quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Agatha Christie, escritora de fantasia

(O texto original é de 11/03/2011, postei na mailing list da ACBR (Agatha Christie Brasil). Estou postando aqui no blog pra resgatar meus textos antigos sobre a AC. Bom proveito!)


Você já deve ter ouvido o nome dela ao menos uma vez na vida. Ela é a Rainha do Crime, uma das autoras mais vendidas de todos os tempos, atrás apenas de Shakespeare, e sua peça A Ratoeira detém no Guiness Book o recorde de peça a mais tempo em cartaz: são 58 anos ininterruptos de apresentação.
Esse ano, Agatha Christie faria 120 anos. Em comemoração, gostaria de trazer à baila um lado dela que costuma ser desconhecido ou ignorado da Dama, mas que sempre esteve lá: Agatha Christie, escritora de fantasia.
Agatha Mary Clarissa Miller nasceu em 1890, em Torquay, na Inglaterra. O país estava em plena era vitoriana, e isso se refletiu em sua formação. Ela morava em uma antiga mansão inglesa com seus pais, uma irmã e um irmão. Desde criança, era muito imaginativa. Brincava de faz-de-conta e aprendeu a ler sozinha, aos cinco anos. Suas leituras preferidas quando criança eram as histórias do Antigo Testamento e livros vitorianos com histórias de mortes trágicas. Mais tarde, Agatha se deliciaria com as histórias de sua irmã mais velha e com livros infantis de contos de fadas.
Tia Agatha (tenho o hábito de chamá-la assim, carinhosamente) continuou crescendo uma criança tímida, e lia muito. Aos “dezessete ou dezoito anos”, conforme narra sua autobiografia, escrevia poemas, alguns retratando os personagens da commedia dell’arte, e chegou a ganhar alguns prêmios de uma revista com eles.
Aproximadamente por esse período, enquanto convalescia de uma gripe, Agatha Christie estava entediada e recebeu de sua mãe a sugestão de escrever histórias. Ela produziu vários contos e mandou para muitas revistas, sendo recusada em todas elas. Enquanto isso, resolveu escrever um romance, que sua mãe enviou a Eden Phillpotts, na época, um escritor famoso e amigo da família. Phillpotts fez uma crítica branda, mas firme, dando conselhos de leituras e procedimentos que melhorariam a escrita da moça. Ele também enviou o romance dela e seu editor, mais para que ela tivesse a experiência de se ver frente a frente com ele que por alguma esperança de publicação.
Depois dessa nova recusa, Agatha Christie voltou-se algum tempo para suas ambições musicais, enquanto continuava lendo histórias paranormais e escrevendo contos por passatempo. Mais tarde, ela sentiria vontade de escrever um romance policial e a insistência de sua irmã de que aquilo era difícil demais para ela plantaria a semente da escritora que tia Agatha viria a ser, mais tarde.
Por que estou dizendo tudo isso?
As biografias de Agatha Christie geralmente começam a falar de sua carreira literária a partir da escrita de seu primeiro romance policial, O Segredo de Styles. Pouco é dito ou sugerido dessa sua fase juvenil de escritora por diversão e não me lembro de ter lido em lugar nenhum que, nessa fase, a Dama do Crime escrevia fantasia.
Muitos dos contos que ela escreveu nessa época foram reescritos e publicados nos anos 20 e 30, por revistas e em uma coletânea de contos. Nas próximas páginas, iremos fazer uma viagem pelo fantástico na obra de Agatha Christie. Tanto o fantástico que permeia sua obra policial quanto o fantástico dessa primeira fase de sua carreira. Os fãs mais antigos da Dama irão reencontrar velhos amigos – como reencontrei ao escrever esse artigo – e talvez os novos descubram um encanto que não julgavam existir nos livros dela.


Agatha Christie e o Espiritismo

Antes de mais nada, não estou falando disso para fazer propaganda de doutrinas, ou algo do gênero, mas porque o contato de tia Agatha com espiritismo (ou, mais exatamente, espiritualismo inglês, que é diferente do Espiritismo, de base francesa) influenciou a fantasia em suas histórias, e um número respeitável de seus romances e contos possuem sessões espíritas. Às vezes, fica provado que elas foram forjadas por alguém, às vezes não.
É bom deixar uma coisa clara: Agatha Christie era cristã anglicana e se sentia bastante confortável em sua religião. Em sua autobiografia, ela conta que teve um romance com um rapaz que se interessava por espiritismo (com letra minúscula, isso é, por fenômenos espíritas) e que lhe passou muitas leituras teosóficas que a entediavam.
A experiência com esse rapaz deixaria uma marca na obra dela. Quando se analisa os livros de tia Agatha, torna-se claro que ela lidava com vários personagens recorrentes, que apenas mudavam de nome e aparência, mas mantinham a personalidade. O velho militar irascível e falador, o rapaz charmoso sem o menor pingo de caráter, a velha senhora fofoqueira, mas que tinha uma acurada visão de mundo, além de vários outros. Um desses personagens é a médium exoticamente vestida, de comportamento extravagante, que, no fundo, é uma charlatã buscando enriquecimento à custa dos crédulos ou uma tola que engana a si mesma. Essa personagem, ao que tudo indica, é derivada de duas irmãs que o tal rapaz lhe apresentara.
É digno de nota que, sempre que essa médium exótica aparece no romance, alguém respeitável (o detetive da história, ou algum estudioso qualquer) em algum ponto explica que não se deve julgar o espiritismo por essas pessoas, e que há gente séria investigando a verdade por trás dos fenômenos. Após essa explicação, pode ou não haver o relato de um caso de revelação mediúnica que não poderia ser obtida por charlatanismo.
Dois livros em que sessões espíritas desempenham papeis muito importantes são O Mistério de Sittaford, onde um homem vivo se manifesta na mesa e logo se descobre que ele foi assassinado, e Poirot Perde uma Cliente, que conta com duas irmãs vegetarianas, teosofistas, ocultistas, espíritas e incuravelmente tolas. Dizer por que a sessão espírita é importante é spoiler, mas ela é. Esse é um livro pouco famoso da Dama, mas muito bom, e com uma virada de acontecimentos realmente genial.
Os temas de comunicação com os espíritos, reencarnação e possessão surgiriam mais tarde em seus contos fantásticos, como será visto mais adiante.

O Fantástico e o Policial

Antes de mergulharmos na obra fantástica propriamente dita da tia Agatha, é importante notar que o sobrenatural esteve fortemente presente em várias de suas obras. Em seus livros policiais, a abordagem é geralmente, fantástica – no sentido todoroviano do termo. Isso quer dizer que, no geral, o leitor fica livre para decidir se o que foi narrado é sobrenatural ou não. Em muitos casos, fica provado que o sobrenatural era um embuste ou um mal-entendido, mas não vou entregar o ouro e separar as duas situações. Quem estiver lendo que se divirta tentando descobrir.
Eu poderia citar vários livros que contém elementos fantásticos, mas escolhi aqueles em que eles são especialmente importantes para a trama. Outro critério foi que os livros em questão tenham particularidades interessantes, como é o caso de E no Final a Morte.
O mais fantástico de todos os livros policiais da Dama, sem dúvida, é O Misterioso Sr. Quin. Essa é uma coletânea de contos estrelando o Sr. Satterthwaite, um homenzinho solteirão com rosto de gnomo, e o Sr. Harley Quin, que surge e desaparece quase que literalmente do nada e “catalisa” as deduções do Sr. Satterthwaite a respeito dos mistérios. Os contos têm em comum amantes que estão separados por culpa de um crime ou de um mistério não-resolvido, e é sugerido o tempo todo que o Sr. Quin é mais que um tranqüilo cavalheiro moreno (se você ainda não percebeu o trocadilho no nome do homem, merece um pedala-robinho bem dado). O fantástico permeia todos os contos e o último não tem nada de policial. É um conto fantástico e apenas isso. Já falei que Agatha Christie escreveu poesias de arlequim e colombina quando jovem. Nessas poesias, ambos eram presenças fantásticas, mais que os personagens cômicos da commedia dell’arte. O último conto de O Misterioso Sr. Quin é uma homenagem a essas poesias, onde os fatos da vida real e de uma história de arlequim e colombina se entrelaçam de um jeito muito bonito.
O sobrenatural volta à baila em O Cavalo Amarelo, um dos livros policiais da Agatha Christie que estão em minha seleta lista de livros dela obrigatórios a qualquer escritor que queira se aventurar pelo romance policial de mistério.
Dessa vez, não há o lirismo, o romance e o clima fantástico do livro do Sr. Quin. O Cavalo Amarelo é um livro aventuresco, onde um tranqüilo historiador tropeça sem querer na pista de uma organização que diz ser capaz de matar por telepatia, através de três solteironas que são bruxas, cada uma à sua maneira. Bella é a típica bruxa de interior, que sacrifica galos brancos e emite gemidos bestiais. Sybil é uma médium com todas as características da recorrente médium charlatã já discutida anteriormente. Thyrza Grey é uma estudiosa do oculto, racional e usuária de aparelhos emissores de ondas eletromagnéticas.
As reviravoltas do livro são muito boas. Só tomem cuidado ao pesquisar sobre ele no Google: são abundantes as notícias a respeito dele ter salvado a vida de pessoas, mas essas notícias invariavelmente soltam um spoiler que acaba com metade da graça da narrativa.
Interessante também é o romance E no Final a Morte. Ele foi proposto à Agatha Christie por um amigo arqueólogo, que sugeriu que ela escrevesse uma história policial passada no Egito Antigo. Ao longo do livro, uma pessoa é assassinada e visões de seu fantasma começam a preceder a morte de vários membros da família da protagonista.
Embora a trama policial desse romance seja relativamente fraca, em comparação a outros títulos da autora, ele ainda assim é uma excelente história. É particularmente notável como tia Agatha criou um ambiente egípcio com base nos dados fornecidos por seu amigo sem tornar a leitura pedante ou chata. Não fica a sensação de “aula de história” ou de “personagens explicando o mundo”, e muitos escritores têm a aprender com ela nesse quesito. A forma como as mulheres são as personagens mais fortes e bem desenvolvidas, mesmo estando clara a base machista da sociedade mostrada, merece um estudo à parte.
Outro livro onde o fantástico mostra as caras mais de uma vez é a coletânea de contos Os Treze Problemas. Nesse livro, o escritor Raymond West, hospedado na casa de sua tia velhinha Jane Marple, propõe que cada um dos convidados do jantar conte uma história misteriosa que tenha presenciado para testar os dotes detetivísticos das pessoas. Mais de uma história toca em pontos sobrenaturais, particularmente o conto sobre o Ídolo de Astarteia.
Diferentemente dos outros, Os Trabalhos de Hércules não é, em absoluto, um livro fantástico. Incluo aqui por ele ser atraente para a maioria dos fãs de Fantasia. Como o maior detetive da Dama, Hercule Poirot, é homônimo do herói da Antiguidade, ele decide aceitar apenas 12 casos antes de se aposentar. Esses casos precisariam, necessariamente, guardar alguma semelhança com os trabalhos de Hércules originais. É um dos melhores livros de contos de Agatha Christie e fica aqui como dica de leitura.

A obra de Fantasia de Agatha Christie

Depois desse passeio pelas influências de Agatha Christie e pelo fantástico em sua obra policial, finalmente é hora de dissecarmos a obra fantástica da Dama do Crime. Sim, ela existe.
Como já foi dito antes, o fantástico puro na obra de Agatha Christie aparece, geralmente, em contos escritos em sua juventude, antes de se tornar uma autora policial. Duas coletâneas reúnem praticamente tudo o que foi produzido por ela nesse quesito: A Mina de Ouro, Três Ratos Cegos e Outras Histórias e Enquanto Houver Luz. Ocasionalmente, algum outro conto pode ser encontrado, solto em coletâneas diversas. Vou falar desses três livros detalhadamente, agora.
Começarei pelo segundo deles. Embora tenha sido lançado no Brasil muitos anos depois, Enquanto Houver Luz é uma coletânea de contos da Agatha Christie que foram publicados fora de livros, geralmente em revistas. A coletânea contém contos publicados nos anos de 20 e 30, juntamente com a história dos mesmos e algumas curiosidades. Esse livro contém a versão revisada do primeiro conto que tia Agatha escreveu e considerou “promissor”, e era um conto fantástico.
Esse primeiro conto abre a coletânea e chama-se A Casa dos Sonhos. Conta a história de um homem “parecido com um fauno”, que sonha com aventuras e outras terras, mas se vê preso em uma vida burocrática e mais lucrativa. Ele tem sonhos recorrentes com uma bela casa, que parece conter tudo o que há de belo e de bom, mas onde ele não pode entrar. A história conta sobre como ele se apaixona pela etérea Allegra, e como sua vida muda radicalmente desde então. Esse conto é a segunda versão de A Casa da Beleza, descrito pela própria Dama como muito mais sombrio e confuso. De fato, a maior parte dos contos fantásticos de Agatha Christie parecem ser sombrios e tensos psicologicamente.
Na linha do fantástico, embora o foco seja o romance, está O Deus Solitário. É uma história muito simpática e muito sentimental, como a própria Agatha descreve, sobre um pequeno ídolo de pedra, perdido no Museu Britânico, e seus dois únicos seguidores.
Ligeiramente fantástico e altamente simbólico é Paredes que Atormentam, um conto sobre um triângulo amoroso bem construído e instigante. O elemento fantástico está contido em um quadro que, embora não tenha as características vampíricas do retrato oval de Poe, parece ter algo mais que as obras de arte, no geral.
Fechando a coletânea, há o conto que dá título a ela, Enquanto Houver Luz. O fantástico está em uma premonição que a protagonista tem, e mais uma vez somos apresentados a um triângulo amoroso. É um conto amargo e algo irônico, com o clima pesado da maior parte dos contos fantásticos de Agatha Christie.
A Mina de Ouro e Três Ratos Cegos e Outras Histórias são coletâneas de contos da Dama, e duas faces de uma moeda. Nessas coletâneas se encontram os contos de uma coletânea que só existe em inglês: The Hound oh Death and Other Stories. Metade se encontra em um livro, e metade em outro. Com a exceção de A testemunha da acusação (que mais tarde, daria origem a uma peça de teatro e a um romance com esse nome), os contos dessa coletânea são todos fantásticos, ora pendendo à fantasia, ora recebendo explicações naturais e afastando o sobrenatural (quase) todo. Nunca dá para saber, logo de cara, que caminho a Dama vai tomar – e só os incautos confiam cegamente nela, que sabia usar clichês a seu favor como poucos.
Esse livro foi publicado em 1933. Como dito antes, é nas décadas de 1920 e 1930 que se concentram a maior parte das histórias fantásticas da Dama. Alguns contos desse livro são mencionados, na Autobiografia, como tendo estado entre os primeiros escritos por ela.
Em A Mina de Ouro, estão alguns contos selecionados da coletânea The Listerdale Mystery, de contos românticos de mistério e, mais para a metade, alguns dos melhores contos de The Hound of Death.
O primeiro deles, O Cão da Morte, é uma história sobre uma enfermeira, que sonha com os Signos e a Cidade dos Círculos (qualquer coincidência com Atlântida é mera coincidência. Ou não.), e é estudada por um médico com um interesse um tanto quanto exageradamente fervoroso. Foi um dos contos da tia Agatha que mais mexeu com minha imaginação: fiquei meses brincando com a idéia dos signos na minha cabeça.
A Cigana recria uma velha lenda da charneca nos tempos modernos, contando um caso de premonição e sugere um caso de reencarnação.
O Lampião é uma história que me dava um misto de arrepio e comoção quando eu era menor. É uma história de fantasmas, triste, clichê, mas que sempre me toca.
Temos O Estranho Caso de Sir Andrew Carmichael, em que um ilustre psicólogo vai tentar descobrir qual doença mental aflige o jovem nobre. É uma história de fantasmas com uma atmosfera sinistra bem construída. Bom, pelo menos, achei bem sinistra quando li pela primeira vez, e ela ainda me faz olhar por cima do ombro quando leio.
Mais um dos primeiros contos de tia Agatha surge nesse livro: O Chamado das Asas é a história de um milionário materialista e feliz, mas que tem sua felicidade abalada pela música tocada pela flauta de um mendigo sem pernas.
Os outros oito contos de The Hound of Death (sim, são treze, tia Agatha gostava desse número) estão em Os Três Ratos Cegos e outras histórias (aliás, o conto Os Três Ratos Cegos é baseado na trama de A Ratoeira).
O Sinal Vermelho é um conto sobre um jovem que tem a premonição do perigo, e de como isso o salvou várias vezes. Como sempre, temos uma sessão espírita, e a médium exótica com um toque tolo/charlatão surge de novo. Mas ela é ligeiramente diferente das outras, um tanto mais autêntica e menos antipática que o de costume.
Em O Quarto Homem, três intelectuais discutem, em um trem, o estranho caso de múltiplas personalidades da jovem camponesa francesa Felicie. Um quarto homem, desconhecido para os três, intervém e conta a história de Annette Ravel, e de como essa história explica e complementa a de Felicie.
A trama de O Rádio mostra uma velhota solteirona que começa a ouvir a voz de seu falecido marido no meio de seus programas de rádio preferidos, dizendo que logo irá buscá-la. O fim desse conto é um dos mais deliciosamente cruéis que Agatha Christie pôde imaginar.
Como já foi dito, o conto A Testemunha da Acusação não tem nada de fantástico. Recomendo fortemente que a pessoa leia primeiro o romance (adaptado da peça de teatro, que foi adaptada do conto), para não estragar o prazer da leitura: ele tem realmente uma reviravolta de mestre.
O Mistério do Vaso Azul é sobre um prosaico homem que começa a ouvir um grito de “socorro – assassinato – socorro” todos os dias, à mesma hora, em seu campo de golfe. O curioso é que ninguém mais ouve o grito. Ele se alia a um “médico da alma” para tentar descobrir a verdade por trás disso.
O tema espiritismo está de volta (de novo) em A Última Sessão. Dessa vez, não há médiuns exóticas e extravagantes. A médium em questão é uma moça bondosa e honesta, que se debilita a cada sessão e deseja ardentemente parar com elas. Seu noivo organiza aquela que será sua última sessão, uma materialização da filhinha desencarnada de Madame Exe, mas há uma atmosfera de perigo envolvendo a todos.
Em S.O.S., temos Mortimer Cleveland, um estudioso da mente e do oculto que atola o carro em uma noite chuvosa e termina em um chalé isolado, ocupado por uma família. A tensão do ambiente é percebida pelo seu sexto sentido aguçado e, mais tarde, ele percebe um S.O.S. escrito na poeira do batente de seu quarto.
De maneira geral, The Hound of Death and Other Stories possui momentos brilhantes e momentos apagados, contos bons e contos medianos. A coletânea foi recebida com torcer de narizes pela crítica, por serem “histórias de fantasmas, com pouco ou nada de policial”. Esse pode ter sido o motivo que levou as editoras americanas a dividirem a coletânea, buscando “diluir” os contos de fantasmas em contos policiais mais tradicionais (A Mina de Ouro e Três Ratos Cegos e Outras Histórias são traduções das coletâneas americanas correspondentes).
Se, por um lado, é fato que alguns dos contos são de uma Agatha Christie ainda não totalmente amadurecida como escritora, por outro, a qualidade deles não fica abaixo de outros contos policiais do mesmo período. E compreensível que alguns deles (particularmente os que têm uma solução inegavelmente sobrenatural) decepcionem aqueles que procuram crimes e detetives, mas são contos bons de mistério/terror/sobrenatural. Como já comentei, a habilidade de Agatha Christie em brincar com clichês para surpreender seu leitor já está presente mesmo em seus contos mais antigos.

Terminado esse pequeno tour pela obra fantástica da Dama, seja em suas breves aparições nos livros policiais, seja em carreira solo, o que fica para nós?
Como comentei no início, minha intenção era ser apenas uma guia turística, mostrando uma parte menos conhecida, mas não menos interessante, de uma bela cidade. Espero que, depois disso, cada um possa fazer seu próprio “roteiro de viagem” pela obra de Agatha Christie e, quem sabe, se divirta contando o número de aparições de personagens recorrentes e de sessões espíritas na obra não-fantástica dela.
A grande questão que pode surgir é: com uma pequena mudança de circunstâncias, tia Agatha teria seguido com suas histórias de fantasia e, talvez, feito romances com elas? Se ela tivesse feito isso, teria se tornado tão famosa como se tornou no gênero policial?
São questões de difícil resposta. A obra policial de Agatha Christie tem um selo próprio e inconfundível de estilo. Já sua obra fantástica, conforme ela confessa em sua autobiografia, frequentemente emulava o autor que ela estava lendo no momento da escrita. Mas é preciso levar em conta que ela era uma escritora muito imaginativa e gostava de experimentar coisas novas e mudar de ares. Talvez – e isso é apenas uma especulação ociosa de fã – sua obra fantástica tivesse amadurecido, se não fosse ofuscada pela obra policial (o gênero policial dava muito mais retorno no começo do século XX). Aliás, é bom notar que mesmos os contos policiais do início da carreira da Dama estão aquém do que estariam alguns anos mais tarde.
Especulações, especulações... O fato concreto que temos é que Agatha Christie se achou no gênero policial. Desde a publicação de O Misterioso Caso de Styles, em 1920, ela influencia leitores e mais leitores, em várias línguas. Foram 4 bilhões de livros vendidos, o que é quase um planeta inteiro de pessoas que leram Agatha Christie, quer tenham gostado, quer não.
Nada mal para uma jovem tímida que escrevia contos paranormais por distração, e foi recusada ao longo de anos por revistas literárias.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

RIP Museu Nacional

Ainda estou tão chateada com o incêndio do nosso Museu Nacional. É nosso incêndio de Alexandria particular. :(
O discurso do Alexandre é só meu meio particular de lidar com isso. :(




quinta-feira, 7 de junho de 2018

Cristina é 70% ódio da humanidade, 25% niilismo autodestrutivo e 5% sentimentos reprimidos




 








Adivinha quem estava fazendo uma revisão definitiva no Conservatório?

Fiz umas artes conceituais em inglês pros gringos conhecerem a Cristina e o Diego. Aproveitem:


quinta-feira, 22 de junho de 2017

Motivo e Oportunidade: um estudo de caso dos modelos cognitivos ideais em um conto de Agatha Christie

Apresentado para a Disciplina de Referenciais de Pesquisa, do Programa de Mestrado em Educação da FAE-UFMG, em outubro de 2013.

-------


1 – Introdução

Uma de minhas escritoras favoritas é a inglesa Dame Agatha Christie. Muitas horas de minha vida foram gastas lendo seus oitenta romances, e através dela, conheci e passei a admirar o gênero literário conhecido como “literatura policial”. Diferentemente de outros gêneros, há um nível de imersão tão grande em alguns desses livros, que eles ficam na fronteira entre o livro e o jogo. Compreender o que há de tão especial nos romances policiais sempre foi uma de minhas paixões literárias, e acredito que os estudos realizados por vários pesquisadores a respeito de como nossa mente categoriza seja uma forma de alcançar essa compreensão.
Antes de mais nada, é preciso apresentar o gênero policial àqueles que têm pouco ou nenhum contato com ele. A literatura policial é um gênero difícil de definir. Suas histórias, de maneira geral, apresentam um crime e um investigador que irá procurar solucionar os problemas gerados por esse crime. Em alguns livros, o “problema” é resolver o mistério da identidade do criminoso (ou de como ele pôde cometer tal crime). Em outros, não há mistério, mas uma trama criminosa que deve ser impedida pelo investigador em um clima de constante suspense.
Vou me ater, daqui por diante, ao primeiro tipo acima: o romance policial em que há um mistério a ser desvendado. Esse subgênero pode ser chamado de “romance policial inglês clássico” ou “romance de enigma” (ao qual pertencem Agatha Christie e Conan Doyle), e teve seu ápice na Inglaterra, durante o período entre-guerras.
Tzvetan Todorov (2006), em seu livro As Estruturas Narrativas, tem um capítulo dedicado à “Tipologia do Romance Policial”. Nele, há essa constatação, ligeiramente mal-humorada, sobre o gênero:

“A obra-prima habitual não entra em nenhum gênero senão o seu próprio; mas a obra-prima da literatura de massa é precisamente o livro que melhor se inscreve no seu gênero. O romance policial tem suas normas; fazer ‘melhor’ do que elas pedem é ao mesmo tempo fazer ‘pior’: quem quer ‘embelezar’ o romance policial faz ‘literatura’, não romance policial.”
Com todo o respeito que tenho a Todorov (e tenho muito respeito pelos livros dele que já li), sou obrigada a discordar firmemente dessa afirmativa, especialmente no tocante ao subgênero “romance de enigma”. Após anos lendo livros policiais, percebi que o bom romance policial, é justamente a história subversiva; aquela que, estando consciente de suas normas, de alguma forma, quebra-as deliberadamente para surpreender o leitor. Sem algum tipo de subversão, não há surpresa.
Não que eu acredite que o respeitável teórico acima tenha toda a culpa por fazer essa afirmativa: ele baseou muito de sua tipologia no que disseram os “teóricos do gênero”, especialmente os membros do Detection Club da Inglaterra, um clube de autores policiais famosos, dedicados a estudar e “proteger” o gênero policial. Esses teóricos são os principais responsáveis por essa visão de que o único romance policial que possa ser considerado “bom” é o que segue à risca todas as “regras” silenciosas desse gênero. Um dos presidentes do Detection Club, Van Dine, chegou mesmo a escrever e publicar uma série de regras que, segundo eles, jamais deveriam ser quebradas em um bom policial. Isso não impediu que todos os bons romances do período entre-guerras tenham subvertido ao menos uma delas.
A razão pela qual trago essa discussão de gênero literário para um trabalho sobre categorização por modelos cognitivos ideais, ou ICMs, (isso é, os pressupostos por trás de como fazemos uma categorização) é que acredito que são poucos os gêneros literários onde ICMs podem ser vistos em ação com toda a clareza. Mais que isso: enquanto bons escritores de outros gêneros podem fazer boa ficção com um conhecimento apenas intuitivo dos pressupostos de seu gênero, um escritor de romance policial necessariamente tem que conhecer algo dos modelos mentais formados por seus leitores, caso queira manter o mistério da história até o fim.
Em outras palavras, creio que o romance policial é um jogo cognitivo entre o autor e o leitor, em que um tenta deduzir e se adiantar às estruturas narrativas que crê que o outro está utilizando. E, dentre todos os autores policiais que conheci, poucos jogaram esse jogo tão bem quanto Agatha Christie. Essa é a razão pela qual escolhi um de seus contos, “O Móvel do Crime” (Motive versus Opportunity), como estudo de caso da aplicação de ICMs.
Antes de passarmos para essa parte, permitam-me uma breve explicação a respeito do que são ICMs.


terça-feira, 29 de setembro de 2015

Resenhas de Drácula anotado e Lovecrat anotado

Comprei e li as duas obras juntas. Aqui vão as impressões:

Annotated Dracula (Bram Stoker & Leslie Klinger):

Eu já conhecia Leslie Klinger do monumental Sherlock Holmes Anotado, que foi publicado no Brasil em 9 volumes pela Editora Zahar. O autor é um estudioso sherlockiano apaixonado e eu fiz questão de colocar todos os volumes na estante. Essa obra é uma mina de ouro para informações da era vitoriana, além de trazer muitas interpretações alternativas das histórias de Sherlock, que são uma forma interessante de perceber contradições e furos nas histórias (ou, simplesmente, outras maneiras de se interpretar os mesmos acontecimentos). Além disso, os livros são feitos sob a premissa de que Holmes e Watson eram pessoas reais, e que Conan Doyle foi só o agente literário de Watson. Essa ficção inocente dá um sabor especial às discussões das histórias, e ao material complementar.

O Drácula Anotado foi feito depois dessa empreitada, e tudo o que eu disse em relação à obra acima pode ser dito em relação a essa. É visível que Klinger é apaixonado pela Inglaterra vitoriana. E Drácula é um livro com uma extensa bibliografia acadêmica, de onde o autor pôde tirar muita informação para suas notas. A "ficção" de que Drácula é um livro real é feita aqui (de uma maneira um pouco menos isenta do que em Sherlock Holmes, talvez porque o autor não parece ser tão fã de Drácula quanto de Sherlock), o que leva àquelas interpretações alternativas instigantes e reveladoras que citei ali acima. Por mais que eu tenha minhas próprias teorias a respeito de Drácula, o trabalho de Klinger foi tão abrangente e completo que ele adicionou ao invés de me irritar, como eu temia antes de ler o livro. Sabe como é, quando você gosta demais de algo, pode se tornar muito "protetor" do que gosta e ficar chato. Fico feliz de saber que ainda não estou tão chata. xD

Foi um livro quase perfeito para mim, pedindo só um pouquinho a mais de "vozes" e "teorias" diferentes, mas muito prazeroso. Ah, sim, vale a pena dizer que o autor é uma das poucas pessoas que pôde comparar o manuscrito original com a versão impressa do livro, e ele traz muitas informações inéditas para fãs e estudiosos do vampirão mais famoso do mundo.

Uma coisa que eu sei que é problemática para outras pessoas (apesar de não ter me incomodado) é que Klinger colocou tantas notas, mas TANTAS NOTAS que o texto frequentemente tem que ser interrompido por páginas só de notas. Como já estou mais que acostumada com a história e comprei só pelas notas, mesmo, não me incomodou. Além disso, amo textos com notas. Odeio ter que ficar indo ao fim do capítulo ler as notas, como no Sherlock Anotado, e amei o esquema de Drácula Anotado, colocando as notas nas margens. Infelizmente, sou obrigada a concordar que muita gente acha as interrupções do texto irritantes, e seria melhor ter arrumando outra maneira de colocar essas notas sem interromper o fluxo do texto.

No mais, a apresentação é maravilhosa. Vivo reclamando que as edições de Drácula raramente têm uma capa decente, mas a dessa edição é linda. As ilustrações são lindas, tudo é lindo. No início, eu estava receosa de comprar esse livro e ele aparecer traduzido no Brasil logo depois, mas agora, não tenho esse medo. A edição brasileira dificilmente seria tão luxuosa, e como Drácula é a inspiração de Bram & Vlad, uma das minhas maiores empreitadas criativas, então acho que merece esse pequeno "esbanjamento" de minha parte.



Annotated Lovecraft (H. P. Lovecraft & Leslie Klinger):

Eeeeee... Como eu queria dizer tudo o que eu disse acima a respeito de Annotated Lovecraft. A edição é maravilhinda, as ilustrações são lindas, tem menos notas que Drácula Anotado, e portanto o texto flui... E isso é parte do problema.

Em Sherlock Holmes Anotado e em Drácula Anotado, é possível ver paixão. Não é só o número de notas, é também a paixão pela "ficção" de que essas histórias realmente aconteceram, que levam àquele sabor delicioso de "aprender brincando". As especulações a respeito de "quem poderia ser o personagem tal no mundo real" levam o autor a explorar muitas personalidades reais que não foram abordadas pelas obras. Para mim, uma das grandes forças dos outros livros anotados que li do Klinger foi a forte intertextualidade, e o respeito e estima pelo "universo mítico" dos respectivos autores. Eram obras intelectuais, sim, mas com paixão.

O Lovecraft Anotado... não tem muito disso. É um livro muito mais "frio". A "ficção" está lá, mas muito distante. O Klinger faz um monumental dever de casa, traz toneladas de notas históricas maravilhosas, mas eu não consegui ver nesse livro aquela paixão pela obra do autor que existe nos livros anteriores.

A intertextualidade é pífia ou quase nula. Em O Caso de Charles Dexter Ward, por exemplo, há uma quantidade gigante e cansativa (para mim) de notas sobre Providence e as personalidades reais citadas no texto. Mas procure alguma anotação sobre o "universo" de Lovecraft e você se desaponta. Não tem quase nada sobre o elusivo Yog-Sototh, tão mencionado no texto. Nenhuma especulação sobre as "vítimas" de Joseph Curwen. Nenhum comentário sobre as explorações do Dr. Willet. Pelo amor de Deus, o Lovecraft estava piscando tanto quando colocou suas referências a Drácula no texto que só faltou chamar um personagem tal de Alucard e não tem nem uma notazinha reconhecendo isso. Nem. Uma.

Em Nas Montanhas da Loucura, temos lindas notas sobre as expedições antárticas, os aviões e tudo o mais, mas muito pouco sobre as conexões mil entre essa obra e outras. Nenhuma especulação sobre qual poderia ser a "Expedição Starkweather-Moore". Nessa história há mesmo uma nota onde Klinger diz que Lovecraft, em determinado ponto, escreve "pteridófita" quando deveria dizer "pterodáctilo", mas no contexto, tio HP escreveu perfeitamente certo. Ele estava falando de estruturas vegetais nas asas dos aliens, não sobre as asas em si. Uma falta de atenção imperdoável de um anotador tão cuidadoso. Tem outras, mas essa é uma das mais óbvias.

Enquanto não dava pra ler Sherlock Holmes Anotado e Drácula Anotado sem ter ao menos uma nota por página, Lovecraft Anotado tem páginas e páginas de texto sem anotação, sem comentários de personagens recorrentes, sem nada... Deu vontade de pegar minha caneta nanquim e fazer as anotações eu mesma. Ainda não me convenci a não fazer isso. Dane-se "estragar o livro", ele é meu e eu comprei pela informação, não pela beleza.

Enfim, me pareceu uma obra feita quase que com "má vontade", quando se compara com as demais.

Continua sendo uma edição obrigatória para grandes fãs de Lovecraft, e, se eu tivesse a oportunidade, não devolveria, nem pediria o dinheiro de volta. Só fiquei um tiquitinho decepcionada. É como se o melhor chef do mundo convidasse você para um jantar e te levasse no restaurante de outro, que ainda por cima tem uma estrela a menos. OK, a comida vai continuar sendo boa, muito acima do que você normalmente come, mas não dá para evitar a decepção.

Minhas teorias são que (a) reclamaram tanto que Drácula Anotado tinha anotações demais e que a "ficção" do Klinger não era legal, blábláblá, que ele resolveu ser "sério" (o que é um enorme desperdício) ou (b) como Lovecraft está na moda, chegaram um dinheiro no autor pra fazer essa edição anotada e ele pegou o trabalho, mesmo não ligando muito para a obra.

Para mim, é uma afronta pessoal que Lovecraft Anotado tenha mais estrelas na Amazon que Drácula Anotado. Sério, caras, não.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Gatinho carente

Eu estava relendo o manuscrito de O Conservatório e isso aconteceu:

Vampiros são só gatinhos carentes.


Não, não tenho vergonha nenhuma. E sim, sei que o mais provável é que a Cristina lançasse o Diego fora do sofá, mas ela tem um fraco por gatos.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A arte de ser do contra

No meu tumblr, escrevi um pequeno texto sobre a questão da representatividade nos quadrinhos que me atrevo a fazer, para servir de introdução ao Manifesto Irradiativo. Aqui, achei de bom tamanho dar um depoimento sobre o que isso significa pra mim na literatura, antes de linkar vocês para ele.

Desde sempre, minha grande preocupação foi que meus protagonistas fossem legais de escrever. E "legais de escrever" para mim sempre foram os personagens que tinham algo de diferente dos outros, e como essa diferença muda bastante (ou, paradoxalmente, não muda absolutamente em nada) a forma como essa pessoa interage com o mundo cotidiano. Se existe um tema que vai aparecer em quase todos os meus escritos mais longos, em todos os meus quadrinhos, é isso. É uma coisa que realmente me dá prazer de explorar. Sendo assim, todo protagonista meu é, por definição, diferente. E eu vou dizer um negócio, isso é delicioso. Alguns estão na minha zona de conforto, outros são um desafio delicioso.

Mas sabe o que é mais delicioso? É depois de tudo, você ver que aquilo que você achava que era alien, que você estava colocando por "diversidade", por "desafio", ou simplesmente, por "diversão", estava ali dentro de você o tempo todo. E é aí que sua própria atitude para com as pessoas "diferentes" muda, porque elas não são diferentes de verdade. Elas podem ter muito em comum com você.

Como é o blog do Conservatório, posso falar sobre os protagonistas dele, a Cristina e o Diego. O que me pus como desafio com a Cristina é que nasceu como uma reação às protagonistas doces e nobres de young-adult. Cristina é mal-humorada, frequentemente mal-educada, é solitária mas não quer fazer amigos, é cética, ateia e tem toda o romantismo de uma batida policial. Muitas dessas características não são só diferentes de mim, elas são o total oposto. Mas não é que eu descobri que escrever a Cristina é delicioso naqueles dias que você acorda de mau humor e quer mais que o mundo se exploda? Foi tão divertido que um pouco da atitude dela foi parar em personagens secundários e várias outras histórias (lalalVladlalaXerémlalala).

Diego? Diego também é uma reação ao interesse romântico todo cheio de pudores e dramas internos. Ele é zoeiro, frequentemente invade o espaço pessoal da mocinha, é extrovertido, convencido e age primeiro para pensar depois. Eu absolutamente não sou extrovertida (embora possa fingir muito bem, se precisar) e não muito fã de... tocar... pessoas... enfim, eu não esperava que escrever Diego seria gostoso como foi.

Eu podia ficar aqui detalhando cada um dos meus cerca 65 protagonistas (ah, não acredita? Pus a planilha no Dropbox. Contemplem.), mas acho que já entenderam o espírito da coisa. E nem estou falando dos secundários, que também recebem muito carinho e onde também aproveito para colocar muita coisa. Basicamente, sabe quando acusam os secundários de serem mais interessantes que o protagonista, porque as pessoas não arriscam com protagonistas? Digamos que não me sinto motivada a escrever uma história a menos que meu protagonista seja um desses secundários legais.

Isso dito, toda vez que vejo gente falando que os personagens principais tem que ser genéricos para o pessoal se identificar (sendo que "genérico" geralmente significa "homem-hétero-cis-branco") e que a luta por representatividade na literatura é "bobagem politicamente correta", eu morro um pouco por dentro. Representatividade significa novos mundos psicológicos para explorar, novas histórias para contar, novas coisas para descobrir sobre o outro e sobre você. Quem, em sã consciência, não está agora mesmo explorando esse mundo todo? Quem, em sã consciência, não está saindo do seu pequeno círculo criativo para contar novas histórias, irradiando para mais longe do que antes?

Agora, sim, acho que estão no estado de espírito certo para ler essa iniciativa bacaníssima dos escritores Jim Anotsu e Alliah, o Manifesto Irradiativo. Assine e irradie. Literatura diversa é literatura fresca, território inexplorado.