No meu tumblr, escrevi um pequeno texto sobre a questão da representatividade nos quadrinhos que me atrevo a fazer, para servir de introdução ao Manifesto Irradiativo. Aqui, achei de bom tamanho dar um depoimento sobre o que isso significa pra mim na literatura, antes de linkar vocês para ele.
Desde sempre, minha grande preocupação foi que meus protagonistas fossem legais de escrever. E "legais de escrever" para mim sempre foram os personagens que tinham algo de diferente dos outros, e como essa diferença muda bastante (ou, paradoxalmente, não muda absolutamente em nada) a forma como essa pessoa interage com o mundo cotidiano. Se existe um tema que vai aparecer em quase todos os meus escritos mais longos, em todos os meus quadrinhos, é isso. É uma coisa que realmente me dá prazer de explorar. Sendo assim, todo protagonista meu é, por definição, diferente. E eu vou dizer um negócio, isso é delicioso. Alguns estão na minha zona de conforto, outros são um desafio delicioso.
Mas sabe o que é mais delicioso? É depois de tudo, você ver que aquilo que você achava que era alien, que você estava colocando por "diversidade", por "desafio", ou simplesmente, por "diversão", estava ali dentro de você o tempo todo. E é aí que sua própria atitude para com as pessoas "diferentes" muda, porque elas não são diferentes de verdade. Elas podem ter muito em comum com você.
Como é o blog do Conservatório, posso falar sobre os protagonistas dele, a Cristina e o Diego. O que me pus como desafio com a Cristina é que nasceu como uma reação às protagonistas doces e nobres de young-adult. Cristina é mal-humorada, frequentemente mal-educada, é solitária mas não quer fazer amigos, é cética, ateia e tem toda o romantismo de uma batida policial. Muitas dessas características não são só diferentes de mim, elas são o total oposto. Mas não é que eu descobri que escrever a Cristina é delicioso naqueles dias que você acorda de mau humor e quer mais que o mundo se exploda? Foi tão divertido que um pouco da atitude dela foi parar em personagens secundários e várias outras histórias (lalalVladlalaXerémlalala).
Diego? Diego também é uma reação ao interesse romântico todo cheio de pudores e dramas internos. Ele é zoeiro, frequentemente invade o espaço pessoal da mocinha, é extrovertido, convencido e age primeiro para pensar depois. Eu absolutamente não sou extrovertida (embora possa fingir muito bem, se precisar) e não muito fã de... tocar... pessoas... enfim, eu não esperava que escrever Diego seria gostoso como foi.
Eu podia ficar aqui detalhando cada um dos meus cerca 65 protagonistas (ah, não acredita? Pus a planilha no Dropbox. Contemplem.), mas acho que já entenderam o espírito da coisa. E nem estou falando dos secundários, que também recebem muito carinho e onde também aproveito para colocar muita coisa. Basicamente, sabe quando acusam os secundários de serem mais interessantes que o protagonista, porque as pessoas não arriscam com protagonistas? Digamos que não me sinto motivada a escrever uma história a menos que meu protagonista seja um desses secundários legais.
Isso dito, toda vez que vejo gente falando que os personagens principais tem que ser genéricos para o pessoal se identificar (sendo que "genérico" geralmente significa "homem-hétero-cis-branco") e que a luta por representatividade na literatura é "bobagem politicamente correta", eu morro um pouco por dentro. Representatividade significa novos mundos psicológicos para explorar, novas histórias para contar, novas coisas para descobrir sobre o outro e sobre você. Quem, em sã consciência, não está agora mesmo explorando esse mundo todo? Quem, em sã consciência, não está saindo do seu pequeno círculo criativo para contar novas histórias, irradiando para mais longe do que antes?
Agora, sim, acho que estão no estado de espírito certo para ler essa iniciativa bacaníssima dos escritores Jim Anotsu e Alliah, o Manifesto Irradiativo. Assine e irradie. Literatura diversa é literatura fresca, território inexplorado.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Playlist do Conservatório
Eu não acredito que esse post era só um rascunho até hoje. Eu jurava que tava publicado. ._.
Enfim. XD Em junho (do ano passado...), montei uma playlist rápida no YouTube com as músicas clássicas que são citadas no Conservatório e fiz esse pequeno guia para leigos das músicas e marromenos as relações delas com o livro.
CLIQUE AQUI PARA IR PARA A PLAYLIST
Prelúdio: Prelúdio de Chopin, No. 12 em G# op. 28 (Presto)
Opus 28 é um conjunto de 24 prelúdios para piano, escritos por Chopin. Um fabricante de pianos encomendou a obra. O mais famoso dos prelúdios é o #15, o prelúdio das Gotas de Chuva (Raindrop Prelude). Escolhi o Presto porque isso significa "muito rápido" e o prelúdio do livro são três cenas rápidas. Esse prelúdio tem o "apelido" de "O Duelo" (dado pelo músico Hans von Bülow) e acho que vocês podem dizer que há alguns duelos implícitos nessas três cenas. E mais não digo.
Parte 1: Sinfonia em C menor
Movimento 1: Beethoven, Piano Sonata No. 8 em C menor, Op. 13 (Adagio cantabile) - Pathetique Sonata
A Patethique é uma das obras mais famosas de Beethoven. Ela tem 3 movimentos, o Grave-Allegro, o Adagio Cantabile e o Rondo. Escolhi o Adagio porque adágios são movimentos lentos, geralmente soando tristes. Esse capítulo serve pra mostrar o lado patético da vida da Cristina: escola chata, meninas chatas falando com ela, a leve sugestão de uma vida amorosa... que não dá em nada.
Movimento 2: Concerto de Vivaldi, "La notte", RV 439 (Largo) - Il sonno
"La notte" (A Noite) é um famoso concerto em flauta do Vivaldi, com 6 movimentos. Os mais famosos são o segundo ("Fantasmi") e o quinto ("Il Sonno"). É uma música ótima de se pôr em histórias de vampiro: tem um nome legal e uma atmosfera bem bacana. A princípio, eu ia usar o nome do concerto como título da história, já que o capítulo todo acontece em uma única noite. No fim, escolhi o movimento "Il sonno", já que as coisas também acontecem em um sonho (além disso, o capítulo é grande, achei que um Largo cairia bem).
Movimento 3: Concerto para violino nº 2 de Paganini (Rondo) - La Campanella
"La Campanella" (a sineta) é uma música daquelas bem chicletes. Nunca me canso dela. Na verdade, ela é o treceiro movimento do Concerto para violino nº 2, e o jeito certo de tocar é com uma sineta marcando as recorrências do rondo. Rondo, se você não sabe, é uma melodia que tem certas partes se repetindo, como um refrão. Esse rondo de que estamos falando é tão chiclete que o Lizst, outro gigante da música, fez uma composição usando essa melodia. Gente Da Música diz que La Campanella tem uma atmosfera cigana, o que a faz perfeita para o capítulo onde Diego é apresentado. Isso e o fato de uma sineta ter um papel importante nesse capítulo. Fora isso, o capítulo tem suas "voltas", como um rondo.
Movimento 4: Quinta sinfonia de Beethoven em C menor (Allegro Con Brio) - Destino
Qualé, gente. É a Quinta Sinfonia. Tã-tã-tãããm. O que mais você quer ouvir sobre ela? Tá, vamos ver.
Algumas pessoas dizem (não é oficial, mas é bem conhecido) que a sinfonia representa "o Destino batendo à porta". Beethoven pensava no tom de C menor como "tempestuoso e heroico". Isso é o que faz essa sinfonia perfeita pro capítulo: é onde o destino bate na porta de Cristina e dó menor é a nota dela. Ela é tempestuosa e heroica... do seu jeito. Escolhi o Allegro porque é o movimento mais famoso e porque "Allegro con brio" significa "rápido e brilhante, com vigor e espírito", e é assim que Diego toca no concerto que acontece no capítulo.
Movimento 5: Serenata de cordas nº 13 em G maior, K. 525, de Mozart (Minueto) - Eine kleine Natchmusik
"Eine kleine Natchmusik" significa "uma pequena serenata" (algumas pessoas traduzem errado como "uma pequena canção noturna" e eu uso esse erro no capítulo). É a música do Diego, usando a nota do Diego, G maior. Você provavelmente conhece o primeiro movimento dessa música, o Allegro. Escolhi o Minueto porque esse nome vem de uma dança, e esse capítulo é um tipo de dança, se você pensar sobre isso.
Parte 2: Ópera em F menor
Os atos da ópera não são nomeados.
Parte 3: Noturno em G maior
Movimento 1: Fantasia sinfônica de Tchaikovsky em homenagem a Shakespeare, Op. 18 (Fantasia de Abertura) - A Tempestade
Essa música é baseada na peça de Shakespeare chamada "A Tempestade", se não ficou claro o bastante. Escolhi essa música porque tem um brainstorm nesse capítulo e porque "fantasia" é uma composição que é quase uma improvisação inspirada. Daqui por diante, não posso explicar muito pra vocês porque essa última parte é cheia de spoilers.
Movimento 2: Quarteto de Cordas de Mozart em B-bemol Maior, K. 458 (Allegro vivace assai) - A caçada
Essa peça é um quarteto dedicado a Haydn (um grande músico que Mozart admirava). A Wikipedia diz que ela é usada em vários filmes. Vou acreditar porque não sou uma fã enorme de filmes. Escolhi essa música porque ela se chama "Caçada". Não falarei mais nada. Peguei o allegro vivace assai porque isso, em música, basicamente significa "muito muito muito muito rápido".
Movimento 3: Quarteto de Cordas de Schubert Nº 14 em D menor (Scherzo) - A Morte e a Donzela
Schubert escreveu essa peça quando estava terminalmente doente e tudo nessa música é sobre a morte se aproximando e o músico se rebelando contra isso. É baseada em um poema chamado "A Morte e a Donzela", de Matthias Claudius. Acho que é bem claro por que essa música está aqui. Sobre o porquê do movimento ser o Scherzo, não digo. Se virem.
Movimento 4: A Valquíria, de Wagner, Ato III (Prelúdio) - A Cavalgada das Valquírias
Experts em música conhecem essa como o prelúdio de um dos atos da famosa ópera de Wagner, A Valquíria. Vocês provavelmente conhecem como a música que toca quando os aviões bombardeiam o Vietnã em Apocalypse Now. Essa música é tão icônica que nunca conheci quem não a tivesse escutado.
Como curiosidade sobre a ópera, A Valquíria é a segunda parte do ciclo do Anel dos Nibelungos, de Wagner. A história de A Valquíria é longa e confusa, mas é basicamente sobre incesto entre gêmeos e uma valquíria rebelde. Sério. Eu não conseguiria inventar isso sozinha.
Vou deixar vocês decidirem por que essa música específica encerra o livro.
Outras peças
Essas músicas são mencionadas no livro, tocadas pelos personagens, ou só importantes no geral:
Sinfonia No. 9 em D menor de Beethoven, Op. 125 - Quarto Movimento, "Ode à Felicidade"
Também conhecida como "Sinfonia Coral", é uma das maiores obras musicais jamais escritas. O quarto movimento, "Ode à Felicidade", é nada menos que uma das mais famosas músicas de todos os tempos. Sério, o tempo de gravação em um CD é de uma hora e vinte de música porque esse é o tamanho dessa sinfonia. A letra vem de um poema escrito por Friedrich Schiller (um poeta muito famoso) e foi encomendada pela Sociedade Filarmônica de Londres.
Musette em D menor de Bach
Não sei muito sobre ela, só sei que é simples de tocar. Eu queria uma música que uma criança pudesse praticar e uma amiga me recomendou essa.
Sonata ao Luar de Beethoven
Eu gosto de Beethoven, OK? Essa é uma das minhas favoritas. Cristina a toca à meia noite, embora não esteja, tecnicamente, ao luar naquela cena.
Ave Maria de Gounod
A Ave Maria mais famosa de todos os tempos. Cristina toca em um desafio. Eu queria uma música que exigisse bem de uma soprano.
Réquiem em D Menor de Mozart - Canção "Dies Irae"
Haveria um capítulo entitulado "Dies Irae" no livro, mas acabei cortando e colocando as partes úteis em "A Tempestade". É impossível ouvir essa música e não ficar sentado apreensivo na beirada da cadeira. Ela é tão épica que seu cérebro explode toda vez que ela toca (alguns trailers a usam, já que está em domínio público). Amo tanto essa música que talvez eu crie um conto chamado "Dies Irae" só pra usá-la.
A seção de comentários do You Tube está além de qualquer salvação, mas foi lá que vi a melhor descrição dessa música: "Deus deu a Mozart 2 minutos pra fazer algo épico. Mozart fez isso e ainda sobraram 10 segundos."
Enfim. XD Em junho (do ano passado...), montei uma playlist rápida no YouTube com as músicas clássicas que são citadas no Conservatório e fiz esse pequeno guia para leigos das músicas e marromenos as relações delas com o livro.
CLIQUE AQUI PARA IR PARA A PLAYLIST
Prelúdio: Prelúdio de Chopin, No. 12 em G# op. 28 (Presto)
Opus 28 é um conjunto de 24 prelúdios para piano, escritos por Chopin. Um fabricante de pianos encomendou a obra. O mais famoso dos prelúdios é o #15, o prelúdio das Gotas de Chuva (Raindrop Prelude). Escolhi o Presto porque isso significa "muito rápido" e o prelúdio do livro são três cenas rápidas. Esse prelúdio tem o "apelido" de "O Duelo" (dado pelo músico Hans von Bülow) e acho que vocês podem dizer que há alguns duelos implícitos nessas três cenas. E mais não digo.
Parte 1: Sinfonia em C menor
Movimento 1: Beethoven, Piano Sonata No. 8 em C menor, Op. 13 (Adagio cantabile) - Pathetique Sonata
A Patethique é uma das obras mais famosas de Beethoven. Ela tem 3 movimentos, o Grave-Allegro, o Adagio Cantabile e o Rondo. Escolhi o Adagio porque adágios são movimentos lentos, geralmente soando tristes. Esse capítulo serve pra mostrar o lado patético da vida da Cristina: escola chata, meninas chatas falando com ela, a leve sugestão de uma vida amorosa... que não dá em nada.
Movimento 2: Concerto de Vivaldi, "La notte", RV 439 (Largo) - Il sonno
"La notte" (A Noite) é um famoso concerto em flauta do Vivaldi, com 6 movimentos. Os mais famosos são o segundo ("Fantasmi") e o quinto ("Il Sonno"). É uma música ótima de se pôr em histórias de vampiro: tem um nome legal e uma atmosfera bem bacana. A princípio, eu ia usar o nome do concerto como título da história, já que o capítulo todo acontece em uma única noite. No fim, escolhi o movimento "Il sonno", já que as coisas também acontecem em um sonho (além disso, o capítulo é grande, achei que um Largo cairia bem).
Movimento 3: Concerto para violino nº 2 de Paganini (Rondo) - La Campanella
"La Campanella" (a sineta) é uma música daquelas bem chicletes. Nunca me canso dela. Na verdade, ela é o treceiro movimento do Concerto para violino nº 2, e o jeito certo de tocar é com uma sineta marcando as recorrências do rondo. Rondo, se você não sabe, é uma melodia que tem certas partes se repetindo, como um refrão. Esse rondo de que estamos falando é tão chiclete que o Lizst, outro gigante da música, fez uma composição usando essa melodia. Gente Da Música diz que La Campanella tem uma atmosfera cigana, o que a faz perfeita para o capítulo onde Diego é apresentado. Isso e o fato de uma sineta ter um papel importante nesse capítulo. Fora isso, o capítulo tem suas "voltas", como um rondo.
Movimento 4: Quinta sinfonia de Beethoven em C menor (Allegro Con Brio) - Destino
Qualé, gente. É a Quinta Sinfonia. Tã-tã-tãããm. O que mais você quer ouvir sobre ela? Tá, vamos ver.
Algumas pessoas dizem (não é oficial, mas é bem conhecido) que a sinfonia representa "o Destino batendo à porta". Beethoven pensava no tom de C menor como "tempestuoso e heroico". Isso é o que faz essa sinfonia perfeita pro capítulo: é onde o destino bate na porta de Cristina e dó menor é a nota dela. Ela é tempestuosa e heroica... do seu jeito. Escolhi o Allegro porque é o movimento mais famoso e porque "Allegro con brio" significa "rápido e brilhante, com vigor e espírito", e é assim que Diego toca no concerto que acontece no capítulo.
Movimento 5: Serenata de cordas nº 13 em G maior, K. 525, de Mozart (Minueto) - Eine kleine Natchmusik
"Eine kleine Natchmusik" significa "uma pequena serenata" (algumas pessoas traduzem errado como "uma pequena canção noturna" e eu uso esse erro no capítulo). É a música do Diego, usando a nota do Diego, G maior. Você provavelmente conhece o primeiro movimento dessa música, o Allegro. Escolhi o Minueto porque esse nome vem de uma dança, e esse capítulo é um tipo de dança, se você pensar sobre isso.
Parte 2: Ópera em F menor
Os atos da ópera não são nomeados.
Parte 3: Noturno em G maior
Movimento 1: Fantasia sinfônica de Tchaikovsky em homenagem a Shakespeare, Op. 18 (Fantasia de Abertura) - A Tempestade
Essa música é baseada na peça de Shakespeare chamada "A Tempestade", se não ficou claro o bastante. Escolhi essa música porque tem um brainstorm nesse capítulo e porque "fantasia" é uma composição que é quase uma improvisação inspirada. Daqui por diante, não posso explicar muito pra vocês porque essa última parte é cheia de spoilers.
Movimento 2: Quarteto de Cordas de Mozart em B-bemol Maior, K. 458 (Allegro vivace assai) - A caçada
Essa peça é um quarteto dedicado a Haydn (um grande músico que Mozart admirava). A Wikipedia diz que ela é usada em vários filmes. Vou acreditar porque não sou uma fã enorme de filmes. Escolhi essa música porque ela se chama "Caçada". Não falarei mais nada. Peguei o allegro vivace assai porque isso, em música, basicamente significa "muito muito muito muito rápido".
Movimento 3: Quarteto de Cordas de Schubert Nº 14 em D menor (Scherzo) - A Morte e a Donzela
Schubert escreveu essa peça quando estava terminalmente doente e tudo nessa música é sobre a morte se aproximando e o músico se rebelando contra isso. É baseada em um poema chamado "A Morte e a Donzela", de Matthias Claudius. Acho que é bem claro por que essa música está aqui. Sobre o porquê do movimento ser o Scherzo, não digo. Se virem.
Movimento 4: A Valquíria, de Wagner, Ato III (Prelúdio) - A Cavalgada das Valquírias
Experts em música conhecem essa como o prelúdio de um dos atos da famosa ópera de Wagner, A Valquíria. Vocês provavelmente conhecem como a música que toca quando os aviões bombardeiam o Vietnã em Apocalypse Now. Essa música é tão icônica que nunca conheci quem não a tivesse escutado.
Como curiosidade sobre a ópera, A Valquíria é a segunda parte do ciclo do Anel dos Nibelungos, de Wagner. A história de A Valquíria é longa e confusa, mas é basicamente sobre incesto entre gêmeos e uma valquíria rebelde. Sério. Eu não conseguiria inventar isso sozinha.
Vou deixar vocês decidirem por que essa música específica encerra o livro.
Outras peças
Essas músicas são mencionadas no livro, tocadas pelos personagens, ou só importantes no geral:
Sinfonia No. 9 em D menor de Beethoven, Op. 125 - Quarto Movimento, "Ode à Felicidade"
Também conhecida como "Sinfonia Coral", é uma das maiores obras musicais jamais escritas. O quarto movimento, "Ode à Felicidade", é nada menos que uma das mais famosas músicas de todos os tempos. Sério, o tempo de gravação em um CD é de uma hora e vinte de música porque esse é o tamanho dessa sinfonia. A letra vem de um poema escrito por Friedrich Schiller (um poeta muito famoso) e foi encomendada pela Sociedade Filarmônica de Londres.
Musette em D menor de Bach
Não sei muito sobre ela, só sei que é simples de tocar. Eu queria uma música que uma criança pudesse praticar e uma amiga me recomendou essa.
Sonata ao Luar de Beethoven
Eu gosto de Beethoven, OK? Essa é uma das minhas favoritas. Cristina a toca à meia noite, embora não esteja, tecnicamente, ao luar naquela cena.
Ave Maria de Gounod
A Ave Maria mais famosa de todos os tempos. Cristina toca em um desafio. Eu queria uma música que exigisse bem de uma soprano.
Réquiem em D Menor de Mozart - Canção "Dies Irae"
Haveria um capítulo entitulado "Dies Irae" no livro, mas acabei cortando e colocando as partes úteis em "A Tempestade". É impossível ouvir essa música e não ficar sentado apreensivo na beirada da cadeira. Ela é tão épica que seu cérebro explode toda vez que ela toca (alguns trailers a usam, já que está em domínio público). Amo tanto essa música que talvez eu crie um conto chamado "Dies Irae" só pra usá-la.
A seção de comentários do You Tube está além de qualquer salvação, mas foi lá que vi a melhor descrição dessa música: "Deus deu a Mozart 2 minutos pra fazer algo épico. Mozart fez isso e ainda sobraram 10 segundos."
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Maratona de cinema
Nossa, tem mesmo tanto tempo que não escrevo aqui? o.o
Eu pensei que tinha postado meu artigo acadêmico sobre Agatha Christie aqui. D: Oh, well, fica pra outro dia, porque agora, quero falar da minha jornada pelos filmes clássicos de Drácula. :3
Quando alguém fala em voz alta o nome “Drácula”, é difícil dizer o que vai na mente dessa pessoa. É um dos personagens mais revividos, recontados e reinventados da cultura pop. Embora tenha sido apresentado ao mundo por Bram Stoker no ano de 1897, é seguro afirmar que a maioria das pessoas tem uma figura dele em mente que foi moldada no cinema a partir do filme Drácula, de 1931, com o Bela Lugosi no papel-título. Sendo assim, Drácula não é um, é muitos. Para conhecer esses muitos, decidi assistir aos filmes mais clássicos de Drácula por aí e formar minhas próprias opiniões.
Como tenho uma tirinha que é derivada do livro Drácula, é justo dizer que tenho mais familiaridade com ele do que com os outros retratos do personagem. Toda vez que vou fazer um arco narrativo importante e/ou introduzir um novo personagem, acabo lendo o livro quase todo de novo – já devo ter lido de capa a capa umas seis vezes, e conheço alguns trechos quase de cor. A parte boa é que não é um sacrifício pra mim fazer isso, porque gosto do livro e vim a amar os personagens. A parte ruim é que isso faz com que eu pareça obcecada por esse livro, a ponto de não ter outro assunto. (o que é mentira, também sou obcecada com Agatha Christie).
Antes de mais nada, deixa eu explicar que não sou o tipo de fã que entra em combustão quando o filme desvia meio milímetro do livro. Livros tipicamente contém horas de plot se desenvolvendo, filmes tipicamente dispõem de duas horas e pouco, quando muito. É temporalmente impossível para um filme dramatizar o livro, e um tanto pobre, também. O filme é sempre uma interpretação do livro. Pra mim, existem filmes bons, que contam sua história ou passam bem sua mensagem e filmes ruins, que se perdem no caminho. E também existem interpretações que eu acho legais ou não, mesmo que eu saiba, no fim, que todas são válidas.
Isso dito, acho que vocês vão entender melhor quando eu classificar os filmes - há um componente meu analisando o filme pelo filme, e um meu analisando o filme contra minha percepção do livro.
Quem dispuser de algum tempo pode ser apresentado à minha percepção lendo meu recap do livro aqui e aqui. Se vocês não tiverem esse tempo, vou resumir os traços que creio serem os mais fortes do livro:
No primeiro ato, Jonathan Harker é mandado para a Transilvânia para vender casas ao Conde Drácula. Apesar de ser recebido com gentileza, Harker logo descobre que algo está muito errado com seu anfitrião.
Passando para o segundo ato, o Conde vai para a Inglaterra, onde ataca a melhor amiga da noiva de Harker. Ela tem um noivo e dois outros pretendentes. Um deles, um psiquiatra preocupado com ela, chama seu mentor e amigo, o Dr. Van Helsing. Esse mesmo psiquiatra está estudando um louco, que parece ser profundamente afetado pela presença de Drácula.
No terceiro ato, Mina e Jonathan Harker se juntam ao grupo, que passam a perseguir Drácula até sua morte.
Os personagens mais marcantes são, em um plano mais próximo, o heroico casal Harker (ambos contribuem com seus diários para a narração) e Renfield, através dos olhos de Dr. Seward (outro narrador). Num plano mais alto, Drácula e Van Helsing, como os dois reis que se digladiam no tabuleiro de xadrez que é a trama. Lucy tem um pouco mais de estofo que outros personagens, mas sua vida relativamente curta como narradora tira um pouco de sua força. Arthur e Quincey são quase descartáveis, pelo pouco desenvolvimento que têm. O Dr. Seward tem uma voz própria, mas ele, como Watson, é um personagem que mais reage do que age. Ele começa reagindo a Renfield (e é graças a ele que Renfield ganha cor e importância, assim como Watson glorifica Holmes) e depois se torna o "leal amigo e biógrafo" de Van Helsing. Entre Renfield e Van Helsing, Seward acaba totalmente eclipsado.
Sabe, pensando bem, não é coincidência que Peter Cushing tenha interpretado Sherlock Holmes e Van Helsing. O que faz dele meu ator preferido ever.
Quando eu for comentar os filmes, é contra isso que vou compará-lo ao decidir se gosto ou não da adaptação. Talvez ajude vocês também a entender minhas análises o fato de que meus personagens preferidos são, do mais preferido ao menos: Van Helsing > Mina > Jonathan > Seward > Lucy > Renfield > Quincey > Arthur >>>>>> Drácula (no livro de Stoker, ele é um vilãozão vitoriano, que mata, estupra, coage e engana sem remorsos, é difícil gostar dele).
Ótimo. Passemos pros filmes.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Pôneis de novo
É, de novo. Meu blog, minhas regras.
Aprendam um pouco sobre a filosofia dos pôneis vampiros. Já falei de My Little Pony e o Conservatório nesse post. E nesse.
Aprendam um pouco sobre a filosofia dos pôneis vampiros. Já falei de My Little Pony e o Conservatório nesse post. E nesse.
Isso são pôneis de cristal: [LINK] Digam se não são Cullens quadrúpedes.
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Sobre cães e pessoas
Sei que o que vou dizer não tem nada a ver com literatura ou o que quer que seja, mas precisa ser dito. Quem achar bobagem, pode voltar aqui depois, quando teremos (assim espero), um post mais alto-astral. Mas não posso ficar calada diante dos verdadeiros horrores que presenciei há alguns meses. Esse post ficou nos rascunhos esse tempo todo porque era algo doloroso de se falar.
Quem me acompanha no facebook e quem lê regularmente o Bram & Vlad deve ter ouvido falar da Nina, uma cadelinha que pegamos antes da novela com sua homônima aparecer. Minha mãe e eu a encontramos perdida no centro da cidade e a levamos para casa, depois dela quase ter sido atropelada. Ela se mostrou logo animada e brincalhona, um amor de cachorra, mas era grande demais para nosso apartamento. Procuramos dono para ela e, com muita dificuldade, descobrimos que a moça da limpeza da nossa escola a queria. Pouco depois que a entregamos para a nova dona, saiu o resultado do exame de sangue que fizemos nela: ela estava com leishmaniose.
(Aqui, faço uma pausa para refrescar os conhecimentos de Biologia de vocês: a leishmaniose é causada por protozoários do gênero Leishmania, que podem usar como hospedeiro tanto o homem quanto o cão, e outros mamíferos. A doença é transmitida pela picada do mosquito-palha (ou birigui) e tem duas formas: a cutânea e a visceral. A cutânea é menos grave, e causa feridas horrorosas na pele. A visceral ataca órgãos vitais e é gravíssima.)
Como esse exame às vezes dá falso positivo, fizemos pelo menos três para confirmar. Nesse meio tempo, Nina fugiu da casa da dona e foi parar, três dias depois, na porta do meu prédio, com a maior cara lavada. Sabíamos, então, que ela era nossa responsabilidade, de ninguém mais.
Para encurtar a história, exatos dois meses depois que achamos Nina na rua, veio a resposta final: ela realmente estava com leishmaniose.
Decidir o que fazer foi extremamente difícil. Quer dizer, a leishmaniose tem tratamento. É bem caro, mas existe. Os remédios fortes eventualmente fazem o fígado e os rins do cachorro pararem, mas ele pode ter uma vida relativamente normal até lá. O problema é que o tratamento não impede a transmissão e, como eu disse acima, ela acontece por causa de um mosquito. Tratar leishmaniose significa que você deve, além dos remédios e exames, manter seu cão constantemente protegido contra mosquitos, usando coleiras anti-pulgas e sprays de citronela, além de ter que trancá-lo em um ambiente telado nos horários de maior incidência do mosquito. Se você falhar na proteção do seu cão, bem, Belo Horizonte é um foco gigante de leishmaniose e outros cães e pessoas podem ser infectados. Em caso de idosos e crianças, a doença pode levar à morte. Se querem saber o quanto é difícil controlar surtos de doenças transmitidas por mosquitos, apenas conte há quantos anos você assiste propagandas de combate à dengue na TV.
Se a doença não tivesse esse agravante de passar para seres humanos, seria mais fácil para nós tratarmos a Nina, mas minha família chegou à conclusão que não estávamos preparados para a enorme responsabilidade de impedir que a doença da Nina se alastrasse. Ninguém mais se ofereceu para cuidar dela (se já era difícil quando pensamos que estava saudável...), e fomos ficando sem opção. Por fim, ela foi recolhida pela Prefeitura para o sacrifício.
Não vou dizer que foi a decisão mais agradável para mim, que não restou nenhum traço de culpa, que questionamentos ainda não pipocam aqui e ali. Meu único consolo é que ela está bem, agora, e nem chegou a sofrer com a doença, que deixa o cão num estado lastimável.
Se você está achando que esse foi o horror daqueles meses, saiba que não, não foi.
Durante o período em que estávamos tentando achar um lar para a Nina, minha mãe e eu entramos em contato com o CCZ (Centro de Controle de Zoonoses) de BH, com várias ONGs de proteção aos animais, com pessoas que decidem recolher animais de rua para achar lares para eles e todo esse universo dos animais abandonados.
Eu não estava preparada para o que acabei descobrindo.
Quer dizer, todo mundo mais ou menos sabe que existem muitos animais abandonados, que os defensores dos animais estão sempre atrás de dono para algum animal, que a leishmaniose é uma preocupação séria em BH. Mas cara... CARA!
Tanto o CCZ quanto as ONGs que contatamos têm dezenas (quando não chegam a centenas) de animais esperando adoção. Raramente um defensor dos direitos dos animais tem menos de dez cães em casa. Desses todos, muitos estão doentes. Tratamento veterinário é caro e raríssimos são os veterinários que aceitam fazê-lo de graça ou pela metade do preço quando se trata de um cão abandonado. Não existe atendimento veterinário público, e nem o Governo disponibiliza todas as vacinas necessárias o ano inteiro. Isso faz com que ter um animal saudável e imunizado seja um luxo de quem tem algum dinheiro, e faz com que as áreas mais pobres sejam ninhos de doenças. E isso é irônico e triste, porque é nessas regiões que as pessoas estão mais dispostas a cuidar de animais abandonados. Onde há gente com grana, ninguém quer nem olhar pro bicho doente. Aliás, pelo tanto de animais de raça abandonados, são as pessoas com condições de cuidar dos animais que os abandonam.
Se isso não basta para horrorizar alguém, ontem mesmo vi no Facebook um cara que recolhe animais, trata e depois procura donos para eles. Esse rapaz está com a vida toda complicada por causa disso, mas simplesmente não consegue parar de ajudar os animais doentes e abandonados que vê. Muitos de raça. E são sempre histórias difíceis, como a do cachorro com um tumor estourado nas costas, ou do cão abandonado duas vezes, mas que andou quilômetros para chegar de novo em casa, apenas para ser maltratado e mantido do lado de fora.
Que tipo de seres humanos nós somos, ou estamos querendo ser? Onde está nossa responsabilidade como guardiães de seres vivos que confiam em nós? Eu sei que as pessoas têm dificuldade de entender minha simpatia pelos animais que comemos, até porque alguma distância emocional é necessária entre você e sua comida. Mas cara, animais de estimação não pedem para ser adotados, nós os tiramos se sua mãezinha e os levamos para casa porque eles são fofos e fazem carinhas bonitinhas, e nós temos a cara de pau de jogarmos esses animais na rua quando nos cansamos deles. Cara, deixar uma planta morrer porque você esqueceu de aguar já é um verdadeiro crime, já que a planta depende inteiramente de nós e nem pode fazer barulhos que indiquem que está com sede. Mas jogar na rua um animal que nunca aprendeu a procurar seu próprio alimento porque nunca permitimos isso mostra muito a respeito daquele egoísmo cosmicamente grande que todos temos dentro de nós e tentamos negar.
Já fiquei sabendo de gente que ia soltar o cachorro porque ia viajar por 15 dias para a praia e cães não eram permitido lá onde eles iam. É.
Por favor, amigos que me leem aqui: adotar um animal de estimação é como adotar uma criança que não cresce. É um compromisso que você vai carregar por uns 15 anos, no mínimo, um ser que dependerá de você para tudo, e que não será aceito em todos os lugares que você for. É um filho seu, que deverá ser bem cuidado, alimentado, educado e amado. Você não precisa virar uma socialite que mima o bicho de estimação mais do que mimaria uma criança, mas não pode se esquecer de que a VIDA do seu animal gira em torno da sua, e se você o negligenciar, ele vai morrer. E o pior: ele não é um tamagotchi com botão de "reset". Ele não vai ressuscitar e nenhum animal que você comprar para substituí-lo vai ser igual a ele.
Está passando da hora da Humanidade crescer e se tornar mais responsável...
Quem me acompanha no facebook e quem lê regularmente o Bram & Vlad deve ter ouvido falar da Nina, uma cadelinha que pegamos antes da novela com sua homônima aparecer. Minha mãe e eu a encontramos perdida no centro da cidade e a levamos para casa, depois dela quase ter sido atropelada. Ela se mostrou logo animada e brincalhona, um amor de cachorra, mas era grande demais para nosso apartamento. Procuramos dono para ela e, com muita dificuldade, descobrimos que a moça da limpeza da nossa escola a queria. Pouco depois que a entregamos para a nova dona, saiu o resultado do exame de sangue que fizemos nela: ela estava com leishmaniose.
(Aqui, faço uma pausa para refrescar os conhecimentos de Biologia de vocês: a leishmaniose é causada por protozoários do gênero Leishmania, que podem usar como hospedeiro tanto o homem quanto o cão, e outros mamíferos. A doença é transmitida pela picada do mosquito-palha (ou birigui) e tem duas formas: a cutânea e a visceral. A cutânea é menos grave, e causa feridas horrorosas na pele. A visceral ataca órgãos vitais e é gravíssima.)
Como esse exame às vezes dá falso positivo, fizemos pelo menos três para confirmar. Nesse meio tempo, Nina fugiu da casa da dona e foi parar, três dias depois, na porta do meu prédio, com a maior cara lavada. Sabíamos, então, que ela era nossa responsabilidade, de ninguém mais.
Para encurtar a história, exatos dois meses depois que achamos Nina na rua, veio a resposta final: ela realmente estava com leishmaniose.
Decidir o que fazer foi extremamente difícil. Quer dizer, a leishmaniose tem tratamento. É bem caro, mas existe. Os remédios fortes eventualmente fazem o fígado e os rins do cachorro pararem, mas ele pode ter uma vida relativamente normal até lá. O problema é que o tratamento não impede a transmissão e, como eu disse acima, ela acontece por causa de um mosquito. Tratar leishmaniose significa que você deve, além dos remédios e exames, manter seu cão constantemente protegido contra mosquitos, usando coleiras anti-pulgas e sprays de citronela, além de ter que trancá-lo em um ambiente telado nos horários de maior incidência do mosquito. Se você falhar na proteção do seu cão, bem, Belo Horizonte é um foco gigante de leishmaniose e outros cães e pessoas podem ser infectados. Em caso de idosos e crianças, a doença pode levar à morte. Se querem saber o quanto é difícil controlar surtos de doenças transmitidas por mosquitos, apenas conte há quantos anos você assiste propagandas de combate à dengue na TV.
Se a doença não tivesse esse agravante de passar para seres humanos, seria mais fácil para nós tratarmos a Nina, mas minha família chegou à conclusão que não estávamos preparados para a enorme responsabilidade de impedir que a doença da Nina se alastrasse. Ninguém mais se ofereceu para cuidar dela (se já era difícil quando pensamos que estava saudável...), e fomos ficando sem opção. Por fim, ela foi recolhida pela Prefeitura para o sacrifício.
Não vou dizer que foi a decisão mais agradável para mim, que não restou nenhum traço de culpa, que questionamentos ainda não pipocam aqui e ali. Meu único consolo é que ela está bem, agora, e nem chegou a sofrer com a doença, que deixa o cão num estado lastimável.
Se você está achando que esse foi o horror daqueles meses, saiba que não, não foi.
Durante o período em que estávamos tentando achar um lar para a Nina, minha mãe e eu entramos em contato com o CCZ (Centro de Controle de Zoonoses) de BH, com várias ONGs de proteção aos animais, com pessoas que decidem recolher animais de rua para achar lares para eles e todo esse universo dos animais abandonados.
Eu não estava preparada para o que acabei descobrindo.
Quer dizer, todo mundo mais ou menos sabe que existem muitos animais abandonados, que os defensores dos animais estão sempre atrás de dono para algum animal, que a leishmaniose é uma preocupação séria em BH. Mas cara... CARA!
Tanto o CCZ quanto as ONGs que contatamos têm dezenas (quando não chegam a centenas) de animais esperando adoção. Raramente um defensor dos direitos dos animais tem menos de dez cães em casa. Desses todos, muitos estão doentes. Tratamento veterinário é caro e raríssimos são os veterinários que aceitam fazê-lo de graça ou pela metade do preço quando se trata de um cão abandonado. Não existe atendimento veterinário público, e nem o Governo disponibiliza todas as vacinas necessárias o ano inteiro. Isso faz com que ter um animal saudável e imunizado seja um luxo de quem tem algum dinheiro, e faz com que as áreas mais pobres sejam ninhos de doenças. E isso é irônico e triste, porque é nessas regiões que as pessoas estão mais dispostas a cuidar de animais abandonados. Onde há gente com grana, ninguém quer nem olhar pro bicho doente. Aliás, pelo tanto de animais de raça abandonados, são as pessoas com condições de cuidar dos animais que os abandonam.
Se isso não basta para horrorizar alguém, ontem mesmo vi no Facebook um cara que recolhe animais, trata e depois procura donos para eles. Esse rapaz está com a vida toda complicada por causa disso, mas simplesmente não consegue parar de ajudar os animais doentes e abandonados que vê. Muitos de raça. E são sempre histórias difíceis, como a do cachorro com um tumor estourado nas costas, ou do cão abandonado duas vezes, mas que andou quilômetros para chegar de novo em casa, apenas para ser maltratado e mantido do lado de fora.
Que tipo de seres humanos nós somos, ou estamos querendo ser? Onde está nossa responsabilidade como guardiães de seres vivos que confiam em nós? Eu sei que as pessoas têm dificuldade de entender minha simpatia pelos animais que comemos, até porque alguma distância emocional é necessária entre você e sua comida. Mas cara, animais de estimação não pedem para ser adotados, nós os tiramos se sua mãezinha e os levamos para casa porque eles são fofos e fazem carinhas bonitinhas, e nós temos a cara de pau de jogarmos esses animais na rua quando nos cansamos deles. Cara, deixar uma planta morrer porque você esqueceu de aguar já é um verdadeiro crime, já que a planta depende inteiramente de nós e nem pode fazer barulhos que indiquem que está com sede. Mas jogar na rua um animal que nunca aprendeu a procurar seu próprio alimento porque nunca permitimos isso mostra muito a respeito daquele egoísmo cosmicamente grande que todos temos dentro de nós e tentamos negar.
Já fiquei sabendo de gente que ia soltar o cachorro porque ia viajar por 15 dias para a praia e cães não eram permitido lá onde eles iam. É.
Por favor, amigos que me leem aqui: adotar um animal de estimação é como adotar uma criança que não cresce. É um compromisso que você vai carregar por uns 15 anos, no mínimo, um ser que dependerá de você para tudo, e que não será aceito em todos os lugares que você for. É um filho seu, que deverá ser bem cuidado, alimentado, educado e amado. Você não precisa virar uma socialite que mima o bicho de estimação mais do que mimaria uma criança, mas não pode se esquecer de que a VIDA do seu animal gira em torno da sua, e se você o negligenciar, ele vai morrer. E o pior: ele não é um tamagotchi com botão de "reset". Ele não vai ressuscitar e nenhum animal que você comprar para substituí-lo vai ser igual a ele.
Está passando da hora da Humanidade crescer e se tornar mais responsável...
Assinar:
Postagens (Atom)



