segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Sonia Belmont e como todos perdem com o machismo

Eu tava preparando um texto sobre literatura policial pra postar por aqui, mas antes dele ficar pronto, acabei me envolvendo numa pequena discussão sobre Castlevania e achei que valia a pena dar meus dois centavos aqui.

Apesar do grande número de garotas gamers, e desse número crescer a cada dia, as pessoas insistem em achar que "videogame é coisa de menino" e que um game não vai vender se não tiver protagonistas homens fazendo coisas de homens. *suspiro*

Muita gente acha que é frescura quando se fala em machismo em jogos, mas ouçam a história que tenho para contar e vejam se conseguem entender meu ponto.

Olha, sou uma tentativa de escritora, e tentativa de cartunista, e sempre fui fascinada com contação de histórias. Pra mim, videogames sempre atraíram quando permitiram que eu interagisse com uma história (mesmo que boa parte dessa história se passe na minha cabeça). Logo, já digo de saída que nunca jogo nada em busca de dificuldade e grandes desafios, mas como uma forma high-tech de brincar com bonecos vivendo aventuras - as falas e a trama que o jogo pode ter são bônus muitíssimo bem-vindos. Agora, ficar horas morrendo num trecho de jogo porque meu timing em apertar um botão não é bom é algo que dispenso totalmente. É por isso que, de maneira geral, só jogo no fácil, com emuladores que me permitam ir salvando a hora que eu quiser e, se necessário, usando códigos que facilitem as partes de batalha. (Ganhar level em RPG é outra coisa que não me desce.)

Enfim, é difícil achar o tipo de jogo que eu gosto, e ainda mais difícil conciliar o jogo com minhas milhares de inventações de moda, mas houve um tempo que jogos de Game Boy, NES e SuperNES me entretiveram por tardes a fio (usando slots para salvá-los a cada progresso, claro). Foi numa dessas que me apeguei à série Castlevania. Não tem nada para não se gostar na série: é sobre caçadores de vampiros (os Belmont) que saem matando cruz-credos com um chicote e outras armas... e é isso. O grande vilão da série é Drácula (claro) e o climão dark dos jogos, mesmo quando feitos com os gráficos mais pixelizados do mundo, são um atrativo à parte.

Mais ou menos quando descobri toda a magia de Castlevania, joguei Pokémon Gold/Silver pela primeira vez. E, pela primeira vez, joguei um jogo onde você podia escolher entre dois protagonistas: um menino e uma menina. UMA MENINA. Todos os personagens com os quais eu já tinha jogado antes eram homens. TODOS. A primeira vez que joguei com uma menina, em pokémon, percebi que isso era algo que eu tinha sentido falta o tempo todo, só não sabia disso ainda.

Não me entendam mal. Por mim, não há nada de errado em você controlar, em um jogo, um protagonista que não seja do mesmo sexo que você. É só que, de uma dúzia de jogos que eu já tinha experimentado, NENHUM tinha uma garota com a qual eu pudesse jogar. A variedade me deixou muito feliz. Foi aí que, procurando por novos Castlevanias, topei com a história de Castlevania Legends e sua heroína, Sonia Belmont.

A primeira coisa digna de nota a respeito dela é seu visual:

Tá encarando o quê?!

Cara de poucos amigos, coberta de roupas e carregando uma arma. "OMGOMGOMG", pensou meu eu de 15 anos, "agora sim tenho uma foto decente e maneira pra caramba pra colocar como meu avatar em sites de games, ao invés daquela rosidão de Peach e Zelda, ou aquelas caras de bobalhonas das assistentes de herois dos jogos."

De acordo com o jogo, estamos no século XV e Sonia e seu avô são os últimos da família Belmont (já que nenhum outro parente é mencionado), uma família de nobres valorosos. Ela possui o poder de ver coisas sobrenaturais, e foi treinada para a luta contra criaturas da noite. Aos 17 anos, ela conhece um jovem chamado Alucard e os dois ficam muito... amigos. Daí, o jovem sai em busca de seu pai e Sonia toca sua vida. Noite dessas, ela volta para seu castelo, apenas para achá-lo arrasado pelos servos de Drácula e seu avô mortalmente ferido. Ela pega o chicote dele, o Vampire Killer, como lembrança em sua cruzada contra a opressão de Drácula e em busca de vingança. Ela, então, invade o castelo de Drácula e, a cada monstro morto, suas habilidades de combate crescem, graças ao chicote.

Quando ela está a caminho de mostrar um pouco de JUSTIÇA ao Conde, Sonia se encontra com seu... amigo Alucard e os dois se surpreendem ao se verem. Ele diz que é filho do Conde e que sente que é sua obrigação parar seu pai. Alucard também diz que essa aventura é muito perigosa para ela, e manda que ela volte pra casa (e pra cozinha, aparentemente), enquanto ele faz seu trabalho de herói. O teor da resposta de Sonia é sem preço:

"Como se VOCÊ fosse páreo pra ele."

(OK, não foram essas as exatas palavras, mas foi algo por aí. E isso por que há uma clara tensão romântica entre os dois, o que não a impede de mandá-lo às favas com sua preocupação cavalheiresca.)

Alucard fica mordido, claro, e diz a Sonia que ele só vai deixá-la enfrentar Drácula se ela puder vencê-lo em combate. Ao que ela responde algo como "vambora" e limpa o chão com ele. Alucard, ferido em seu orgulho, diz que aprendeu uma lição naquela noite e decide entrar em sono eterno, já que ele ainda ama seu pai (apesar de tudo) e não quer testemunhar a queda dele. Ou algo assim.

Mau perdedor você, Alucard.

Independente do motivo, Sonia vai em frente, e limpa o chão com Drácula também. Enquanto ele morre (pelo menos pelos próximos tantos anos), o vampiro usa o clássico jargão de "você me venceu agora, mas eu voltarei", ao que Sonia responde, friamente: "Quando você voltar, se eu não estiver aqui, outro estará em meu lugar." Após isso, ela caminha em direção ao horizonte, parando apenas para ver o castelo de Drácula se desfazer em ruínas.

CARA, ISSO FOI TÃO LEGAL, EU NUNCA TINHA JOGADO COM UMA MULHER TÃO LEGAL, QUE REALMENTE MATA OS MONSTROS E TEM ESSAS FALAS MANEIRAS. *-* ~> Direto do meu eu de 15 anos. Tenha paciência com essa antiga Adriana, ela gostava de Caps Lock. Mais do que eu gosto hoje, quero dizer.

Como se Sonia não fosse durona o bastante pra bater no namorado e no vilão e ainda parecer bacanuda, o final bom do jogo diz que Sonia logo depois teve um filho, para continuar o legado dos Belmont. Se isso parece bobagem, ou parece indicar que ela foi pra cozinha depois de matar Drácula, duas informações:

a) O filho dela é um Belmont, o que quer dizer que, ou ela se casou com um parente (o que não parece ser o caso, já que Drácula parece ter matado toda a sua família), ou ela foi mãe solteira. Freaking mãe solteira no século XV! E, pela sua cara na tela de créditos, tava ligando um nada para o que os outros pensam disso.

...e ele que não treine, não, pra ver o que lhe acontece.

b) Esse menino é ninguém menos que Trevor Belmont, um dos Belmont mais durões da série. Não sei vocês, mas eu gostava de imaginar Sonia com o Vampire Killer na mão, treinando seu filho a chicotadas até ele virar o Trevor que todos conhecem e respeitam. E melhor ainda era imaginar Trevor, homem alto e espadaúdo, tomar a mão dela dizendo, humilde "bença, mãe".

Bença, mãe.

c) Sonia mãe solteira... Filho nascido pouco depois da despedida dela e do Alucard... OH GOD, A SONIA E O ALUCARD... NÉ? <3 br="br"> De acordo com o jogo, fica estabelcido que Drácula e Alucard se tornaram vampiros porque Drácula vendeu sua alma e a do filho ao demônio em troca de poder, e que os Belmont são descendentes da incrivelmente durona Sonia e, ao que dá a entender de Alucard também, criando a deliciosa ironia de vermos a família que persegue Drácula tão duramente ser, na verdade, aparentada a ele. (Isso se casa com as lendas da Europa Oriental, onde os melhores caçadores de vampiros são os meio-vampiros...)

Eu estava feliz com essa. O jogo é feioso e nenhuma obra-prima, mas foi divertido. Além disso, Sonia Belmont é uma das raras heroínas que toma o destino nas próprias mãos, dá um chega pra lá no namorado quando ele começa a querer ficar dominador demais, prova seu valor, encontra seu destino e ainda se torna uma lenda. O que há aqui para não se gostar?

Foi aí que aconteceu algo chamado Castlevania: Lamment of Inocence. Não me entendam mal: é um bom jogo, e a história pode até ser clichezinha, mas é bacana. Basicamente, o jogo propõe uma nova origem para Drácula e os Belmont, que entra em conflito direto com a história de Sonia. Com isso, o jogo dela foi cortado da cronologia oficial. Até ai, beleza, retcons acontecem o tempo todo. Mas vejam o que o chefe da equipe de desenvolvimento de Castlevania, Koji Igarashi, alegou para ter cortado Sonia, ao invés de fazer um remake do jogo dela (eles já tinham feito 3 remakes do primeiro Castlevania):

"EGM: Você faria um Castlevania com uma personagem principal feminina?

IGA: Hm, tem problemas complicados com isso. Como jogador, acho que você se torna um com o personagem e já que Castlevania tem muitos jogadores homens, é natural termos personagens homens. Em Rondo of Blood, Maria eram uma assistente bobinha e bonitinha, mas você ainda tinha Richter para tornar a coisa séria. (...)



EGM: Depois de Tomb Raider, você não acha que uma personagem feminina seria mais aceitável?

IGA: É possível, acho. Apesar de que eu cortei a personagem Sonia Belmont (de Castlevania Legends, pra GBC) da cronologia oficial de propósito. (Risos.) Geralmente, nas histórias de vampiros, mulheres tendem a ser sacrificadas. É mais fácil, então criar personagens fracas e femininas. Vou pensar mais nisso no futuro, entretanto. É difícil encaixar uma heroína nas histórias mais antigas de Castlevania, mas à medida que você se move para os dias de hoje, é mais fácil mulheres se tornarem heroínas."

A entrevista completa é de 2003 e pode ser lida nesse link: https://groups.google.com/forum/?hl=en&fromgroups=#!topic/alt.fan.nb/MKYmUPKsZxw


Tipo, SÉRIO CARAS, vocês cortaram uma protagonista legal pra caramba da série porque "em histórias de vampiros, mulheres são sacrificadas"?! E não me venham com essa história de que no século XV é pouco provável que uma mulher seja heroína, mimimi. ESSA É UMA FREAKING HISTÓRIA DE VAMPIROS, DROGA. Fidelidade na representação do machismo de fins da Idade Média é o que menos importa nesse ponto. Tantos personagens foram reconstruídos, como o próprio Drácula, o Alucard, o Trevor, CUSTAVA reconstruir a Sonia e ter mais uma mulher forte na franquia? Melhor, uma FREAKING BELMONT MULHER?! Mas nããããão. "Menino não gosta de jogar no papel de menina, mimimimimimimi", a desculpa MAIS FURADA EVER desde Samus Aran e Lara Croft.

É claro que o cara não é o pior homem da face da Terra, claro que personagens femininas continuaram sendo auxiliares (muitas jogáveis) em Castlevania e, recentemente, criaram uma protagonista mulher, a Shanoa (que não é uma Belmont D:), acho que tentando apagar essa imagem machista criada por essa entrevista infeliz. O fato é que explicações assim nem sequer cabem nos dias de hoje. A entrevista nem é da década de 70 ou 80 para justificar a desculpa esfarrapada de que "Castlevania é jogo de homem".

Minha zica  aqui não é contra o Igarashi, contra a Konami, ou um mero mimimi de fã que queria a Sonia de volta ao canon (apesar de eu não ficar triste se isso acontecer). O que me deixa preocupada é: quantas boas histórias estão sendo deixadas de lado porque "isso ou aquilo não é coisa de menino ou de menina"? Quantos planos para novas heroínas (e heróis menos convencionais, por que não?) estão sendo engavetados porque algumas pessoas não se sentem confortáveis criando histórias com eles e nem se esforçam para sair do terreno do clichê?

Sei que aspirantes a autores, cartunistas e desenvolvedores de jogos acessam esse blog vez por outra. Vamos todos então nos questionar isso de tempos em tempos, então?

Sonia resolve o problema de seu corte da cronologia de forma delicada e feminina.

domingo, 22 de julho de 2012

Recap de Drácula - Parte 2

Vamos continuar nossa cruzada no esclarecimento de quem nunca leu Drácula, o livro, na vida. Se você caiu aqui de pára-quedas, volte na parte 1 agora!

Se já leu a parte 1, pode clicar na quebra. É a hora de Mina Harker, uma das heroínas mais injustiçadas da literatura, mostrar a que veio. Aproveito para mostrar por que eu acho que esse livro pode até não ser feminista, mas está longe de ter uma mensagem machista. (E por mais que a Liga Extraordinária de Moore seja legal e eu tenha gostado... por mais que as desconstruções de Drácula sejam legais... Eu não consigo ver o casamento dela com Jonathan se deteriorando depois da morte de Drácula, nem Mina sentindo qualquer saudade do Conde. Malzaê.)


domingo, 15 de julho de 2012

Recap de Drácula - Parte 1

Ando meio relapsa, né? (Meio é apelido, eu sei...) Mas é que manter mais de um blog é um movimento ninja que eu não aprendi direito, e como Bram & Vlad está atualizando toda semana, já dá pra ver que os outros setores da minha internerd andam capengando.

Pra hoje, escolhi fazer um post cheio de spoilers (mwahaha), ou nem tão spoilers assim, recontando a história do livro Drácula pela minha perspectiva. Por quê? Um monte de gente diz que quer ler Drácula, mas quando vê que o livro é um tijolinho, liga o modo Nemly & Nemlerey e segue perdendo uma história muito bacana. Pior: a maioria das pessoas acredita piamente que as versões cinematográficas guardam alguma fidelidade aos livros (pobres ingênuos...) e que Drácula, em sua origem tinha alguma semelhança com Bela Lugosi. Amores de minh'alma, o livro Drácula NÃO é uma história de amor impossível entre um vampiro secular atormentado e uma mocinha, e Coppola seja amaldiçoado por fazer as pessoas pensarem isso, com seu filme.

Então, pra quem já leu o livro e não achou essa Coca-Cola toda (talvez porque esperava que Drácula fosse um anti-herói atormentado apaixonado pelas mocinhas que morde) e pra quem não leu e diz que vai ler, mas sabe no fundo da alma que não, não vai, logo depois da quebra, temos uma versão condensada do livro. a primeira parte, pelo menos, isso acabou ficando maior do que eu esperava... No final dessa parte, um breve pensamento meu a respeito da teoria de alguns, de que Drácula é o verdadeiro herói do livro, salvando as mocinhas da sociedade vitoriana repressora.

Bom proveito!

domingo, 3 de junho de 2012

Problem?

A resposta da Cris ao post sobre pôneis e como viramos pôneis de pelúcia.

Eu tenho asas, lalalalala!

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Zumbis e "mimimi, descaracterização de personagens"

Mais cedo, no twitter, a @lidiazuin levantou uma discussão a respeito do porquê de zumbis estarem fazendo tanto sucesso na cultura pop. A moça é da opinião que o senso de anarquia despertado por um apocalipse zumbi mexe com nosso sentimentos. O @bschlatter (nesse post) explora o fato de que as hordas de zumbis destruindo tudo podem evocar inconscientemente os grupos sociais emergentes, como imigrantes e moradores de favelas, que galgam a cada dia um degrau na escala social, incomodando as classes média e alta, que os vêem com temor e alguma repulsa. O @hugovera comentou que os zumbis viraram a escolha de quem estava cansado dos vampiros terem virados todos uns frescos e esse post do Dan Birlew (em inglês) ainda toca no fato de que zumbis são sacos de pancadas ambulantes, e transformam um mundo num lugar onde a única  habilidade que realmente conta é a de espancar cadáveres ambulantes até eles pararem de se mexer.

Não é bem sobre isso que eu quero falar, mas ok.

É que essa discussão me lembrou, até certo ponto, a eterna lenga-lenga de fãs de fantasia a respeito de como tal ou tal criatura fantástica deve agir, ou quais características elas devem ter. Nesse post, eu comentei sobre o porquê de Crepúsculo ter sido tão mal recebido por fãs mais tradicionais de vampiros (o post da estilização e talz), mas acho que uma coisa não ficou clara ao final dele: sim, eu acho que, num mundo como o de hoje, onde informação está a uma wikipedia de distância, não custa nada você pesquisar e se informar antes de escrever um livro para saber qual tipo de criatura casa melhor com ele. Mas não, eu não sou advogada do pensamento de que "[criatura X] de verdade é assim, assim e assada". Não acho que liberdades criativas sejam ruins, ou não teríamos metade dos ícones pop de hoje. No post da estilização do vampiro, toquei de leve no fato de que o que conhecemos hoje como vampiro é mais uma criação hollywoodiana que tudo (o artigo do Dan ali em cima cai nessa armadilha ao atribuir a Drácula razões românticas - sendo que, no livro de origem ele é um personagem tudo, menos romântico...). Hoje, quero falar de zumbis, porque são os queridinhos da vez e os exemplos máximos do que estou querendo dizer.

Antes de mais nada, os zumbis já começam com o pé esquerdo no nome. O termo "zumbi" foi criado não para designar cadáveres meio apodrecidos andando por aí atrás de cérebros. Ele foi pego de empréstimo do vudu (crença haitiana de raízes africanas), onde serve para designar um cadáver que um feiticeiro vudu reanima para que se torne um escravo sem vontade própria. Esse cadáver tem um andar vacilante, não fala, não faz nada sem ter sido ordenado e é completamente leal ao feiticeiro que o levantou. Ah, e ele dificilmente pode ser diferenciado de um vivo comum.

Os casos de zumbificação no vudu têm uma explicação dentro de nossos conceitos cientificamente aceitos: o feiticeiro vudu (nunca vi o termo "voodoo doctor" ser traduzido como "doutor vudu") ministra à pessoa uma droga natural que faz com que ela pareça morta, já que ela sofre uma forte catalepsia associada à paralisia dos músculos, e, quando os efeitos da droga passam, antes que ela volte totalmente a si, ela ingere uma segunda droga que a deixa completamente dopada e incapaz de pensar claramente. Não é à toa que alguém que tome doses muito altas de antidepressivos às vezes é chamado de "zumbi".

O grande criador do gênero de zumbis como o conhecemos hoje é o filme "A Noite dos Mortos-Vivos", de 1968, do diretor George Romero. Chega a ser irônico que a palavra "zumbi" nunca foi usada no filme, onde os mortos vivos eram chamados de... mortos-vivos, ou de "ghouls". Ghoul é um ser da mitologia árabe, que pode ou não ser um morto-vivo, cuja maior característica é matar pessoas e se alimentar do cadáver. Em alguns mitos, o ghoul ainda toma a aparência e as lembranças do morto que consumiu.

Nesse filme, já temos algumas características do que seria característica básica dos zumbis daí por diante: mortos-vivos que comem pessoas e transmitem sua condição através de mordidas. O surgimento do surto de zumbis, no filme, é atribuído a uma sonda espacial que voltou de sua missão carregada de radiação venusiana e caiu nas redondezas do lugar onde houve um incidente. Isso prenuncia o fato de que quase todos os zumbis da atualidade têm sua origem em um fato "científico" qualquer, como um vírus, radiações bizarras ou qualquer outro experimento que falhou. Com a sequência "A Madrugada dos Mortos", mortos-vivos devoradores de gente ganharam seu nicho na cultura pop como agentes do apocalipse, capazes de reduzir o mundo como o conhecemos a meras ruínas.

Muitos filmes, desde então, pegaram o conceito de Noite dos Mortos-Vivos e o expandiram. Em 1985 (quase 20 anos depois do filme de Romero), veio O Retorno dos Mortos-Vivos, um filme de comédia onde se popularizou o conceito de que o alimento primordial do zumbi é o cérebro da vítima. O enorme sucesso desse filme fez com que outras comédias de zumbi aparecessem e o tema se desgastasse como algo muito mais engraçado do que assustador.

Um dos responsáveis pela volta dos zumbis como criaturas temíveis foi o game Resident Evil, de 1996, onde zumbis são criados graças a um vírus desenvolvido por uma companhia farmacêutica inescrupulosa.

OK, agora que vocês já sabem de onde vêm os zumbis, já deve ter pressentido o frankenstein de referências que o zumbi moderno é (e não, o monstro de Frankenstein não é um zumbi, é só morto-vivo). O alicerce da história de zumbi atual vêm do mito original do vampiro nos países eslávicos: alguém, de repente, entra num lugar meio esquisito, e logo percebe que é um covil de vampiros e precisa fugir desesperadamente antes de ter todo o sangue sugado e, com isso, se tornar também um morto-vivo. Esse plot foi levado a extensões apocalípticas no livro Eu Sou a Lenda (recentemente virou filme), onde um homem é o último humano no meio de um mundo inteiro de vampiros. Antes que alguém ache que estou sendo bairrista atribuindo o nascimento dos zumbis aos vampiros, saibam que Eu Sou a Lenda foi a base de George Romero para A Noite dos Mortos-Vivos. RÁ!

O que Romero fez foi fazer seus mortos-vivos comerem carne humana ao invés de sangue, não terem qualquer traço de inteligência humana, e serem criados por radiação venusiana, ao invés de qualquer que seja a força mística que faça vampiros se levantarem. A parte antropofágica foi tirada dos ghouls e a parte de "sem inteligência" foi o quase que o único traço que restou dos zumbis haitianos originais. Resident Evil trocou radiação, cemitérios amaldiçoados e outras causas mais ou menos sobrenaturais por um vírus.

Sério, se algum conservador dissesse pros seguidores de George Romero que zumbis não são cadáveres comedores de gente e que bons mesmos são os filmes onde pessoas têm que lidar com humanos escravizados por feiticeiros vudus, é possível que esse artigo aqui não existisse. Eles desfiguraram quase completamente o mito original dos zumbis e o transformaram no que é hoje. Não foi uma pessoa que inventou o conceito atual de zumbi, foi o Romero que deu o chute inicial e muitas outras pessoas completaram. Sendo assim, acho meio que hipocrisia e mente curta quando as pessoas começam a dizer que tal ser deve agir assim ou assado, ainda mais quando esses seres sequer existem, e a construção de como agem e de quais são seus poderes e limites é parte da diversão de criar histórias com eles.

As pessoas puderam desfigurar o mito do zumbi até não sobrar quase nada de sua raiz haitiana porque zumbis não eram grandes conhecidos do público, nem faziam parte massivamente da cultura pop. Stephenie Meyer tropeçou porque pegou uma criatura que já tem características enraizadas na mente do público e escolheu muito poucas dessas características na construção de seus personagens. Mas que fique claro que o ato dela ter criado um novo modelo de vampiros não é, em si, condenável. Renovação faz parte de você ser uma criatura ficcional, e faz personagens se tornarem atraentes para novos públicos. Se você não gostou de como um autor representou a criatura que você gosta, ignore e não consuma. O tempo vai dizer se o que ele fez vai entrar para a cultura pop de amanhã (e você vai ser só mais um velhinho dizendo como os velhos tempos eram melhores), ou se vai ser ignorado como o ponto fora da curva que foi.

Acho que foi o sentimento expresso pelo texto anterior que fez Diego dar esse conselho, n'O Conservatório: "Olha, não gostou [de como eu sou], vai pra casa e escreve um livro sobre como os vampiros deveriam ser. É o que todos fazem."

Pois é. E isso vale pra qualquer criatura fantástica, de zumbis a pôneis coloridos. Fica aí a dica.



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BÔNUS: Se querem saber minha opinião sobre a discussão que abriu o post, acho que todos os que citei estão parte certos sobre o fenômeno dos zumbis ser tão popular, e eu ainda acrescentaria a origem pseudo-científica do apocalipse zumbi. O fato de zumbis serem criados (hoje) por vírus, engenharia genética ou outras ciências top de linha fazem deles mais próximos de nós que qualquer criatura criada por forças do mal sobrenaturais.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Era uma vez um casal de pôneis

Ei, Adriana falando! :D

Além de desenhar (desenho as tirinhas do blog Bram & Vlad, pra quem não sabe - só não desenho as tirinhas do Diego porque quem resolveu fazer resenha em quadrinhos foi ele, logo, ele que se vire com a dor de cabeça), também gosto de trabalhos manuais. Não sempre, não como meio de fazer grana, só pra passar o tempo e fabricar um ou outro brinquedo. Sério, quando eu era criança, eu queria ficar famosa só pra existir uma linha de brinquedos dos meus personagens e eu poder apresentá-los ao elefante cor-de-rosa de pelúcia que uso para dormir.

É, eu era uma criança forever alone.

ENFIM, quando descobri o incrível mundo dos trabalhos manuais, descobri que eu podia fazer meus próprios brinquedos personalizados, sem todo aquele caminho chato para a fama (que fique registrado: hoje, escrevo e desenho uma webcomic por razões diferentes daquelas da infância. Mais ou menos).

Estou fazendo esse post só pra mostrar um crossover que fiz entre O Conservatório e a minha mais nova mania nerd. :B

Vou começar com um papercraft da Cristina e do Diego, os protagonistas, usando o molde do aplicativo Buddy Poke. Fiz porque queria desesperadamente bonequinhos deles, e eles me ajudaram em algumas cenas.



Só que bonecos de papel amassam e voam (a razão pela qual só sobrou desses dois essa foto meio fora de foco). Eu queria algo mais palpável. Foi quando aprendi a costurar bonecos de feltro. Eu poderia ter feito o Dieguito e a Cris facilmente no mesmo estilo que fiz Bram e Vlad, mas a vida é mais estranha que minhas expectativas. Os bonecos dos dois acabaram sendo... pôneis no estilo My Little Pony: Friendship is Magic.

Peraí, o quê?

Isso vai demandar um pouco mais de explicação antes de mostrar a foto...

Em primeiro lugar, My Little Pony é uma série de pôneis de brinquedo coloridos, com crina e cauda penteáveis. É um brinquedo considerado feminino, e suas origens são bem antigas. Daí, na década de 80, a Hasbro, fabricante dos pôneis (e dos Comandos em Ação, dos Transformers e outros), decidiu que a melhor forma de fazer as crianças quererem seus brinquedos era fazer desenhos animados com eles, e o resto é história.

A série de MLP da década de 80 tinha uma mecânica não muito diferente de Ursinhos Carinhosos, Moranguinho e outros desenhos "de menina" da época, e não tinha roteiros lá muito primorosos (a bem da justiça, o desenho dos Transformers - brinquedos "de menino" - também não). Mesmo assim, cumpriu sua função e tem um forte valor de nostalgia nos States.

Pôneis da década de 80. Não vou dizer que não eram fofas do seu jeito. 

De lá pra cá, os designs dos pôneis mudaram bastante, uma nova série animada foi lançada em DVD lá pelos idos de 2000 e pouco (e quanto menos falarmos dela, melhor para todos os envolvidos) e a franquia estava meio balançada, pedindo renovação.

Foi quando veio Lauren Faust e fez-se a luz.

Lauren, para quem não conhece, é a desenhista das Meninas Super-Poderosas (o marido dela era o produtor da série). É, aquele desenho onde as personagens principais eram meninas que chutavam traseiros,  eram legais pra caramba e provou que um desenho não precisa ser protagonizado por meninos para que outros meninos queiram assistir. Essa mulher foi convidada pela Hasbro para escrever a série animada nova de My Little Pony (a série Friendship is Magic, "A Amizade é Mágica", no Brasil), e ela fez pelos pôneis saltitantes o que seu marido tinha feito pelas Meninas: de repente, garotos de várias idades e mesmo homens feitos (maioria hetersossexual, antes que comecem as piadinhas infantis) começaram a assistir um desenho protagonizado por seis pôneis fêmeas.

As razões para esse fenômeno são várias, só posso dizer por que eu assisti o desenho de pura curiosidade e gostei: primeiro, o esquema de cores dele é LINDO, é um desenho que enche os olhos. A decisão da equipe de arte de fazer o contorno dos pôneis com um traço BEM grosso e uma cor ligeiramente mais escura que o resto e não com o preto tradicional foi muito esperta. Ah, e a movimentação dos pôneis é de babar. Fica ainda mais impressionante se soubermos que o desenho é animado em FLASH. É. Naquele mesmo programa das animações "duras" que a gente vê por aí. Os animadores de MLP tiram leite de pedra do flash, a própria Lauren ficava espantada com o que eles conseguem fazer.

<3

Essa é a parte visual, que me atraiu a princípio. O que me segurou, mesmo, foi que (a) o desenho é cheio de piadinhas visuais que tornam um prazer assistir mesmo aqueles de roteiro mais parado e/ou clichê e (b) o desenho foi desenvolvido todo em cima das personalidades das seis pôneis principais. Não são elas que são jogadas no plot e reagem de acordo, é o plot que se acomoda a elas. Além disso, nunca pensei que fosse dizer isso de um desenho de crianças, mas as protagonistas têm mais camadas e desenvolvimento que muito personagem de livro que andei lendo por aí. E elas desafiam estereótipos, como a roxinha Twilight Sparkle (Qualquer referência a Edward Cullen é mero acidente. Ou não.) sendo a nerd do grupo E a líder (e não uma mera enciclopédia a favor do líder tapadinho, mas corajoso e de bom coração) ou a Rarity, a pônei branca, que é a patty dramaqueen do grupo, mas é generosa, capaz de sair sozinha de situações de perigo graças a seu cérebro (e não um kung-fu improvisado ou algo assim) e que, mesmo corroída de ciúmes e inveja de uma amiga, ainda a salva da humilhação pública sem pensar duas vezes (não, não foi uma daquelas situações onde a pessoa tem que escolher entre manter a amizade ou deixar o outro se ferrar e satisfazer sua inveja, foi algo natural e espontâneo, do tipo "minha amiga está com problemas e posso ajudar, todo o resto foi temporariamente apagado de minha mente").

Sei lá, você meio que se apega a esses personagens, e descobre que os vinte minutos do episódio foram talvez o momento mais agradável do seu dia. Que, pelo menos por vinte minutos, você assistiu algo que fala sobre respeito, amizade, generosidade, superação de dificuldades e de defeitos, e até mesmo sobre como uma dificuldade grande demais pra você superar sozinha pode te levar à insanidade clínica (todas as cinco pôneis sofrem de pelo menos um mal psiquiátrico em algum ponto da série, pra bom entendedor. O mais assustador, de longe, é o ataque esquizofrênico de Pinkie Pie, que não consegue lidar bem com o fato de que todas as suas amigas parecem estar evitando a todo custo seu convite para uma festa), tudo isso com leveza, bom humor e respeito à sua inteligência de adulto e à das crianças que são o público alvo.

Agora que você sabe por que sou fã, dá pra explicar onde Diego e Cristina foram parar nisso tudo. Bom, entre a comunidade de fãs de MLP, a palavra de ordem é representar como pôneis coloridos basicamente qualquer coisa. A famosa Regra 34 diz que, se existe algo, a internet tem pornô envolvendo esse algo. A Regra 34b diz que, se existe algo, a internet tem uma versão desse algo como pônei de MLP: FIM. Videogames famosos, outros desenhos, série de TV, filmes, personagens de livro, qualquer coisa que esteja em alta na cultura pop tem sua versão ponificada. Olhem que fofos esses cientistas famosos desenhados como pôneis: http://namingway.deviantart.com/art/The-Ponies-of-SCIENCE-264411200

Para construir as versões MLP de Diego e Cristina, peguei moldes de pôneis de pelúcia no DeviantArt (nesse perfil) e matutei sobre várias coisas. Lembram que falei da identidade visual do desenho? Tudo em MLP: FIM tem um significado: a cor do corpo do pônei, sua crina, o fato de ele possuir ou não chifre ou asas, a marquinha que ele tem nas coxas... Para os fãs ou não de My Little Pony, lá vai o raciocínio:

Cristina é uma garota fechada e mal-humorada, que parece ter um pouco menos de vitalidade que o resto das pessoas em volta. Achei que a combinação de cinza e preto cairia bem com essa personalidade. Ela ganhou o chifre de unicórnio porque, com sua mágica, pode fazer menos esforço físico que os pôneis normais. A marca na coxa é chamada "marca especial" ("cutie mark"), e a da Cris são três teclas de piano, porque ela, bem, toca piano. A crina num esquema meio Twilight Sparkle acabou fazendo a pônei ficar bem a cara da Cristina, mesmo. Como pôneis não tem nome de gente, pus nela o nome de Dó Menor.

Diego foi o mais difícil. O mais fácil seria fazê-lo branco com uma crina preta e cacheada, para ele ficar parecido com suas fotos e desenhos, mas lembra que eu disse que tudo num pônei é significativo? O codinome dele no livro é Sol Maior (é um dos acordes mais abertos e brilhantes, como o próprio Diego), daí, resolvi usar isso para fazê-lo. Primeiro, ele seria amarelo, com crina laranja e vermelha. Daí, imaginei que ele ficaria muito parecido com a pônei Spitfire do desenho, e preferi mudar sua cor para branco e fazer a crina tricolor (até porque Diego é um cara atraente e, como a maioria dos pôneis têm crina mono ou bicolor, achei que uma tricolor num padrão de fogo poderia ser visto como atraente). O esquema de "fogo" vem por causa de "Sol", claro. E porque a personalidade do Diego é bem "fogo", mesmo, sendo a Cris mais pra "gelo". A marca especial é uma clave de sol (duh) brilhante, lembrando a música e fazendo trocadilho com o Sol propriamente dito. Adicionei as asas porque os pégasos são os pôneis mais relacionados à velocidade e ao esporte e isso cai nele como uma luva.

CONTEMPLEM o trabalho final de Sol Maior e Dó Menor 

Vou ser honesta, fiz os dois como protótipos, usando cola ao invés de linha e agulha, só para ver se os moldes funcionavam, se precisavam de ajustes, e que cuidados eu deveria ter ao costurar para não desperdiçar tempo e tecido. Mas vamos lá, quem diria que o simples exercício de transformar seu personagem num pônei colorido ia demandar conhecer tão a fundo sua personalidade? ;)

Pra quem quer fazer pôneis de seus personagens, mas não tá a fim de costurar, tem um gerador de pôneis facinho de usar aqui, ó: http://generalzoi.deviantart.com/art/Pony-Creator-Full-Version-254295904

Amor e tolerância para todos. o/


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OBS: Para ver Pinkie Pie surtando com legendas, vá mais para o fim desse vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=u2skHDDoWiY

segunda-feira, 2 de abril de 2012

É. Eu li Crepúsculo. Me processem.

Era para eu ter postado isso ontem, mas a Annette nos chamou na sede da Polícia e disse: "Hoje vocês terão 4 horas de treinamento extra." Quando viu nossas faces caídas por termos trabalho num domingo, ela acrescentou: "Rá! Primeiro de abril! São seis horas de treinamento! Agora mexam-se!" #estagiáriodadepressão

Crepúsculo seria bem mais legal se fosse uma sátira. Quer dizer, um vampiro não poder sair no Sol porque brilha? Imaginem o potencial imenso de piadas com um machão/gótico/metaleiro que vire vampiro! Ia ser a bofetada do século na cara dos posers!