça de um zumbi num jogo ultrarrealista: hormônios. Vivam com isso.


Mito 2 – Ah, mas os ataques das adolescentes contra o Stephen King por ter criticado a Stephenie Meyer, sim, são provas de pouca inteligência ou capacidade crítica.
Esse mito é recorrente entre homens e mulheres. E é coisa de quem esqueceu o que é ser adolescente. Já falei no mito 1 sobre a biologia da adolescência. Agora, vou falar um pouco na psicologia.
Psicologicamente, a adolescência não é mais fácil que fisicamente. Até uns dias atrás, o indivíduo era uma criança bonitinha e todo mundo tinha paciência com ele. De repente, os adultos parecem pensar que aquela criança recebeu a visita da Fada da Maturidade, que, com sua varinha de condão, a transformou em um adolescente intelectual, educado, responsável e independente.
Se você acreditava na Fada da Maturidade, más notícias. Ela não existe. A do dente, sim. A Madrinha, sim. Sininho, sim. Mas a da Maturidade, não.
Adolescentes são aquelas mesmas crianças de antes, mas que de repente, passaram a sofrer doses cavalares e constantes de substâncias químicas reguladoras de humor e passam a ser tratados como mini-adultos, não como aprendizes de adultos. Então, eles têm que se virar com o que alcançam pra aprenderem sozinhos a serem adultos. É a hora que eles vão analisar friamente o comportamento dos adultos ao redor para tentar decidir o que vai entrar na constituição de sua personalidade ou não. É quando vão em busca de valores, de identidade, enfim, quando procuram vários modelos para absorver os conhecimentos do jogo que terão que jogar quando forem adultos de fato. Nessa idade, procuram amigos para trocar idéias e não terem que trilhar sozinhos esse aprendizado difícil e assustador.
Nada mais natural que adolescentes tenham ídolos. Um ou vários, a gosto do freguês. Quando um adolescente escolhe um ídolo, ele está dizendo ao mundo que gostaria de seguir aquele modelo de vida. Daí, vem alguém e critica esse ídolo. Pra qualquer pessoa adulta, isso é algo normal, direito de expressão, e tal. Para um adolescente, que ainda não conhece as regras da vida social, isso é uma ofensa pessoal. O crítico não está criticando só o ídolo. Ao falar que esse ídolo é ruim, está criticando a capacidade do adolescente de escolher seus modelos.
Trollagem adolescente é irritante, mas a gente tem que dar um desconto. O adolescente é o cara que foi obrigado a jogar um jogo sem saber as regras, e nem sempre tem alguém paciente do lado pra explicar se ele pode ou não jogar o dado e avançar uma casa. É preciso corrigir os adolescentes, sim, para ajudá-los a crescer. Mas nunca desprezá-los e dizer que são idiotas pelas coisas que fazem. Muitos trolls adolescentes, quando devidamente podados, se tornam pessoas muito inteligentes e razoáveis, boas de se conviver. Conheço alguns exemplos.

Quando não se poda os trolls adolescentes, eles viram aqueles adultos barraqueiros e frustrados que todo mundo que já freqüentou fóruns na internet já conheceu. Portanto, ajude o bem estar da nação e trate com respeito e firmeza os adolescentes revoltados, não com desprezo e escárnio. A sociedade agradece.

Mito 3 – As pessoas que aprendem a gostar de ler com Crepúsculo e outras modinhas não vão procurar os clássicos, só vai ficar em leituras semelhantes.
Oh, bem, claro, duh. Ninguém vai aprender cálculo diferencial e integral assim que aprende a somar. Tem um longo caminho a ser percorrido entre alguém que só lia as fofocas da revista e alguém que lê James Joyce. Logo depois de ler um livro pop, a pessoa vai querer outro livro pop. Pode levar anos até ela achar que esse tipo de leitura já deu o que tinha que dar e partir pra outras mais difíceis, com temas mais profundos.
Muitas pessoas acham bonito esfregar na cara de crepusculetes que lêem coisas mais “intelectualmente superiores”, achando que, com isso, elas vão se sentir envergonhadas em gostar de Crepúsculo e ler outras coisas.
Bom, você gostaria mais de Matemática se estivesse penando com seu dever de casa sobre inequações do segundo grau e eu dissesse que resolver uma integral tripla com coordenadas polares é algo que qualquer idiota conseguiria fazer?

Mito 4 – Escritores de livros juvenis e infanto-juvenis têm menos qualidade e mérito que os adultos.
OK. Fechem todas as escolas. O que importa é a faculdade, porque ela que vai te dar especialização para um emprego. Para que submetermos as crianças a aulas chatas e maçantes de escrita em cadernos de caligrafia? Para que darmos a elas livros didáticos rasos e incompletos, que não informam todo o mecanismo bioquímico por trás da fotossíntese? É tão simples!
É uma tendência humana incensar só quem deu as belas formas de uma casa, sem dar muito crédito a quem fez o trabalho braçal de erguer seus alicerces e fazer uma fundação segura e sólida. Pense em um cientista famoso qualquer. Você provavelmente encontrará quem foi o professor dele em sua especialidade. Pense em um escritor, e você terá uma lista de influências literárias e filosóficas que ele pode ter sofrido. Mas tente descobrir quem o ensinou a ler e escrever (caso não tenha sido a mãe ou alguém que teve uma história tocante ou interessante). Se essa pessoa não existisse, o cientista e o escritor em questão simplesmente não teriam trabalhado em seus campos de atuação, e seus nomes não teriam nos atingido. Ainda assim, os professores de ensino básico dessas pessoas são, em geral, ilustres desconhecidos.
Não precisamos ir longe. Uma simples pesquisa entre seus conhecidos mostra o quanto ganha um professor primário e o quanto ganha um de ensino médio, como são valores díspares e como o trabalho de lançar as fundações do conhecimento na criança é visto como algo “fácil” e pouco digno de valor. Sendo assim, não é surpreendente que ainda haja quem pensa que não há necessidade de existirem autores de livros infanto-juvenis/juvenis/jovens adultos/best sellers.
Volto a bater na tecla: a gente não aprende a gostar de ler do nada, já com um clássico complexo na mão. Se você não consegue entender como alguém lê os livros do Dan Brown feliz da vida, como coleciona todos os Paulos Coelhos sem remorso ou como essa pessoa torce o nariz pro Machado de Assis ou pro José de Alencar, dá pra simular isso muito bem. Pegue uma gramática de polonês e um dicionário polonês-português. Agora, pegue Guerra e Paz (ou outro similar, que você não tenha lido ainda) escrito em polonês e leia. Lá pela segunda semana, quando você não agüentar mais ler as cinco primeiras páginas pra entender o que está havendo, guarde Guerra e Paz e leia O Pequeno Príncipe em polonês.
Dá para entender agora por que quem não é fluente em leitura prefere obras de linguagem simples, trama pouco complexa e tamanho relativamente pequeno, não?
Com o tempo, você, caso faça esse experimento, vai ficar cada vez mais fluente em polonês e poderá, em certo ponto, pegar de volta o Guerra e Paz para ler. Mas não vão ser um ou dois livros simples que vão te habilitar a isso. Daí eu pergunto: o que seria de você se não fossem os autores que produziram os livros pequenos e simples a mancheias?
Tudo bem, o autor de livros para crianças e jovens tem grandes chances de não entrar no rol de grandes nomes da literatura mundial, caso fique só nessa área. Entre outras coisas porque atualidade é algo que fisga muito os jovens em uma leitura, e a atualidade envelhece. Mas isso não significa que o papel desse autor é menos importante ou menos nobre que o de um autor de livros clássicos.
E se você acha um absurdo que tais livros “para iniciantes em leitura” batam sempre recordes dos mais vendidos, em detrimento do que possuem mais qualidades acadêmicas, lembre-se de quantos coleguinhas começaram com você uma faculdade qualquer, e de quantos efetivamente terminaram. Nem todo iniciante se sente motivado a ir até o fim em algum aprendizado, então, é absolutamente normal que livros de “qualidade duvidosa” (tremo quando vejo isso) estejam sempre no topo dos mais vendidos. Provavelmente, sempre estarão, e acho que qualquer autor, não importa seu estilo, devia ficar feliz com isso. Quanto mais exemplares o best seller vende, maior a chance de novos leitores chegarem à “maturidade”.


Mito 5 – Escrever livros infanto-juvenis é fácil.
Quando ouço isso e penso nos mais de cinco anos que passei mexendo no meu romance juvenil beta, dá vontade de bater na pessoa que professa esse mito. Sério.

Quer dizer, a pessoa honestamente acha que, quando diz “estou escrevendo um juvenil”, isso imediatamente a isenta de todo e qualquer esforço de pesquisa, de composição de personagem e de verossimilhança da trama? Olha, isso em si já é um mito muito grande. Agora, quando ela ainda se justifica dizendo que “os adolescentes não vão notar, mesmo, eles engolem qualquer coisa”, aí, eu só tenho duas coisas a dizer: (1) Seu preguiçoso! (2) Seu babaca! Nunca subestime seu público-alvo, ele pode saber bem mais que você.

Como eu disse nos mitos anteriores, escrever juvenil é uma escolha de tema e linguagem. Não é uma escolha de mais ou menos esforço, mais ou menos preocupação com a qualidade. Isso também se aplica a infantil, infanto-juvenil, e mesmo best sellers. Uma coisa é você reconhecer que as pessoas que vão te ler provavelmente ou vão estar atrás de entretenimento puro, ou estão dando os primeiros passos para serem leitores “maduros”. Outra, totalmente diferente, é achar que isso faz dessas pessoas um bando de idiotas, que não têm a mínima chance de saber como uma instituição do mundo real funciona, ou como uma pessoa apaixonada se comporta. Digamos que você escreva um livro juvenil que tenha uma guerra imaginária onde o Brasil tomou parte, e que não pesquise lhufas sobre nosso exército antes de escrever. O jovem médio pode até não entender como funciona a hierarquia do Exército Brasileiro, mas e se seu livro for lido pelo filho de um soldado? Que tal receber uma crítica arrasadora e embasada de um rapaz de 15 anos? Nem que seja para o bem do seu ego, respeite quem te lê.


Era isso, pessoal. Se tem algum mito que vocês achem importante e queiram detonar, os comentários estão abertos pra você. Faça bom uso!

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Estilizando o vampiro, ou o erro fatal de Stephenie Meyer

Eu ia simplesmente chamar vocês para darem uma lida no beta do Conservatório, mas achei melhor fazer uma ligeiríssima nota sobre vampiros em geral, inspirada na pergunta com que vêm me enchendo o saco há um tempo: "por que o Diego toma sol e não acontece nada? Mimimi..."

Zente, desculpem se eu digo isso, mas vampiros se desfazendo em cinzas com inocentes raios de sol é uma invenção hollywoodianesca tão tosca quanto os vampiros brilhantes de Crepúsculo (é, Edward, Diego não perdoou você). O fato é que filmes são muito mais curtos que livros, então, há certas liberdades poéticas que foram tomadas com os vampiros ao longo dos anos que não existiam originalmente no mito.

Vocês devem estar se perguntando agora, então: por que os vampiros-fogueira foram aceitos enquanto os brilhantes são toscos, se nenhuma das duas pirotecnias tem qualquer base?

Antes de mais nada, vamos sair da esfera literária e aprender uma ou duas coisinhas bacanas sobre desenho. Existe uma técnica chamada "estilização". Estilizar significa reduzir uma figura às formas mais simples possíveis, sem que ela perca sua identidade. Pablo Picasso estilizou um touro em uma série de desenhos muito famosa:


Percebem? Entre o primeiro touro, o mais realista, e o último, apenas um punhado de traços, houve vários intermediários. Mas todas as figuras têm em comum o fato de que são, inegavelmente touros. A identidade do animal não se perdeu.

O que isso tem a ver com o assunto anterior?

Simples. Quando vamos nos apropriar de uma figura mitológica já conhecida, não somos obrigados a fazê-lo de forma absolutamente realística, como o primeiro touro, mas, ao estilizá-la, precisamos ter certeza de que estamos suprimindo traços realmente supérfluos. O touro estilizado de Picasso não pareceria um touro se o pintor tivesse se esquecido os chifres, por exemplo. Ou, se lhe tivesse dado o contorno de um cavalo, o faria parecer mais um cervo que um touro.

É aí que entra a diferença entre o vampiro-tocha e o vampiro-purpurina. Stephenie Meyer cometeu erros sérios de estilização ao criar seu vampiro. Ela manteve três atributos importantes do vampiro: ele é morto, ele é sedutor e ele bebe sangue. Fim de papo. Alguém percebeu que falta algo muito importante aqui? O @cericn e a @anacarolinars perceberam. Não?

Eles não são noturnos! Desde a aurora da humanidade, os vampiros são um mal. E, como dizia Conan Doyle, é à noite que os poderes do mal são exaltados. Parece bobagem, mas ao fazer com que eles andassem pra lá e pra cá impunemente à luz do Sol e quase não tivesse cenas à noite na série Crepúsculo, Meyer tirou os chifres do touro. Não é porque os vampiros brilham. É só que nosso subconsciente nos diz, instintivamente, que eles não se enquadram exatamente naquilo que nos acostumamos a chamar de vampiros.

Não tenho a pretensão de ser capaz de estilizar perfeitamente os vampiros. Até porque, acredito que possam haver formas diferentes de estilização, mas que tragam a mesma ideia. Para ilustrar o que digo, vou listar algumas características que acredito serem básicas de um vampiro, sejam visuais, sejam literárias (isso na minha cabeça, claro):

1 - Eles bebem sangue
2 - Eles se levantam de túmulos
3 - Eles são noturnos
4 - Eles são pálidos
5 - Eles têm caninos
6 - Eles encantam suas vítimas
7 - Eles são fortes
8 - Eles não morrem de morte natural

Acho que dá para começar com isso. Um vampiro com todas essas características é inegavelmente um vampiro para qualquer um. Mas eu o compararia ao penúltimo dos touros de Picasso. Acredito que um vampiro estilizado poderia conter tanto as características 1, 3, 7 e 8 quanto as características, digamos, 3, 6, 7 e 8. Sim, ele poderia se alimentar de algo que não sangue. Quanto casos há dos tais vampiros de energia? O caso dos caninos, admito, coloquei mais por questões estéticas que lógicas ou históricas. Mas é que, se você apresentar um smiley, ele logo será identificado como um ser humano. Se apresentá-lo com presas, será identificado como vampiro, tal a força dos caninos longos no imaginário popular.

Se você pegar 2, 7 e 8, terá um zumbi. A estilização estaria incompleta. Percebem? Há várias formas de se fazer a estilização, muitas que funcionam, mas um bocado que dá ideias erradas. Escolher as características certas nem sempre é fácil.

A moral da história não é, exatamente, a de que é dever de honra de um escritor ser convencional no momento de usar uma figura mitológica, nem esse blá-blá-blá intelectual chato. Gostem os ranzinzas ou não, Stephenie Meyer FEZ sucesso com seus vampiros incompletos, mas até muitos de seus fãs reconhecem que os vampiros dela são muito diferentes do tradicional. Receio que, se ela não tivesse atingido as leitoras em cheio com sua trama açucarada, ela seria um motivo ainda maior de piadas. Minha mensagem é que, se alguém quer se aproveitar de qualquer criatura mitológica, e pretende fazer isso sem criar uma criatura diferente e usar o nome antigo (o que pode dar certo se você é um gênio ou tem sorte, mas terrivelmente errado se não é ou não tem - e menos de 1% dos escritores são gênios, menos ainda têm sorte), tem que tomar cuidado na estilização.

É verdade que a imagem dos vampiros (por exemplo) mudou muito desde as primeiras histórias de cadáveres sugadores de sangue até hoje. Mas isso não foi de uma história para outra. Foi gradativo e, até onde pude notar correndo os olhos em histórias de vampiros do século XIX, eles acrescentaram muitas coisas ao mito original, mas tiraram bem poucas. Ainda usando comparações desenhísticas, creio que eles pegaram um rascunho (geralmente, criaturas mitológicas em seu estado bruto não são muito mais que isso, vide descrições de lendas brasileiras) e o arte-finalizaram, mas permitido que ainda fossem reconhecíveis os traços principais. Pegar esse desenho e distorcê-lo até só sobrar o branco dos olhos é como revisitar a Monalisa desenhando uma loura de biquíni. Pode ser um desenho sensacional, mas se a tal loura não tiver nem o sorriso misterioso da Gioconda, como um desavisado poderia dizer que se trata de uma revisitação de DaVinci?

Sejam responsáveis, pessoal. Ser original é criar coisas novas, mas ser original também é usar coisas antigas de um jeito diferente. Ficou muito na moda dizer “meus vampiros”, “seus vampiros”, “meu lobisomem”, “seu lobisomem”, mas isso é errado. “Vampiro” e “lobisomem” são ideias. Embora cada pessoa os veja de um jeito, existe aquilo que está no inconsciente coletivo. Não subestime o que as outras pessoas pensam a respeito do tema que você está tratando. São essas pessoas que vão te ler.

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(No próximo post, farei alguns comentários sobre como fiz minha estilização. Talvez ajude a dar uma ideia de como fazer isso pra alguém que não tenha ideia de como fazer. De bônus, virão uns links bacanas. Até lá. o/)