No meu tumblr, escrevi um pequeno texto sobre a questão da representatividade nos quadrinhos que me atrevo a fazer, para servir de introdução ao Manifesto Irradiativo. Aqui, achei de bom tamanho dar um depoimento sobre o que isso significa pra mim na literatura, antes de linkar vocês para ele.
Desde sempre, minha grande preocupação foi que meus protagonistas fossem legais de escrever. E "legais de escrever" para mim sempre foram os personagens que tinham algo de diferente dos outros, e como essa diferença muda bastante (ou, paradoxalmente, não muda absolutamente em nada) a forma como essa pessoa interage com o mundo cotidiano. Se existe um tema que vai aparecer em quase todos os meus escritos mais longos, em todos os meus quadrinhos, é isso. É uma coisa que realmente me dá prazer de explorar. Sendo assim, todo protagonista meu é, por definição, diferente. E eu vou dizer um negócio, isso é delicioso. Alguns estão na minha zona de conforto, outros são um desafio delicioso.
Mas sabe o que é mais delicioso? É depois de tudo, você ver que aquilo que você achava que era alien, que você estava colocando por "diversidade", por "desafio", ou simplesmente, por "diversão", estava ali dentro de você o tempo todo. E é aí que sua própria atitude para com as pessoas "diferentes" muda, porque elas não são diferentes de verdade. Elas podem ter muito em comum com você.
Como é o blog do Conservatório, posso falar sobre os protagonistas dele, a Cristina e o Diego. O que me pus como desafio com a Cristina é que nasceu como uma reação às protagonistas doces e nobres de young-adult. Cristina é mal-humorada, frequentemente mal-educada, é solitária mas não quer fazer amigos, é cética, ateia e tem toda o romantismo de uma batida policial. Muitas dessas características não são só diferentes de mim, elas são o total oposto. Mas não é que eu descobri que escrever a Cristina é delicioso naqueles dias que você acorda de mau humor e quer mais que o mundo se exploda? Foi tão divertido que um pouco da atitude dela foi parar em personagens secundários e várias outras histórias (lalalVladlalaXerémlalala).
Diego? Diego também é uma reação ao interesse romântico todo cheio de pudores e dramas internos. Ele é zoeiro, frequentemente invade o espaço pessoal da mocinha, é extrovertido, convencido e age primeiro para pensar depois. Eu absolutamente não sou extrovertida (embora possa fingir muito bem, se precisar) e não muito fã de... tocar... pessoas... enfim, eu não esperava que escrever Diego seria gostoso como foi.
Eu podia ficar aqui detalhando cada um dos meus cerca 65 protagonistas (ah, não acredita? Pus a planilha no Dropbox. Contemplem.), mas acho que já entenderam o espírito da coisa. E nem estou falando dos secundários, que também recebem muito carinho e onde também aproveito para colocar muita coisa. Basicamente, sabe quando acusam os secundários de serem mais interessantes que o protagonista, porque as pessoas não arriscam com protagonistas? Digamos que não me sinto motivada a escrever uma história a menos que meu protagonista seja um desses secundários legais.
Isso dito, toda vez que vejo gente falando que os personagens principais tem que ser genéricos para o pessoal se identificar (sendo que "genérico" geralmente significa "homem-hétero-cis-branco") e que a luta por representatividade na literatura é "bobagem politicamente correta", eu morro um pouco por dentro. Representatividade significa novos mundos psicológicos para explorar, novas histórias para contar, novas coisas para descobrir sobre o outro e sobre você. Quem, em sã consciência, não está agora mesmo explorando esse mundo todo? Quem, em sã consciência, não está saindo do seu pequeno círculo criativo para contar novas histórias, irradiando para mais longe do que antes?
Agora, sim, acho que estão no estado de espírito certo para ler essa iniciativa bacaníssima dos escritores Jim Anotsu e Alliah, o Manifesto Irradiativo. Assine e irradie. Literatura diversa é literatura fresca, território inexplorado.
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
segunda-feira, 19 de maio de 2014
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Novidades novas e antigas - Algumas lições do escrever
Pessoal! Depois de um período de trabalho intenso, que terminou com a escrita d’O Conservatório, caí num período em que eu mal quis tocar na coisa de novo. Agora, uns seis meses depois do último ponto final, que culminou com a versão 3.1.1 da história, resolvi reler o filhote, porque... Deu vontade, oras. u_u
A primeira notícia é que eu mudei (já tem um tempo) o nome da história. Eu tava achando O Conservatório um título com cara de paisagem (sem trocadilho), e resolvi mudar para um mais significativo: Noturno em Sol Maior (com trocadilho). Tem um Sol Maior muito importante na história, o que faz com que o título acabe ficando adequado. O nome do blog não vai mudar, afinal, continua tendo um conservatório na história. :P
De repente, me deu uma comichão de falar da história, então, vou fazer uns posts especiais. Nesse aqui, quero falar sobre livros muito importantes que já escrevi e as lições que aprendi com eles. Eles nunca serão publicados, mas, sem eles, eu não tava aqui batendo a cabeça com escrita até hoje. Todo mundo que brinca de escrever (e, ocasionalmente, trabalha com isso) deve ter livros que serviram de treino pra escrita antes de arriscar pensar em publicar algo. Façam comigo essa viagem de nostalgia e dividam suas histórias nos comentários, se quiserem. :)
1 – O livro que me ensinou que eu também podia escrever.
Um belo dia, a nossa professora de Português da sexta série propôs que fizéssemos uma “feira literária” na nossa sala de aula, onde teríamos que contribuir com um mini-livro ilustrado, feito por nossas próprias mãos.
Até o momento, eu já tinha escrito redações e até fantasiado escrever um livro. Mas era algo distante: minhas fantasias de abrir um canil para vender pastores de Shetland eram igualmente vívidas (é, pois é). Foi quando tive o produto final de meus esforços literários em mãos que tive o momento de iluminação: “Ei! Eu não preciso escrever só redações de escola! Eu posso fazer alguma coisa além!”
A “obra” é essa abaixo. O desenho da capa é da minha mãe (!), a partir de um decalque dessa capa de Menino de Engenho. As ilustrações internas são minhas. Vejam só que looshoo. Conta um experimento de um menino-cientista-louco que não deu lá muito certo...
(Pra ser honesta, eu mesma só peguei pra ler os livros dos meus coleguinhas que tinham vampiros e terror. :P E isso foi em 2000, bem antes de Crepúsculo surgir.)
2 – O livro que me ensinou que eu tinha que perseverar
No ano seguinte, continuei com a mesma professora, que organizou de novo a feirinha. Dessa vez, eu tinha criado vergonha na cara e comprado revistas de “como desenhar mangá”, pra fazer a ilustração da capa. E o Eduardo, o personagem do livro anterior, tinha ganhado uma nova história, outra aparência, o Daniel virou irmão dele (antes, eles eram amigos), entre outras coisas. É incrível ver como amadureci e aprofundei o personagem em coisa de um ano. Resolvi contar essa história de como os dois irmãos estudaram até a quarta série num internato, e as coisas esquisitas que aconteceram lá (Chiquititas pode ter influenciado nisso...).
Esse desenho na capa é meu quarto desenho em estilo mangá. :P Os dois primeiros são desenhos dos personagens dessa história, sendo o primeiro uma menina dura como um pau e dos dois outros, praticamente iguais aos dessa capa. :P
Entre o livrinho do item 2 e esse, existiu a fic de pokémons vampiros. Eu falo mais dela em outro lugar. Mas ela era uma história pequena. Livro, livro, mesmo, escrevi um foi no meu diário do Mickey com páginas perfumadas.
...Eu tinha um diário do Mickey com páginas perfumadas, ok? Presente de aniversário. Cheguei a escrever nele por algum tempo usando um código secreto (tão secreto quanto pode ser um código em que uma árvore simboliza o “a”, uma estrela o “e”, uma igrejinha um “i” e por aí vai...), mas enjoei rápido e as páginas ficaram ali dando sopa. Daí, resolvi preencher com uma história de detetives que eu estava maquinando já há bastante tempo. Sempre tinha sido uma história para me entreter, e eu nem sonhava em torná-la “séria”, escrevendo. Bom, toca a experimentar, né?
Quase enchi o diário com a história (ainda sem nome), que narrava as desventuras de Juliana, uma moça carioca que tem seus pais presos inesperadamente por tráfico de drogas e acaba indo morar com o irmão (que tinha sido tirado dos pais antes da Juliana nascer, justamente porque eles o negligenciavam para dar festas e vender drogas e, revoltado, acabou virando policial). Daí, ela vai pra Ouro Preto e acaba caindo de cabeça numa trama agathachristiniana, com direito a um ruivo baixinho com sotque francês (me processem).
A premissa é 800% mais legal que a execução, confesso. :P Poxa, é uma história escrita por uma menina de 13 anos num diário perfumado do Mickey. :P
A lição aprendida foi: o que quer que você escreva, escreva até o fim, mesmo que morra de preguiça o tempo todo. Isso te dá confiança de tentar vôos maiores.
4 – ...E que ela possivelmente vai ter que ser reescrita depois...
...Daí, dois meses depois de terminar a história do diário do Mickey, eu comecei a achar mais furos que os de uma peneira e decidi reescrever. Doeu contemplar o tamanho da tarefa, mas eu não ia deixar a história tosca como estava. u_u
Dessa vez, ela foi batizada de “O Ramo de Oliveira” e escrevi em páginas de caderno avulsas. Foram entre 50 e 60 páginas manuscritas, e pior: em letra de forma com diferenciação entre maiúsculas e minúsculas, ao invés de letra cursiva. Eu levo o dobro do tempo escrevendo assim, embora fique mais legível.
Ampliei umas coisas, expliquei outras, tentei dar um ar mais realista... E transformei a cena de julgamento em uma ainda mais agathachristiniana, com os personagens todos reunidos na sala de estar de uma mansão. *-*
Por muitas vezes, me amaldiçoei por estar refazendo o trabalho na unha, mas eu não ficaria satisfeita comigo mesmo enquanto continuasse vendo crateras que podiam conter o monte Everest com folga. As várias anotações nas margens das folhas, de compras a fazer, trabalhos a entregar, telefones e idéias para outras histórias mostram o quão longo foi o período em que me dediquei a reconstruir essa história.
A lição é: reescrever algo que você acha que está grotescamente ruim é um trabalho de corno. Mas como compensam os resultados!
(E, ainda assim, a versão 2.0 do Ramo de Oliveira não me deixou satisfeita. Mas a versão 3 é algo que ainda estou devendo a mim mesma. Talvez no futuro.)
5 – ...E que continuações são irresistíveis.
Vocês pensam que só porque levei meses reescrevendo O Ramo de Oliveira e não fiquei apaziguada com a versão final que isso me impediu de escrever uma continuação? CLARO QUE NÃO! Peguei um diário perfumado com um pégaso voando em direção à Lua (eu ganhava um diário desses todo ano – também tenho um vermelho com dálmatas) e comecei O Gato Esmeralda, sobre o roubo de uma relíquia egípcia sob o nariz de várias pessoas. Com direito a um ladrão lupinesco, que rouba o troço só por esporte.
Fato: não importa o quanto você encrenque com sua história. Na sua mente, ela SEMPRE vai ter uma continuação. Pode até não virar livro, mas vai ter continuação.
O Gato Esmeralda é menos viajado e forçado que O Ramo de Oliveira, mas ainda assim... Bom, digamos que eu continuo usando o cadeado nos meus diários antigos.
Bônus: algum tempo depois, escrevi um conto em três partes onde os personagens de O Ramo de Oliveira encontram o Eduardo e o Daniel. :D Crossover rulz! Ele tá online aqui, aqui e aqui. Até que não me envergonha muito, embora precise de um bom polimento.
6 – E, por fim, o livro que me ensinou que eu podia terminar uma história longa, e ela podia ser legal.
...E esse é O Conservatório, versão 1.0. :D Eu o publiquei em forma de folhetim na lista de discussão do Adorável Noite e foi a primeira vez que coloquei coisas minhas pros outros lerem. E a história foi comentada, vejam só. Por duas ou três pessoas, mas quem liga? *-*
Foi o empurrãozinho de auto-estima que eu precisava para seguir em frente. Já contei essa história milhares de vezes antes, então, vou pular pra lição:
Lição final: só um escritor sabe quantos livros se escondem por trás de um que ele mostra ao público.
Até! o/
A primeira notícia é que eu mudei (já tem um tempo) o nome da história. Eu tava achando O Conservatório um título com cara de paisagem (sem trocadilho), e resolvi mudar para um mais significativo: Noturno em Sol Maior (com trocadilho). Tem um Sol Maior muito importante na história, o que faz com que o título acabe ficando adequado. O nome do blog não vai mudar, afinal, continua tendo um conservatório na história. :P
De repente, me deu uma comichão de falar da história, então, vou fazer uns posts especiais. Nesse aqui, quero falar sobre livros muito importantes que já escrevi e as lições que aprendi com eles. Eles nunca serão publicados, mas, sem eles, eu não tava aqui batendo a cabeça com escrita até hoje. Todo mundo que brinca de escrever (e, ocasionalmente, trabalha com isso) deve ter livros que serviram de treino pra escrita antes de arriscar pensar em publicar algo. Façam comigo essa viagem de nostalgia e dividam suas histórias nos comentários, se quiserem. :)
1 – O livro que me ensinou que eu também podia escrever.
Um belo dia, a nossa professora de Português da sexta série propôs que fizéssemos uma “feira literária” na nossa sala de aula, onde teríamos que contribuir com um mini-livro ilustrado, feito por nossas próprias mãos.
Até o momento, eu já tinha escrito redações e até fantasiado escrever um livro. Mas era algo distante: minhas fantasias de abrir um canil para vender pastores de Shetland eram igualmente vívidas (é, pois é). Foi quando tive o produto final de meus esforços literários em mãos que tive o momento de iluminação: “Ei! Eu não preciso escrever só redações de escola! Eu posso fazer alguma coisa além!”
A “obra” é essa abaixo. O desenho da capa é da minha mãe (!), a partir de um decalque dessa capa de Menino de Engenho. As ilustrações internas são minhas. Vejam só que looshoo. Conta um experimento de um menino-cientista-louco que não deu lá muito certo...
No dia da exposição dos livrinhos, só eu peguei o meu pra reler e admirar. :P Nesse dia, aprendi uma valiosa lição:
Não importa o quanto você se esforce para criar uma história e para ilustrá-la. Não importa o quanto você corra atrás para tê-la na banca junto com as outras e quantas peripécias você passe para encaderná-la a tempo: se colocam seu livro em exibição junto com livros de vampiros, ninguém vai mexer nele. Pelo menos, sempre vai restar em você a satisfação interna de que você criou sua história e seus personagens, e não resumiu e ilustrou a trama de um filme.
(Pra ser honesta, eu mesma só peguei pra ler os livros dos meus coleguinhas que tinham vampiros e terror. :P E isso foi em 2000, bem antes de Crepúsculo surgir.)
2 – O livro que me ensinou que eu tinha que perseverar
No ano seguinte, continuei com a mesma professora, que organizou de novo a feirinha. Dessa vez, eu tinha criado vergonha na cara e comprado revistas de “como desenhar mangá”, pra fazer a ilustração da capa. E o Eduardo, o personagem do livro anterior, tinha ganhado uma nova história, outra aparência, o Daniel virou irmão dele (antes, eles eram amigos), entre outras coisas. É incrível ver como amadureci e aprofundei o personagem em coisa de um ano. Resolvi contar essa história de como os dois irmãos estudaram até a quarta série num internato, e as coisas esquisitas que aconteceram lá (Chiquititas pode ter influenciado nisso...).
Esse desenho na capa é meu quarto desenho em estilo mangá. :P Os dois primeiros são desenhos dos personagens dessa história, sendo o primeiro uma menina dura como um pau e dos dois outros, praticamente iguais aos dessa capa. :P
Veio a exposição e... De novo, nem mexeram no bichinho. A lei natural da prevalência dos vampiros agiu de novo, e convenhamos... Fui praticamente a única naquele recinto que leu mais do que dois livrinhos. Meus colegas simplesmente não estavam nem aí, não eram metade da traça de livros que eu era. Tipo, quem quer ler os garranchos de seu próprio coleguinha, ao invés de um livro bonitão na livraria? Exceção honrosa foram um livro de vampiros canibais com ilustrações de membros decepados e um resuminho ilustrado de Terror em Amytville, que foram campeões de leitura. Esse livrinho era um legítimo “combustível de pesadelos, o livro de colorir”. Eu TIVE pesadelos com o porco fantasma satânico na janela (Samael, você não é o único a temer porcos satânicos, veja só). *medo*
Lição número dois: não importa o quanto você melhore de um livro pro outro em escrita e ilustração, você nunca será páreo para um livrinho de vampiros com sangue na capa. Ou para um livro com porcos satânicos.
3 – O livro que me ensinou que eu podia terminar uma história longa...
...Eu tinha um diário do Mickey com páginas perfumadas, ok? Presente de aniversário. Cheguei a escrever nele por algum tempo usando um código secreto (tão secreto quanto pode ser um código em que uma árvore simboliza o “a”, uma estrela o “e”, uma igrejinha um “i” e por aí vai...), mas enjoei rápido e as páginas ficaram ali dando sopa. Daí, resolvi preencher com uma história de detetives que eu estava maquinando já há bastante tempo. Sempre tinha sido uma história para me entreter, e eu nem sonhava em torná-la “séria”, escrevendo. Bom, toca a experimentar, né?
Quase enchi o diário com a história (ainda sem nome), que narrava as desventuras de Juliana, uma moça carioca que tem seus pais presos inesperadamente por tráfico de drogas e acaba indo morar com o irmão (que tinha sido tirado dos pais antes da Juliana nascer, justamente porque eles o negligenciavam para dar festas e vender drogas e, revoltado, acabou virando policial). Daí, ela vai pra Ouro Preto e acaba caindo de cabeça numa trama agathachristiniana, com direito a um ruivo baixinho com sotque francês (me processem).
A premissa é 800% mais legal que a execução, confesso. :P Poxa, é uma história escrita por uma menina de 13 anos num diário perfumado do Mickey. :P
A lição aprendida foi: o que quer que você escreva, escreva até o fim, mesmo que morra de preguiça o tempo todo. Isso te dá confiança de tentar vôos maiores.
4 – ...E que ela possivelmente vai ter que ser reescrita depois...
...Daí, dois meses depois de terminar a história do diário do Mickey, eu comecei a achar mais furos que os de uma peneira e decidi reescrever. Doeu contemplar o tamanho da tarefa, mas eu não ia deixar a história tosca como estava. u_u
Dessa vez, ela foi batizada de “O Ramo de Oliveira” e escrevi em páginas de caderno avulsas. Foram entre 50 e 60 páginas manuscritas, e pior: em letra de forma com diferenciação entre maiúsculas e minúsculas, ao invés de letra cursiva. Eu levo o dobro do tempo escrevendo assim, embora fique mais legível.
Ampliei umas coisas, expliquei outras, tentei dar um ar mais realista... E transformei a cena de julgamento em uma ainda mais agathachristiniana, com os personagens todos reunidos na sala de estar de uma mansão. *-*
Por muitas vezes, me amaldiçoei por estar refazendo o trabalho na unha, mas eu não ficaria satisfeita comigo mesmo enquanto continuasse vendo crateras que podiam conter o monte Everest com folga. As várias anotações nas margens das folhas, de compras a fazer, trabalhos a entregar, telefones e idéias para outras histórias mostram o quão longo foi o período em que me dediquei a reconstruir essa história.
A lição é: reescrever algo que você acha que está grotescamente ruim é um trabalho de corno. Mas como compensam os resultados!
(E, ainda assim, a versão 2.0 do Ramo de Oliveira não me deixou satisfeita. Mas a versão 3 é algo que ainda estou devendo a mim mesma. Talvez no futuro.)
5 – ...E que continuações são irresistíveis.
Vocês pensam que só porque levei meses reescrevendo O Ramo de Oliveira e não fiquei apaziguada com a versão final que isso me impediu de escrever uma continuação? CLARO QUE NÃO! Peguei um diário perfumado com um pégaso voando em direção à Lua (eu ganhava um diário desses todo ano – também tenho um vermelho com dálmatas) e comecei O Gato Esmeralda, sobre o roubo de uma relíquia egípcia sob o nariz de várias pessoas. Com direito a um ladrão lupinesco, que rouba o troço só por esporte.
Fato: não importa o quanto você encrenque com sua história. Na sua mente, ela SEMPRE vai ter uma continuação. Pode até não virar livro, mas vai ter continuação.
O Gato Esmeralda é menos viajado e forçado que O Ramo de Oliveira, mas ainda assim... Bom, digamos que eu continuo usando o cadeado nos meus diários antigos.
Bônus: algum tempo depois, escrevi um conto em três partes onde os personagens de O Ramo de Oliveira encontram o Eduardo e o Daniel. :D Crossover rulz! Ele tá online aqui, aqui e aqui. Até que não me envergonha muito, embora precise de um bom polimento.
6 – E, por fim, o livro que me ensinou que eu podia terminar uma história longa, e ela podia ser legal.
...E esse é O Conservatório, versão 1.0. :D Eu o publiquei em forma de folhetim na lista de discussão do Adorável Noite e foi a primeira vez que coloquei coisas minhas pros outros lerem. E a história foi comentada, vejam só. Por duas ou três pessoas, mas quem liga? *-*
Foi o empurrãozinho de auto-estima que eu precisava para seguir em frente. Já contei essa história milhares de vezes antes, então, vou pular pra lição:
Lição final: só um escritor sabe quantos livros se escondem por trás de um que ele mostra ao público.
Até! o/
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quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Os 5 grandes mitos sobre jovens e livros juvenis
Hoje, no blog do Conservatório, escolhi falar sobre uma coisa que tem me incomodado desde uma conversa no MSN. O cara leu a sinopse d’O Conservatório e, a partir dela, disse que era algo para “adolescentes idiotas”. Mais ou menos no mesmo dia, um moço no Twitter ficou surpreso por eu ter comentado que comprei Crepúsculo numa promoção de 9,90 do Submarino. Pensou que eu odiava o livro.
Pode ser que ele tenha pensado isso por conta de zoações no blog Bram & Vlad. Pode ser que o culpado tenha sido esse post. Mas eu fiquei incomodada. Fazer piada de uma coisa é odiá-la? Reconhecer as limitações dela significa que você não gosta?
Bom, o fato é que eu gosto da série Crepúsculo. Não me entendam mal. Gostar não é amar, o livro não está no meu top 30 livros preferidos e nem sequer no meu top 10 histórias de vampiros (vou divulgar qualquer dia). Mas eu gosto. Acho divertido pra se passar o tempo, e pra se acalmar os hormônios em fúria lá pelo meio do ciclo menstrual. (É, os homens definitivamente não entendem isso...)
Agora, “adolescentes idiotas”? Caros amigos precocemente envelhecidos, que reclamam com todas as forças contra crepusculetes, emos e família Restart, o post de hoje é especialmente para vocês. Vou chegar de voadora nos cinco mitos mais recorrentes sobre adolescentes e livros juvenis. Proteja-se dos cacos ali atrás do muro de proteção, porque me baixou um humor Caçadores de Mitos, e vocês sabem que eles não detonam mitos apenas figurativamente.
Mito 1 – As adolescentes que soltam gritinhos quando o lobisomem aparece sem camisa no filme de Crepúsculo são menos inteligentes ou críticas que outras adolescentes que não exibem esse tipo de comportamento.
Esse é um mito recorrente e é um tremendo de um preconceito. Os que perpetuam esse tipo de opinião geralmente são homens, e acho que sei por quê.
Vamos voltar às aulas de biologia. O que é a adolescência biologicamente falando? Simples: entre outras coisas, é quando o ser humano fica sexualmente maduro e começa a produzir uma série de novos hormônios. Esses hormônios causam alterações de humor e cada sexo tem o seu, bem diferentes um dos outros.
Os meninos são expostos a doses cavalares de testosterona. O efeito colateral disso, tipicamente, é um comportamento agressivo e/ou competitivo. Não é à toa que homens jovens gostam de games violentos, eles os ajudam a libertar esse excesso de impulsos agressivos que eles, talvez, não tenham outra forma de extravasar.
Já as meninas vivem um misto de estrogênio e progesterona, se alternando ao longo do mês. É quando elas são apresentadas ao famigerado ciclo menstrual. Cara, se o misto de hormônios já bagunça a cabeça dos homens, pensem no que não faz na das meninas. Nós ficamos mais emotivas e desenvolvemos o hábito incontrolável de admirar garotos lindos (geralmente mais velhos), mesmo que só platonicamente. Aliás, eles nem precisam ser lindos de fato, nossa imaginação superfértil é que os faz assim. Nossos hormônios nos fazem agir como pavoas, babando pela cauda do pavão mais colorido. Mais tarde, nossos critérios para homens atraentes provavelmente vão mudar bastante, mas nesse momento de transição, é quase compulsivo.
Sendo assim, os gritinhos ao ver garotos bonitos não têm nada a ver com maturidade ou inteligência, têm muito mais a ver com personalidade. Uma menina mais tímida não vai gritar, mas certamente vai ficar toda “aiaiai”, como diria Sakura Kinomoto. Tenham paciência com as gritadeiras e não as desprezem, isso é uma fase e passa. Se não estivessem gritando por Edward e Jacob, certamente estariam gritando por outro bonitinho com carinha de menino qualquer. (Nesse momento, estou tendo lembranças de mim mesma, com quatorze anos, assistindo Entrevista com o Vampiro. Aiai.)
Vamos deixar claro: as forças que fazem as garotas gritarem por Edward Cullen são as mesmíssimas que fazem os garotos sentirem o que sentem quando estouram a cabeça de um zumbi num jogo ultrarrealista: hormônios. Vivam com isso.
Mito 2 – Ah, mas os ataques das adolescentes contra o Stephen King por ter criticado a Stephenie Meyer, sim, são provas de pouca inteligência ou capacidade crítica.
Esse mito é recorrente entre homens e mulheres. E é coisa de quem esqueceu o que é ser adolescente. Já falei no mito 1 sobre a biologia da adolescência. Agora, vou falar um pouco na psicologia.
Psicologicamente, a adolescência não é mais fácil que fisicamente. Até uns dias atrás, o indivíduo era uma criança bonitinha e todo mundo tinha paciência com ele. De repente, os adultos parecem pensar que aquela criança recebeu a visita da Fada da Maturidade, que, com sua varinha de condão, a transformou em um adolescente intelectual, educado, responsável e independente.
Se você acreditava na Fada da Maturidade, más notícias. Ela não existe. A do dente, sim. A Madrinha, sim. Sininho, sim. Mas a da Maturidade, não.
Adolescentes são aquelas mesmas crianças de antes, mas que de repente, passaram a sofrer doses cavalares e constantes de substâncias químicas reguladoras de humor e passam a ser tratados como mini-adultos, não como aprendizes de adultos. Então, eles têm que se virar com o que alcançam pra aprenderem sozinhos a serem adultos. É a hora que eles vão analisar friamente o comportamento dos adultos ao redor para tentar decidir o que vai entrar na constituição de sua personalidade ou não. É quando vão em busca de valores, de identidade, enfim, quando procuram vários modelos para absorver os conhecimentos do jogo que terão que jogar quando forem adultos de fato. Nessa idade, procuram amigos para trocar idéias e não terem que trilhar sozinhos esse aprendizado difícil e assustador.
Nada mais natural que adolescentes tenham ídolos. Um ou vários, a gosto do freguês. Quando um adolescente escolhe um ídolo, ele está dizendo ao mundo que gostaria de seguir aquele modelo de vida. Daí, vem alguém e critica esse ídolo. Pra qualquer pessoa adulta, isso é algo normal, direito de expressão, e tal. Para um adolescente, que ainda não conhece as regras da vida social, isso é uma ofensa pessoal. O crítico não está criticando só o ídolo. Ao falar que esse ídolo é ruim, está criticando a capacidade do adolescente de escolher seus modelos.
Trollagem adolescente é irritante, mas a gente tem que dar um desconto. O adolescente é o cara que foi obrigado a jogar um jogo sem saber as regras, e nem sempre tem alguém paciente do lado pra explicar se ele pode ou não jogar o dado e avançar uma casa. É preciso corrigir os adolescentes, sim, para ajudá-los a crescer. Mas nunca desprezá-los e dizer que são idiotas pelas coisas que fazem. Muitos trolls adolescentes, quando devidamente podados, se tornam pessoas muito inteligentes e razoáveis, boas de se conviver. Conheço alguns exemplos.
Quando não se poda os trolls adolescentes, eles viram aqueles adultos barraqueiros e frustrados que todo mundo que já freqüentou fóruns na internet já conheceu. Portanto, ajude o bem estar da nação e trate com respeito e firmeza os adolescentes revoltados, não com desprezo e escárnio. A sociedade agradece.
Mito 3 – As pessoas que aprendem a gostar de ler com Crepúsculo e outras modinhas não vão procurar os clássicos, só vai ficar em leituras semelhantes.
Oh, bem, claro, duh. Ninguém vai aprender cálculo diferencial e integral assim que aprende a somar. Tem um longo caminho a ser percorrido entre alguém que só lia as fofocas da revista e alguém que lê James Joyce. Logo depois de ler um livro pop, a pessoa vai querer outro livro pop. Pode levar anos até ela achar que esse tipo de leitura já deu o que tinha que dar e partir pra outras mais difíceis, com temas mais profundos.
Muitas pessoas acham bonito esfregar na cara de crepusculetes que lêem coisas mais “intelectualmente superiores”, achando que, com isso, elas vão se sentir envergonhadas em gostar de Crepúsculo e ler outras coisas.
Bom, você gostaria mais de Matemática se estivesse penando com seu dever de casa sobre inequações do segundo grau e eu dissesse que resolver uma integral tripla com coordenadas polares é algo que qualquer idiota conseguiria fazer?
Mito 4 – Escritores de livros juvenis e infanto-juvenis têm menos qualidade e mérito que os adultos.
OK. Fechem todas as escolas. O que importa é a faculdade, porque ela que vai te dar especialização para um emprego. Para que submetermos as crianças a aulas chatas e maçantes de escrita em cadernos de caligrafia? Para que darmos a elas livros didáticos rasos e incompletos, que não informam todo o mecanismo bioquímico por trás da fotossíntese? É tão simples!
É uma tendência humana incensar só quem deu as belas formas de uma casa, sem dar muito crédito a quem fez o trabalho braçal de erguer seus alicerces e fazer uma fundação segura e sólida. Pense em um cientista famoso qualquer. Você provavelmente encontrará quem foi o professor dele em sua especialidade. Pense em um escritor, e você terá uma lista de influências literárias e filosóficas que ele pode ter sofrido. Mas tente descobrir quem o ensinou a ler e escrever (caso não tenha sido a mãe ou alguém que teve uma história tocante ou interessante). Se essa pessoa não existisse, o cientista e o escritor em questão simplesmente não teriam trabalhado em seus campos de atuação, e seus nomes não teriam nos atingido. Ainda assim, os professores de ensino básico dessas pessoas são, em geral, ilustres desconhecidos.
Não precisamos ir longe. Uma simples pesquisa entre seus conhecidos mostra o quanto ganha um professor primário e o quanto ganha um de ensino médio, como são valores díspares e como o trabalho de lançar as fundações do conhecimento na criança é visto como algo “fácil” e pouco digno de valor. Sendo assim, não é surpreendente que ainda haja quem pensa que não há necessidade de existirem autores de livros infanto-juvenis/juvenis/jovens adultos/best sellers.
Volto a bater na tecla: a gente não aprende a gostar de ler do nada, já com um clássico complexo na mão. Se você não consegue entender como alguém lê os livros do Dan Brown feliz da vida, como coleciona todos os Paulos Coelhos sem remorso ou como essa pessoa torce o nariz pro Machado de Assis ou pro José de Alencar, dá pra simular isso muito bem. Pegue uma gramática de polonês e um dicionário polonês-português. Agora, pegue Guerra e Paz (ou outro similar, que você não tenha lido ainda) escrito em polonês e leia. Lá pela segunda semana, quando você não agüentar mais ler as cinco primeiras páginas pra entender o que está havendo, guarde Guerra e Paz e leia O Pequeno Príncipe em polonês.
Dá para entender agora por que quem não é fluente em leitura prefere obras de linguagem simples, trama pouco complexa e tamanho relativamente pequeno, não?
Com o tempo, você, caso faça esse experimento, vai ficar cada vez mais fluente em polonês e poderá, em certo ponto, pegar de volta o Guerra e Paz para ler. Mas não vão ser um ou dois livros simples que vão te habilitar a isso. Daí eu pergunto: o que seria de você se não fossem os autores que produziram os livros pequenos e simples a mancheias?
Tudo bem, o autor de livros para crianças e jovens tem grandes chances de não entrar no rol de grandes nomes da literatura mundial, caso fique só nessa área. Entre outras coisas porque atualidade é algo que fisga muito os jovens em uma leitura, e a atualidade envelhece. Mas isso não significa que o papel desse autor é menos importante ou menos nobre que o de um autor de livros clássicos.
E se você acha um absurdo que tais livros “para iniciantes em leitura” batam sempre recordes dos mais vendidos, em detrimento do que possuem mais qualidades acadêmicas, lembre-se de quantos coleguinhas começaram com você uma faculdade qualquer, e de quantos efetivamente terminaram. Nem todo iniciante se sente motivado a ir até o fim em algum aprendizado, então, é absolutamente normal que livros de “qualidade duvidosa” (tremo quando vejo isso) estejam sempre no topo dos mais vendidos. Provavelmente, sempre estarão, e acho que qualquer autor, não importa seu estilo, devia ficar feliz com isso. Quanto mais exemplares o best seller vende, maior a chance de novos leitores chegarem à “maturidade”.
Mito 5 – Escrever livros infanto-juvenis é fácil.
Quando ouço isso e penso nos mais de cinco anos que passei mexendo no meu romance juvenil beta, dá vontade de bater na pessoa que professa esse mito. Sério.
Quer dizer, a pessoa honestamente acha que, quando diz “estou escrevendo um juvenil”, isso imediatamente a isenta de todo e qualquer esforço de pesquisa, de composição de personagem e de verossimilhança da trama? Olha, isso em si já é um mito muito grande. Agora, quando ela ainda se justifica dizendo que “os adolescentes não vão notar, mesmo, eles engolem qualquer coisa”, aí, eu só tenho duas coisas a dizer: (1) Seu preguiçoso! (2) Seu babaca! Nunca subestime seu público-alvo, ele pode saber bem mais que você.
Como eu disse nos mitos anteriores, escrever juvenil é uma escolha de tema e linguagem. Não é uma escolha de mais ou menos esforço, mais ou menos preocupação com a qualidade. Isso também se aplica a infantil, infanto-juvenil, e mesmo best sellers. Uma coisa é você reconhecer que as pessoas que vão te ler provavelmente ou vão estar atrás de entretenimento puro, ou estão dando os primeiros passos para serem leitores “maduros”. Outra, totalmente diferente, é achar que isso faz dessas pessoas um bando de idiotas, que não têm a mínima chance de saber como uma instituição do mundo real funciona, ou como uma pessoa apaixonada se comporta. Digamos que você escreva um livro juvenil que tenha uma guerra imaginária onde o Brasil tomou parte, e que não pesquise lhufas sobre nosso exército antes de escrever. O jovem médio pode até não entender como funciona a hierarquia do Exército Brasileiro, mas e se seu livro for lido pelo filho de um soldado? Que tal receber uma crítica arrasadora e embasada de um rapaz de 15 anos? Nem que seja para o bem do seu ego, respeite quem te lê.
Era isso, pessoal. Se tem algum mito que vocês achem importante e queiram detonar, os comentários estão abertos pra você. Faça bom uso!
Pode ser que ele tenha pensado isso por conta de zoações no blog Bram & Vlad. Pode ser que o culpado tenha sido esse post. Mas eu fiquei incomodada. Fazer piada de uma coisa é odiá-la? Reconhecer as limitações dela significa que você não gosta?
Bom, o fato é que eu gosto da série Crepúsculo. Não me entendam mal. Gostar não é amar, o livro não está no meu top 30 livros preferidos e nem sequer no meu top 10 histórias de vampiros (vou divulgar qualquer dia). Mas eu gosto. Acho divertido pra se passar o tempo, e pra se acalmar os hormônios em fúria lá pelo meio do ciclo menstrual. (É, os homens definitivamente não entendem isso...)
Agora, “adolescentes idiotas”? Caros amigos precocemente envelhecidos, que reclamam com todas as forças contra crepusculetes, emos e família Restart, o post de hoje é especialmente para vocês. Vou chegar de voadora nos cinco mitos mais recorrentes sobre adolescentes e livros juvenis. Proteja-se dos cacos ali atrás do muro de proteção, porque me baixou um humor Caçadores de Mitos, e vocês sabem que eles não detonam mitos apenas figurativamente.
Mito 1 – As adolescentes que soltam gritinhos quando o lobisomem aparece sem camisa no filme de Crepúsculo são menos inteligentes ou críticas que outras adolescentes que não exibem esse tipo de comportamento.
Esse é um mito recorrente e é um tremendo de um preconceito. Os que perpetuam esse tipo de opinião geralmente são homens, e acho que sei por quê.
Vamos voltar às aulas de biologia. O que é a adolescência biologicamente falando? Simples: entre outras coisas, é quando o ser humano fica sexualmente maduro e começa a produzir uma série de novos hormônios. Esses hormônios causam alterações de humor e cada sexo tem o seu, bem diferentes um dos outros.
Os meninos são expostos a doses cavalares de testosterona. O efeito colateral disso, tipicamente, é um comportamento agressivo e/ou competitivo. Não é à toa que homens jovens gostam de games violentos, eles os ajudam a libertar esse excesso de impulsos agressivos que eles, talvez, não tenham outra forma de extravasar.
Já as meninas vivem um misto de estrogênio e progesterona, se alternando ao longo do mês. É quando elas são apresentadas ao famigerado ciclo menstrual. Cara, se o misto de hormônios já bagunça a cabeça dos homens, pensem no que não faz na das meninas. Nós ficamos mais emotivas e desenvolvemos o hábito incontrolável de admirar garotos lindos (geralmente mais velhos), mesmo que só platonicamente. Aliás, eles nem precisam ser lindos de fato, nossa imaginação superfértil é que os faz assim. Nossos hormônios nos fazem agir como pavoas, babando pela cauda do pavão mais colorido. Mais tarde, nossos critérios para homens atraentes provavelmente vão mudar bastante, mas nesse momento de transição, é quase compulsivo.
Sendo assim, os gritinhos ao ver garotos bonitos não têm nada a ver com maturidade ou inteligência, têm muito mais a ver com personalidade. Uma menina mais tímida não vai gritar, mas certamente vai ficar toda “aiaiai”, como diria Sakura Kinomoto. Tenham paciência com as gritadeiras e não as desprezem, isso é uma fase e passa. Se não estivessem gritando por Edward e Jacob, certamente estariam gritando por outro bonitinho com carinha de menino qualquer. (Nesse momento, estou tendo lembranças de mim mesma, com quatorze anos, assistindo Entrevista com o Vampiro. Aiai.)
Vamos deixar claro: as forças que fazem as garotas gritarem por Edward Cullen são as mesmíssimas que fazem os garotos sentirem o que sentem quando estouram a cabeça de um zumbi num jogo ultrarrealista: hormônios. Vivam com isso.
Mito 2 – Ah, mas os ataques das adolescentes contra o Stephen King por ter criticado a Stephenie Meyer, sim, são provas de pouca inteligência ou capacidade crítica.
Esse mito é recorrente entre homens e mulheres. E é coisa de quem esqueceu o que é ser adolescente. Já falei no mito 1 sobre a biologia da adolescência. Agora, vou falar um pouco na psicologia.
Psicologicamente, a adolescência não é mais fácil que fisicamente. Até uns dias atrás, o indivíduo era uma criança bonitinha e todo mundo tinha paciência com ele. De repente, os adultos parecem pensar que aquela criança recebeu a visita da Fada da Maturidade, que, com sua varinha de condão, a transformou em um adolescente intelectual, educado, responsável e independente.
Se você acreditava na Fada da Maturidade, más notícias. Ela não existe. A do dente, sim. A Madrinha, sim. Sininho, sim. Mas a da Maturidade, não.
Adolescentes são aquelas mesmas crianças de antes, mas que de repente, passaram a sofrer doses cavalares e constantes de substâncias químicas reguladoras de humor e passam a ser tratados como mini-adultos, não como aprendizes de adultos. Então, eles têm que se virar com o que alcançam pra aprenderem sozinhos a serem adultos. É a hora que eles vão analisar friamente o comportamento dos adultos ao redor para tentar decidir o que vai entrar na constituição de sua personalidade ou não. É quando vão em busca de valores, de identidade, enfim, quando procuram vários modelos para absorver os conhecimentos do jogo que terão que jogar quando forem adultos de fato. Nessa idade, procuram amigos para trocar idéias e não terem que trilhar sozinhos esse aprendizado difícil e assustador.
Nada mais natural que adolescentes tenham ídolos. Um ou vários, a gosto do freguês. Quando um adolescente escolhe um ídolo, ele está dizendo ao mundo que gostaria de seguir aquele modelo de vida. Daí, vem alguém e critica esse ídolo. Pra qualquer pessoa adulta, isso é algo normal, direito de expressão, e tal. Para um adolescente, que ainda não conhece as regras da vida social, isso é uma ofensa pessoal. O crítico não está criticando só o ídolo. Ao falar que esse ídolo é ruim, está criticando a capacidade do adolescente de escolher seus modelos.
Trollagem adolescente é irritante, mas a gente tem que dar um desconto. O adolescente é o cara que foi obrigado a jogar um jogo sem saber as regras, e nem sempre tem alguém paciente do lado pra explicar se ele pode ou não jogar o dado e avançar uma casa. É preciso corrigir os adolescentes, sim, para ajudá-los a crescer. Mas nunca desprezá-los e dizer que são idiotas pelas coisas que fazem. Muitos trolls adolescentes, quando devidamente podados, se tornam pessoas muito inteligentes e razoáveis, boas de se conviver. Conheço alguns exemplos.
Quando não se poda os trolls adolescentes, eles viram aqueles adultos barraqueiros e frustrados que todo mundo que já freqüentou fóruns na internet já conheceu. Portanto, ajude o bem estar da nação e trate com respeito e firmeza os adolescentes revoltados, não com desprezo e escárnio. A sociedade agradece.
Mito 3 – As pessoas que aprendem a gostar de ler com Crepúsculo e outras modinhas não vão procurar os clássicos, só vai ficar em leituras semelhantes.
Oh, bem, claro, duh. Ninguém vai aprender cálculo diferencial e integral assim que aprende a somar. Tem um longo caminho a ser percorrido entre alguém que só lia as fofocas da revista e alguém que lê James Joyce. Logo depois de ler um livro pop, a pessoa vai querer outro livro pop. Pode levar anos até ela achar que esse tipo de leitura já deu o que tinha que dar e partir pra outras mais difíceis, com temas mais profundos.
Muitas pessoas acham bonito esfregar na cara de crepusculetes que lêem coisas mais “intelectualmente superiores”, achando que, com isso, elas vão se sentir envergonhadas em gostar de Crepúsculo e ler outras coisas.
Bom, você gostaria mais de Matemática se estivesse penando com seu dever de casa sobre inequações do segundo grau e eu dissesse que resolver uma integral tripla com coordenadas polares é algo que qualquer idiota conseguiria fazer?
Mito 4 – Escritores de livros juvenis e infanto-juvenis têm menos qualidade e mérito que os adultos.
OK. Fechem todas as escolas. O que importa é a faculdade, porque ela que vai te dar especialização para um emprego. Para que submetermos as crianças a aulas chatas e maçantes de escrita em cadernos de caligrafia? Para que darmos a elas livros didáticos rasos e incompletos, que não informam todo o mecanismo bioquímico por trás da fotossíntese? É tão simples!
É uma tendência humana incensar só quem deu as belas formas de uma casa, sem dar muito crédito a quem fez o trabalho braçal de erguer seus alicerces e fazer uma fundação segura e sólida. Pense em um cientista famoso qualquer. Você provavelmente encontrará quem foi o professor dele em sua especialidade. Pense em um escritor, e você terá uma lista de influências literárias e filosóficas que ele pode ter sofrido. Mas tente descobrir quem o ensinou a ler e escrever (caso não tenha sido a mãe ou alguém que teve uma história tocante ou interessante). Se essa pessoa não existisse, o cientista e o escritor em questão simplesmente não teriam trabalhado em seus campos de atuação, e seus nomes não teriam nos atingido. Ainda assim, os professores de ensino básico dessas pessoas são, em geral, ilustres desconhecidos.
Não precisamos ir longe. Uma simples pesquisa entre seus conhecidos mostra o quanto ganha um professor primário e o quanto ganha um de ensino médio, como são valores díspares e como o trabalho de lançar as fundações do conhecimento na criança é visto como algo “fácil” e pouco digno de valor. Sendo assim, não é surpreendente que ainda haja quem pensa que não há necessidade de existirem autores de livros infanto-juvenis/juvenis/jovens adultos/best sellers.
Volto a bater na tecla: a gente não aprende a gostar de ler do nada, já com um clássico complexo na mão. Se você não consegue entender como alguém lê os livros do Dan Brown feliz da vida, como coleciona todos os Paulos Coelhos sem remorso ou como essa pessoa torce o nariz pro Machado de Assis ou pro José de Alencar, dá pra simular isso muito bem. Pegue uma gramática de polonês e um dicionário polonês-português. Agora, pegue Guerra e Paz (ou outro similar, que você não tenha lido ainda) escrito em polonês e leia. Lá pela segunda semana, quando você não agüentar mais ler as cinco primeiras páginas pra entender o que está havendo, guarde Guerra e Paz e leia O Pequeno Príncipe em polonês.
Dá para entender agora por que quem não é fluente em leitura prefere obras de linguagem simples, trama pouco complexa e tamanho relativamente pequeno, não?
Com o tempo, você, caso faça esse experimento, vai ficar cada vez mais fluente em polonês e poderá, em certo ponto, pegar de volta o Guerra e Paz para ler. Mas não vão ser um ou dois livros simples que vão te habilitar a isso. Daí eu pergunto: o que seria de você se não fossem os autores que produziram os livros pequenos e simples a mancheias?
Tudo bem, o autor de livros para crianças e jovens tem grandes chances de não entrar no rol de grandes nomes da literatura mundial, caso fique só nessa área. Entre outras coisas porque atualidade é algo que fisga muito os jovens em uma leitura, e a atualidade envelhece. Mas isso não significa que o papel desse autor é menos importante ou menos nobre que o de um autor de livros clássicos.
E se você acha um absurdo que tais livros “para iniciantes em leitura” batam sempre recordes dos mais vendidos, em detrimento do que possuem mais qualidades acadêmicas, lembre-se de quantos coleguinhas começaram com você uma faculdade qualquer, e de quantos efetivamente terminaram. Nem todo iniciante se sente motivado a ir até o fim em algum aprendizado, então, é absolutamente normal que livros de “qualidade duvidosa” (tremo quando vejo isso) estejam sempre no topo dos mais vendidos. Provavelmente, sempre estarão, e acho que qualquer autor, não importa seu estilo, devia ficar feliz com isso. Quanto mais exemplares o best seller vende, maior a chance de novos leitores chegarem à “maturidade”.
Mito 5 – Escrever livros infanto-juvenis é fácil.
Quando ouço isso e penso nos mais de cinco anos que passei mexendo no meu romance juvenil beta, dá vontade de bater na pessoa que professa esse mito. Sério.
Quer dizer, a pessoa honestamente acha que, quando diz “estou escrevendo um juvenil”, isso imediatamente a isenta de todo e qualquer esforço de pesquisa, de composição de personagem e de verossimilhança da trama? Olha, isso em si já é um mito muito grande. Agora, quando ela ainda se justifica dizendo que “os adolescentes não vão notar, mesmo, eles engolem qualquer coisa”, aí, eu só tenho duas coisas a dizer: (1) Seu preguiçoso! (2) Seu babaca! Nunca subestime seu público-alvo, ele pode saber bem mais que você.
Como eu disse nos mitos anteriores, escrever juvenil é uma escolha de tema e linguagem. Não é uma escolha de mais ou menos esforço, mais ou menos preocupação com a qualidade. Isso também se aplica a infantil, infanto-juvenil, e mesmo best sellers. Uma coisa é você reconhecer que as pessoas que vão te ler provavelmente ou vão estar atrás de entretenimento puro, ou estão dando os primeiros passos para serem leitores “maduros”. Outra, totalmente diferente, é achar que isso faz dessas pessoas um bando de idiotas, que não têm a mínima chance de saber como uma instituição do mundo real funciona, ou como uma pessoa apaixonada se comporta. Digamos que você escreva um livro juvenil que tenha uma guerra imaginária onde o Brasil tomou parte, e que não pesquise lhufas sobre nosso exército antes de escrever. O jovem médio pode até não entender como funciona a hierarquia do Exército Brasileiro, mas e se seu livro for lido pelo filho de um soldado? Que tal receber uma crítica arrasadora e embasada de um rapaz de 15 anos? Nem que seja para o bem do seu ego, respeite quem te lê.
Era isso, pessoal. Se tem algum mito que vocês achem importante e queiram detonar, os comentários estão abertos pra você. Faça bom uso!
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